Pesquisa da FFLCH estuda biografia de Dostoiévski escrita por Joseph Frank

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Rúvila Magalhães / Agência USP de Notícias

O gênero literário da biografia apresenta dificuldades desde o século 19, quando se tornou evidente a multiplicidade de uma personalidade e o caráter difuso de uma trajetória individual. A complexidade do homem teve muita força principalmente na literatura russa daquele século, com destaque para as obras de Fiódor Dostoiévski. Diante disso, uma pesquisa realizada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP concluiu que a biografia de Dostoiévski escrita por Joseph Frank foi considerada uma das melhores biografias literárias de todos os tempos. “Trata-se de um empreendimento muito bem sucedido, que atualiza o gênero biográfico, enriquece os estudos dostoievskianos e colabora com a historiografia da Rússia novecentista”, afirma a pesquisadora Giuliana Teixeira de Almeida, responsável pela pesquisa.

Joseph Frank (1918 – 2013) foi um biógrafo norte-americano, considerado um dos escritores mais influentes do século 20. É autor da biografia do autor russo Fiódor Dostoiévski publicada pela editora Edusp em 5 volumes: As sementes da revolta — 1821 a 1849, Os anos de provação — 1850 a 1859, Os efeitos da libertação — 1860-1865, Os anos milagrosos — 1865-1871 e O manto do profeta — 1871 a 1881. O autor acreditava que as obras de Dostoiévski eram apenas inteligíveis na medida em que o leitor conhece o contexto histórico em que foram produzidas. Para Frank, a genialidade de Dostoiévski encontra-se na abordagem de grandes questões da humanidade nos termos dos acontecimentos da sua contemporaneidade, a Rússia do século 19. A unidade da obra do autor russo depende da intromissão do biógrafo, que se torna responsável por explicitar as grandes questões morais que estão envolvidas na construção dos romances de Dostoiévski.

“Do ponto de vista estritamente biográfico, é legítimo afirmar que, apesar do comprometimento com a documentação e a postura de pesquisador objetivo e isento, Frank é um biógrafo extremamente ‘generoso’ com o seu biografado”, explica Giuliana. Segundo ela, a “generosidade” é expressa por um viés pouco crítico sobre temas polêmicos como o antissemitismo, a xenofobia, o apoio ao Czarismo e a relativização do vício pelo jogo e da infância sofrida. Isso tudo resultou em uma desmistificação de sua “personalidade difícil”.

Frank não esconde a sua admiração e afeto por seu objeto de estudo, sendo que em alguns momentos é possível identificar uma projeção do biógrafo na narração que ele faz. “É possível afirmar que o método escolhido por Frank, que o levou a aventurar-se na reconstituição da vida a partir do interesse pela obra, contribuiu para que os grandes feitos do escritor se interpusessem entre o biógrafo e a pessoa do biografado, resultando na equiparação do homem Dostoiévski ao grande artista Dostoiévski”, afirma Giuliana.

Segundo a pesquisadora, a apreciação crítica revelou que a figura mais importante em uma biografia é o autor. A obra de Joseph Frank mostra que é quase sempre possível detectar a voz do biógrafo e driblar o direcionamento que ele sugere ao leitor. No entanto, um dos pontos principais destacados pela pesquisadora é que as biografias são excelentes caminhos para a compreensão dos autores e de suas obras, tendo como consequência possibilitarem um pouco da compreensão dos biógrafos interessados em desvendar a personalidade de outros homens.

Bastidores da pesquisa

Para a realização de sua pesquisa de mestrado, Giuliana realizou uma ampla revisão bibliográfica e fez um estudo comparativo de biografias escritas sobre Dostoiévski. Além disso, participou em 2012 do congresso internacional British Association for Slavonic and East European Studies (BASEES) no qual apresentou seu trabalho e recebeu críticas e questões que a ajudaram a ter outros pontos de vista sobre o tema. “Comecei a perceber que o scholar norte-americano é uma unanimidade no meio de língua inglesa, um clássico, ao ponto dele ser considerado ‘O’ biógrafo de Dostoiévski”, relata.

Após a apresentação no BASEES, Giuliana embarcou para um estágio de pesquisa de 6 meses na Universidade de Berkeley (EUA). Durante sua estadia na Califórnia, a pesquisadora teve a chance de conversar pessoalmente com Joseph Frank. “Ele me deu mostras da sua erudição e da sua generosidade, qualidades às quais seus colegas de ofício haviam se referido inúmeras vezes. Depois desse encontro importantíssimo (e emocionante) me dei conta de que estava diante de um dos grandes intelectuais do meu tempo e que, se por um lado meu trabalho traria críticas à obra, por outro, iria salientar a real ‘monumentalidade’ e relevância da biografia”, conta Giuliana. Ela foi a última brasileira a entrevistar Joseph Frank, que veio a falecer em fevereiro de 2013. Um artigo com o conteúdo dessa entrevista está sendo preparado pela pesquisadora.

A pesquisa Pelo prisma biográfico: Joseph Frank e Dostoiévski, orientada por Bruno Barretto Gomide, vai ao encontro do crescente interesse do brasileiro pela literatura e cultura Russa.

Mais informações: email giuliana.almeida@usp.br

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