Evento do IPq busca difundir para o público leigo psiquiatria sem tabus

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O docente Wagner Gattaz, do Instituto de Psiquiatria (IPq) da USP, e coordenador do evento IPq Portas Abertas 2013: conversa com a sociedade, conta que se baseou em uma tradição existente na Universidade de Heidelberg (Alemanha) para realizar as sessões que acontecem no próximo dia 29 de agosto.

Quando trabalhava na Alemanha, Gattaz entrou em contato com a proposta que, lá, existe desde 1978 como um programa de abertura do instituto de psiquiatria local à comunidade. O intuito do programa era aproximar essa comunidade da psiquiatria, divulgando a especialidade e contribuindo, assim, para a quebra de tabus, preconceitos e estigmas relacionados ao seu campo de estudo.

“A psiquiatria é coberta de um manto de mistério: ‘O que eles estão fazendo lá dentro? Mexendo com a personalidade das pessoas? Manipulando o cérebro delas? O comportamento, será?’ E o que nós queremos é mostrar que não há nada disso. Que o que fazemos aqui exatamente é medicina pura: tratamos doenças. Em grande parte são doenças do cérebro. E tratamos com o que há de mais moderno na medicina psiquiátrica: medicamentos, psicoterapia, reabilitação, terapia ocupacional, hospitais-dia, programas de reinserção profissional, enfim, tudo o que é feito nos melhores hospitais do mundo”, explica o professor.

A psiquiatria é coberta de um manto de mistério: ‘O que eles estão fazendo lá dentro? Mexendo com a personalidade das pessoas? Manipulando o cérebro delas? O comportamento, será?’

Diante desse panorama, surgiu a ideia de realizar o evento no Brasil. Em 2012, por ocasião dos 60 anos do IPq, foi organizado pela primeira vez o IPq Portas Abertas, que “foi um sucesso”, como resume o professor. Ele conta que 1800 pessoas assistiram às sessões e que espera que o evento se consolide como uma tradição, sendo possível ao Instituto realizá-lo todos os anos.

Tomando como referência a edição anterior, o docente comenta que, em geral, os participantes conhecem alguém com determinado transtorno e, desse modo, procuram informar-se e se atualizar para poder auxiliar: “quem vem aqui quer ajudar alguém”. Há também pessoas que buscam aprimorar seus conhecimentos sem um fim determinado: curiosos, estudantes e ex-pacientes.

Uma evidência do interesse da população pelo tema é que quatro dias antes das palestras todas as sessões já estão lotadas. Para além do evento, Gattaz lembra que frequentemente o assunto “psiquiatria” ocupa as páginas das revistas semanais e que, se isso ocorre, é porque há uma demanda por informações. Outra indicação do interesse pela psiquiatria seria a recorrência de personagens com transtornos mentais em telenovelas . O evento surge, assim, como mais um meio de atender a essa demanda, trazendo informações interessantes e corretas, dado que muitas vezes elas são difundidas de modo distorcido.

Estigmas

 Um projeto de pesquisa realizado pelo Instituto com duas mil pessoas indicou que quanto  menor o nível de informação, maior o preconceito com relação à doença mental, bem como  quanto mais contato o indivíduo possuir com a doença, menor o preconceito e a rejeição.  Assim, reafirma-se a proposta do evento: combater a marca negativa que o paciente  psiquiátrico carrega consigo.

“Combatendo o estigma estaremos facilitando a reintegração social e profissional dos nossos  pacientes. Nada atrapalha tanto essa reintegração depois que a pessoa sai de alta quanto o  preconceito, o medo e o estigma de que a doença mental causa violência e de que o seu  portador é imprevisível. Esse é um dos preconceitos mais difundidos acerca da doença  mental”, diz Gattaz. “Na maioria das vezes, é o doente mental que é vítima da violência, em especial da violência urbana.”

Combatendo o estigma estaremos facilitando a reintegração social e profissional dos nossos  pacientes.

A missão do evento não é mostrar o topo da pesquisa na área, mas expôr fatos já consolidados, com evidência experimental e clínica, que formam a base da atividade e que podem ajudar a desmistificar as doenças mentais. A intenção é mostrar, também, a evolução da psiquiatria do século XXI no contexto da evolução da própria medicina: “é uma evolução imensa: no tratamento, na estratégia de prevenção, de manutenção do paciente depois da alta.”, afirma o professor.

Finalmente, dentro da proposta de inserir o tema de forma positiva no cotidiano das pessoas, o docente revela os planos de, em 2015, realizar uma exposição internacional de arte, com obras produzidas por pacientes psiquiátricos de diversas origens: suíços, alemães e brasileiros. “A psiquiatria precisa ser associada a coisas positivas, glamourosas, como pesquisas, pesquisas do cérebro, neurociências, progresso na imagem cerebral, pessoas famosas e de sucesso e que tiveram alguma doença mental e se curaram. É isso que precisamos associar à psiquiatria”, afirma Gattaz.

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