Tusp expõe cicatrizes da ditadura em Maria Antonia – 45 anos da batalha

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Projeto envolve palestra, filme e peça de teatro

Para os passantes da rua Maria Antonia, localizada na Vila Buarque, bem próxima ao centro de São Paulo, o edifício conhecido como Centro Universitário Maria Antonia talvez seja apenas mais um prédio. A fachada imponente mantém suas portas abertas para visitantes de todos os lugares. Mas somente os mais atentos irão reparar na placa que homenageia vítimas de um ataque acontecido 45 anos atrás.

Para relembrar a cidade do violento confronto ocorrido em 3 de outubro de 1968, a equipe do Teatro da USP (Tusp) promoverá, de 1 a 9 de outubro, o evento Rua Maria Antonia – 45 anos da batalha. A programação conta com uma palestra ministrada pela especialista Irene Cardoso, exibição de filme dirigido por Renato Tapajós e um novo espetáculo montado pelo grupo OPOVOEMPÉ, com direção de Cristiane Zuan Esteves.

A chamada “Batalha da Maria Antonia” foi o conflito entre estudantes da então Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP e da Universidade Presbiteriana Mackenzie em 1968. Na época, marcada pelos anos iniciais da ditadura militar no Brasil, as duas instituições eram vizinhas.

A confusão histórica se iniciou após uma série de provocações entre os alunos envolvendo um “pedágio” estudantil na rua Maria Antonia. O que começou como uma discussão entre estudantes, transformou-se numa explosão de violência que resultou em um incêndio, dezenas de feridos e na morte de um estudante secundarista.

A materialização de rivalidades ideológicas entre esquerda e direita, somadas à agressividade da repressão policial no auge da ditadura levaram a uma posterior transferência da Faculdade de Filosofia da USP para onde ela se encontra atualmente, na Cidade Universitária, localizada no bairro do Butantã. Entretanto, até os dias de hoje, o Centro Universitário Maria Antonia permanece no mesmo endereço promovendo cursos, exposições e peças de teatro.

Arqueologias do Presente

A ideia, fruto de discussões entre a equipe do Tusp, comandada por Celso Frateschi, começou como uma tentativa de se resgatar a memória cada vez mais presente da ditadura militar no Brasil, como afirma Deise Abreu Pacheco, orientadora de Arte Dramática, responsável pela curadoria e gestão do Tusp.

Por meio de uma série de contatos, a equipe do Tusp chegou até a especialista Irene Cardoso, autora do livro Para uma crítica do presente, que parte da invasão da FFCL, em 1968, para realizar uma abordagem dos fatos que marcaram uma geração. Após uma sucessão de encontros, Irene e a diretora Cris Esteves trocaram experiências que ajudaram na formulação da peça “Arqueologias do Presente: A Batalha da Maria Antonia”.

Um movimento está começando a tocar no assunto. A questão está sendo despertada no imaginário coletivo.

“Queríamos um trabalho ligado à ditadura porque nossa Bienal – que tem como tema ‘Realidades Incendiárias’ – focará nessa memória. Originalmente, a peça estrearia na Bienal e, depois, no evento, mas essa ideia se inverteu”, conta Deise.

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Depoimentos do ‘Livro Branco’ foram base para reconstrução do episódio

De acordo com a diretora, a peça levará em conta a Batalha, mas não se  trata de uma  reconstrução histórica. “Não foi apenas uma briga entre  estudantes de diferentes  universidades. Queremos realizar uma crítica  do presente”. Sobre o contexto atual, Cris  defende que no Brasil, “a  transição da ditadura não aconteceu como no resto da América  Latina.  Não houve julgamentos. Hoje, com a Comissão da Verdade, um  movimento está  começando a tocar no assunto. A questão está sendo  despertada no imaginário coletivo”.

“Usamos o chamado Livro Branco, uma compilação de depoimentos de  professores da  USP que relataram a Batalha e o clima da época”, revela  Cris. O livro especifica com  detalhes a relação da polícia dentro do  Mackenzie e o envolvimento dos militares em um  projeto de  desarticulação do centro de resistência representado pelo Maria  Antonia.

Com a intenção de unir as discussões do passado com os  acontecimentos recentes, que  envolveram uma campanha de  protestos em São Paulo que começaram ali mesmo, próximos ao Maria Antonia, a peça faz parte de uma concepção “teatro relacional”. “Partimos de uma exposição, uma mesa de jogos e esperamos que aconteça uma troca com o espectador. O público deve ficar muito autônomo enquanto participa de um debate sobre suas próprias memórias”, explica a diretora.

Registro cinematográfico

No segundo dia do evento, às 19 horas, será exibido o filme “A Batalha da Maria Antonia”, seguido por um debate com o diretor Renato Tapajós. Além da importância clara enquanto registro dos acontecimentos de 1968, o filme reúne o diretor com seu velho companheiro, Celso Frateschi, responsável pelo evento.

“Eu e o Renato fomos presos juntos em 1969”, conta Frateschi. “Eu ainda era menor de idade, 16 pra 17 anos. Não foi uma estadia tranquila, foi uma prisão violenta. Na época não se prendia, se sequestrava. Nosso cativeiro, com mais de 20 pessoas, era o xadrez de um quartel no Ibirapuera”, relembra ele.

Na época não se prendia,
se sequestrava.

Apesar de não estar presente na batalha, Frateschi já militava no movimento estudantil desde a adolescência. “Na época eu estudava na zona oeste, Vila Anastácia, e passava eventualmente pela Maria Antonia. Eu me lembro da batalha, dos protestos, da violência toda. É bom termos espaço e criarmos espaço hoje para que isso volte a ser discutido”.

Sobre o filme, Frateschi comenta que a descoberta do trabalho partiu de uma pesquisa da equipe durante a concepção do evento. “O filme já foi exibido no congresso da UNE, em 2013, e o lançamento acontece durante o nosso evento”.

Esforços de memória

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Objetivo não é apenas resgatar o passado, mas pensar a atualidade

Para o diretor do Tusp, a ocasião serve para que os brasileiros possam entender e trabalhar seu passado violento. “O país está cada vez mais crítico, principalmente com o Estado assumindo a Comissão da Verdade. Gostaríamos muito que isso se tornasse permanente. Não queremos jogar nossa história para baixo do tapete”, pontua.

“Quem passa por essa rua e por esse prédio sabe o que aconteceu aqui?”, questiona Deise, reforçando que o principal objetivo da programação é mostrar o que estava por trás da batalha e como esse tipo de evento afeta a sociedade brasileira até os dias de hoje. Citando o dramaturgo Bertold Brecht, “quando a ferida não dói mais, dói a cicatriz”, Deise finaliza argumentando que “a ditadura não é uma memória, é um traço. Estamos anestesiados sobre essa questão e aquém de compreendermos essa violência”.

A ditadura não é uma memória, é um traço. Estamos anestesiados sobre essa questão e aquém de compreendermos essa violência.

Para os realizadores desta semana especial, somente através de iniciativas como essa – os chamados “esforços de memória” –  questões complexas do passado nacional serão colocadas em pauta.

Mais informações: (11) 3123-5241, site www.usp.br/tusp

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