Entre órgãos e esqueletos: anatomia desvenda narrativas do corpo humano

Publicado em Ciências, USP Online Destaque por em

“No ambiente de laboratório de dissecação, a atitude física, mental e verbal do aluno deve ser de sobriedade, meditação e elevada compostura, manuseando-se as peças anatômicas com o mais profundo sentimento de respeito e carinho”. A recomendação é de Renato Locchi, antigo professor catedrático do Departamento de Anatomia da USP, no texto Respeito ao cadáver, que recebe os visitantes na porta de entrada do Museu de Anatomia Humana Professor Alfonso Bovero (MAH). A atitude física, mental e verbal dos visitantes ao se deparar com o acervo do museu, muitas vezes, é muito mais de assombro e encantamento.

Em sua maioria crianças, os visitantes querem explicações sobre o que estão vendo – muitos até desconfiam que as peças não são reais. Uma das seções que mais impressiona os pequenos é a de fetos, que exibe, por exemplo, um bebê ainda no útero materno. “Como ele foi tirado de lá?”. “A mãe morreu?”. “Por quê?”. Giovaldo não tem as respostas, mas fica à disposição dos visitantes para apresentar o acervo de quase mil peças em exposição e contar um pouco da história do Museu. Giovaldo Correia é educador do MAH há 12 anos e conta que muitos dos alunos que vêm visitar o Museu acabam descobrindo a vocação para a carreira na Medicina, ou então descartando-a definitivamente. Além da influência na escolha da carreira científica, o educador destaca o papel de conscientização que o Museu acaba exercendo. Ao ver, por exemplo, o pulmão do fumante em comparação com um pulmão sadio, a criança associa a imagem ao que é falado nas palestras e na sala de aula e se impressiona. “É uma coisa que eles não esquecem”, afirma Giovaldo.

O extenso acervo do Museu de Anatomia, porém, não serve apenas para satisfazer a curiosidade dos alunos. Além de abranger as atividades de cultura e extensão, muitas pessoas procuram o Museu para desenvolver pesquisas, lembra Maria Inês Nogueira. Ela coordena o MAH junto à Elen Miyabara, sendo ambas professoras do Departamento de Anatomia do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP. Segundo Maria Inês, o Museu é considerado por muitas pessoas, inclusive seu antigo diretor, Renato Chopard, a maior coleção de peças de anatomia do mundo, tanto pela quantidade como pela qualidade.

Entre os itens em exposição está uma cópia do De Humani Corporis Fabrica, obra-prima de Andreas Vesalius, considerado o pai da anatomia moderna. A edição original, de 1543, foi transferida para a Biblioteca do ICB e é um dos títulos disponíveis integralmente na Biblioteca Digital de Obras Raras e Especiais da USP. Outra obra-prima que o Museu exibe – mas essa não pertence ao acervo – é a uma reprodução da tela Lição de Anatomia do Dr. Nicolaes Tulp, de Rembrandt, pendurada discretamente na parede que resguarda o Setor de Corrosão e Diafanização – a obra do século XVII representa um documento importante da história da anatomia e mostra um grupo dissecando o antebraço de um cadáver.

Há itens do acervo com quase cem anos que ainda estão bem preservados, alguns deles preparados pelo próprio professor Alfonso Bovero. Foi de suas atividades como docente no que se tornaria a Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) que surgiram as primeiras peças. Hoje, o Museu exibe os mais variados órgãos que compõem os sistemas e aparelhos do organismo, uma vasta coleção de esqueletos e crânios que atrai muitos pesquisadores, fetos com diversas anomalias, além de várias outras peças que exploram e apresentam os caminhos do corpo humano aos seus visitantes.

Reestruturação

Por ora, o Museu de Anatomia Humana está recebendo apenas visitantes individuais. O agendamento de grupos e escolas está temporariamente suspenso para adequação da estrutura do local e instalação de equipamentos de segurança. Esse período de reorganização inclui também uma nova fase para o Museu, cuja administração passa agora do Departamento de Anatomia para o próprio ICB, mudança que deve trazer mais autonomia ao espaço.

Não é a primeira vez que o Museu passa por “reformas”. Desde 1914, quando foi criado, o MAH já esteve no atual Instituto Médico Legal, na Faculdade de Medicina, entre outros locais, fixando-se no ICB apenas em 1996. “O Museu vai passar a ser agora um setor de apoio do Instituto. A expectativa é que, com essa categoria, se possa começar a trabalhar para que ele se torne um museu de fato e possa concorrer às verbas nacionais e internacionais para ter um espaço próprio”, espera Maria Inês.

Segundo a atual coordenadora do Museu de Anatomia, essa nova estrutura poderia criar condições para que se colocasse em prática um desejo seu: o de tornar o MAH um museu mais abrangente, de Ciências da Saúde, atendendo à intensa demanda da comunidade acadêmica de trabalhar o conhecimento de forma interdisciplinar.

Para conhecer o Museu

O Museu de Anatomia Humana recebe visitantes de segunda a sexta-feira, das 9 às 11 horas e das 13h30 às 14h30. O valor é de R$ 5,00 e gratuito para a comunidade USP. A idade mínima para visitação é 10 anos. O MAH fica no edifício III do ICB da USP, na Av. Prof. Lineu Prestes, 2415. Mais informações: (11) 3091-7360, email musanato@icb.usp.br.

.