Encontro no IME abre espaço para discussão sobre história da ciência

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Se a ciência ocupa um lugar de peso nas sociedades modernas, não se pode entender totalmente a história dessas sociedades sem conhecer a história da ciência que praticam. No Brasil, a pesquisa na área não é algo incipiente, mas se apresenta fragmentada. A avaliação é do professor Cláudio Possani, diretor do Centro Interunidade de História da Ciência (CIHC) da USP, e foi feita na abertura do Encontro de Pesquisadores em História da Ciência e Tecnologia.

Realizado no Instituto de Matemática e Estatística (IME) da USP no dia 19, a primeira edição do evento buscou criar um espaço de discussão sobre este tema na Universidade. “Cada área, como a Física, a Química, a Medicina, tem estudado sua história, mas é preciso aproximar esses estudos”, comentou Possani em referência ao objetivo do encontro.

A ciência brasileira “existe”

A Sociedade Brasileira de História da Ciência (SBHC) comemora 30 anos de fundação em 2013, e foi tema da primeira palestra do encontro. A presidente da entidade, Márcia Regina Barros Silva contou um pouco dessa “história da história” e apresentou as perspectivas do momento atual.

Segundo a historiadora, desde o início o ponto forte da SBHC era a organização de encontros nacionais, que continuam acontecendo. Esses seminários ajudaram a moldar a maneira brasileira de pensar ciência e tecnologia. Só na edição passada do Seminário Nacional de História da Ciência e da Tecnologia, organizado pela SBHC, foram mais de 860 inscritos. “Não estamos mais preocupados em provar que ‘a ciência brasileira existe’ “, celebrou Márcia.

Esta edição, que aconteceu em 2012, também contou com um elevado número de ouvintes: 209 pessoas, entre estudantes, professores do ensino público, e outros profissionais interessados. Esse grande engajamento, segundo a professora, mostra que o interesse na área de história da ciência no Brasil vem crescendo. Coroando esse momento, o Brasil foi escolhido para sediar o próximo Congresso Internacional de História da Ciência, Tecnologia e Medicina.

A grande participação de brasileiros na última edição do evento, que aconteceu em julho desse ano em Manchester (Inglaterra), contribuiu para a escolha. E o próximo congresso, em 2017, vai ser no Rio de Janeiro.

De acordo com a professora, os historiadores da ciência no Brasil têm se preocupado em estar familiarizados com bibliografia internacional. “Podemos estudar epistemologia ou filosofia sem perder a identidade, sem esquecer que somos historiadores”, acrescenta Márcia, que também é docente da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLHC) da USP.

Cesar Lattes e o Nobel que não veio

A cooperação científica entre o Brasil e o Japão começou na década de 1960, quando o físico brasileiro Cesar Lattes e o ganhador do Prêmio Nobel em física, Hideki Yukawa, negociaram uma colaboração em pesquisas sobre radiação cósmica. Quem resgatou as memórias desta parceria foi o professor Edison Shibuya, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). O historiador vem estudando a relação entre os pesquisadores dos dois países nesta área.

Cesar Lattes foi o único brasileiro que teve participação na descoberta do méson-π – partícula prevista em 1935 por Yukawa para tentar explicar a instabilidade do núcleo dos átomos. Muitos experimentos foram realizados na tentativa de provar a existência do tal méson, que só seria confirmada em 1947. O brasileiro integrava uma equipe de físicos liderada por Cecil Frank Powell e Giuseppe Occhialini, em Bristol (Inglaterra), e acabou sendo o principal personagem da descoberta. Foi ele quem fez as primeiras observações que propiciaram a busca pelo méson-π.

Em 1950, é anunciada a outorga do Prêmio Nobel ao conjunto de trabalhos sobre o método fotográfico utilizado nos estudos de processos nucleares e os descobrimentos realizados com este método. Mas apenas Cecil Powell foi agraciado como realizador. Por quê? Ainda não se sabe ao certo, mas Shibuya anunciou que pesquisadores brasileiros – Cássio Leite Vieira e Antonio Augusto Ribeira – estão buscando indicações sobre os motivos de Lattes ter ficado de fora. “Poderemos ter novidades sobre esse episódio em breve”, estimou.

Durante o Encontro, o professor também abordou a importância de César Lattes no projeto de fundação da Unicamp. A universidade guarda os arquivos das Conferências Internacionais de Raios Cósmicos, que pertenceram a Lattes. “É desejo da Unicamp digitalizar esses arquivos para que outros pesquisadores tenham acesso a eles, mas estamos enfrentando problemas”, conta. Isso porque é preciso autorização de todos autores para disponibilização dos arquivos na Biblioteca – mas muitos deles já estão mortos, então é preciso esperar 70 anos para que os arquivos se tornem públicos.

No Instituto Buntantan, um laboratório de… história

A terceira palestra do dia, ministrada por Nelson Ibañez, compartilhou a experiência do Laboratório de História da Ciência do Instituto Butantan. Foi a criação do laboratório que introduziu o tema entre os campos de pesquisa do Instituto. “O Laboratório não monopoliza a pesquisa em história da ciência no Instituto, mas lá é que foram criados mecanismos de gestão de acervo e de documentação”, disse.

Um dos principais trabalhos do laboratório foi a periodização do Instituto Butantan, ou seja, a organização de sua história, feita com base em documentos de acervo e entrevistas com ex-diretores e atuais funcionários do Instituto. “A sistematização desses períodos serviu de base para preservação e recuperação da nossa memória”.

Outro projeto importante do laboratório coordenado por Ibañez é a revista Cadernos de  História da Ciência. Ela foi criada em 2005, a partir da reunião de documentação de seminários internos. Desde de 2006, é uma publicação semestral. “No começo – e essa foi  uma das principais críticas recebidas – a revista tinha um caráter mais interno. Então nós  abrimos um pouco o conselho editorial e passamos a ser um meio de difusão de pesquisas  em história da ciência”, comentou Ibañez.

Participam do periódico, com a submissão de artigos, universidades e instituições de  pesquisa, e também museus e centros de memória. “A revista se propõe a ser um caderno  da história da ciência, e não uma ‘revista do Instituto Butantan’ ”, finalizou.

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