Para linguista, renomeação de ruas paulistanas gerou perda de significado

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Marcelo Pellegrini / Agência USP

Nomes de locais públicos, como ruas e avenidas, são componentes da memória cultural de um povo. Porém, no caso paulistano, nomes de ruas importantes significam muito pouco para os moradores da cidade. Poucas pessoas sabem que a rua Maria Marcolina é em homenagem a uma moradora que foi benfeitora para o bairro do Brás, por exemplo. Ou que a rua do Glicério presta homenagem ao republicano paulista Francisco Glicério.

Devido a isso, um estudo da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP demonstra as mudanças de nomenclatura que as ruas dos bairros do Brás, Bexiga e Barra Funda sofreram durante o período republicano, na tentativa de explicar a perda do significado direto do nome destas ruas para os paulistanos.

De acordo com a linguista e pesquisadora Alessandra Cirrincione, os nomes atribuídos às ruas possuem um valor simbólico para a história e para a memória do local. “Os nomes dos espaços público são referências à memória histórica e cultural da comunidade ou se referem ao ambiente como a rua Baixa (na Barra Funda), assim batizada por estar localizada na parte mais baixa do bairro, por exemplo. Os nomes também podem se referir ao estado de espírito do homem que denomina o lugar e geralmente estão relacionados a conceitos abstratos como beleza, tristeza, feiúra, etc (rua Alegre, rua Bonita, rua Triste). Em última análise, as ruas também representam uma interpretação do ambiente”, destaca Alessandra.

A Proclamação da República, em 1889, deu início ao processo de renomeação das ruas da cidade de São Paulo, de acordo com Alessandra.

A nova nomenclatura, que homenageava os heróis republicanos, era uma tentativa de criar uma identidade republicana brasileira e de desvincular a sociedade da monarquia. “Trocou-se nomes como rua do Imperador para rua Marechal Deodoro, rua da Princesa por rua Benjamin Constant, e o largo 7 de abril para praça da República”, exemplifica a linguista. “Essa era a forma mais rápida de instaurar um ideal republicano. As outras manifestações culturais responsáveis por isso levavam muito mais tempo”, completa.

No entanto, este movimento ultrapassou os limites do centro da cidade e foi além dos nomes que remetiam à monarquia. Logo, diversas nomenclaturas de origem popular, criadas pelos moradores, e de origem indígena espalhadas por toda a cidade cederam lugar a nomes de personagens republicanos. “Isto destruiu um patrimônio cultural paulistano. Quando um nome de algum local público é alterado, a próxima geração perde os vínculos com o nome anterior. É um processo sem volta, que elimina parte da memória da cidade”, argumenta.

Nomeações anteriores a 1889

As primeiras nomeações de ruas e locais públicos no Brasil eram informais e se referiam aos locatários ou aos conventos e igrejas que serviam como ponto de referência da região. Após a vinda da família real para o País, em 1808, surgiram as primeiras nomeações oficiais dos espaços públicos.

Na ocasião, o rei Dom João precisava de dinheiro para instalar no Rio de Janeiro a corte portuguesa, que fugia da invasão napoleônica. Por isso, todas as ruas foram nomeadas e numeradas para o recolhimento de imposto e, por decreto, os espaços públicos passaram a ser nomeados pela Câmara dos Vereadores. Muitos logradouros mantiveram suas denominações ligadas a aspectos físicos e paisagísticos (rua Baixa, rua da Alegria). Os rios mantiveram todos as suas antigas denominações indígenas, como por exemplo, o rio Tamanduateí (do tupi: tamanduás em grande número), conhecido popularmente em época colonial também como rio das Sete Voltas.

Do final da República Velha, em 1926, até hoje restaram apenas 19 nomes de ruas em língua indígena, nos bairros do Brás, da Bela Vista e da Barra Funda. Em contrapartida, o movimento inseriu o Brasil nos países modernos que tem seus nomes de rua em homenagem a seus heróis populares.

Mais informações: email alessandracirrincione@usp.br

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