Aliar práticas corporais ao atendimento clínico pode melhorar níveis de saúde da população

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Fernando Pivetti / Agência USP de Notícias

Dados de uma pesquisa de mestrado desenvolvida na Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP mostram que o alinhamento das práticas corporais com os atendimentos clínicos realizados nos serviços médicos aparece como uma estratégia de cuidado para ampliar os níveis de saúde da população. A ideia foi comprovada a partir de um grupo experimental, de pacientes atendidos no Centro de Saúde Escola (CSE) Geraldo Horácio de Paula Souza, da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, que executou atividades orientadas por um profissional de educação física.

O projeto se baseou na teoria da “Clínica Ampliada e Compartilhada”, do professor Gastão Campos, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), que propõe discussões sobre outras maneiras de pensar as ações de promoção de saúde. “Essa teoria traz uma nova forma de compor o processo de trabalho, alterando os objetos e os objetivos dos profissionais de saúde, propondo a incorporação de outros meios de intervenção que não apenas os tradicionais protocolos para qualificar suas práticas”, afirma Valéria Monteiro Mendes, professora de educação física e autora do estudo.

Na investigação desenvolvida no centro de saúde escola Geraldo de Paula Souza, a proposta foi experimentar os conceitos da teoria na tentativa de auxiliar a composição do trabalho do profissional de educação física na área de saúde. O projeto buscou contribuir para uma atuação mais coerente desses profissionais com base nos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS) e no atendimento das necessidades de saúde das pessoas. “A ideia era discutir como podemos trabalhar com a comunidade de uma maneira fundamentada”, explica a pesquisadora.

Um grupo de práticas corporais foi formado por Valéria para experimentar os conceitos da teoria da “Clínica Ampliada”. Ao todo, 51 pessoas atendidas no centro de saúde fizeram parte do grupo. Nos encontros, os participantes realizavam atividades como massagens, práticas de dança e discussões de orientação para o cuidado com o corpo. “Diferentemente do que observamos nos programas de atividade física que são desenvolvidos atualmente na atenção básica, em que tudo é fragmentado e dividido em grupos muito específicos, formamos um grupo aberto e não segmentado por idade, gênero, doença, que trabalha na lógica das práticas corporais e que pensa outras possibilidades de trabalhar o corpo”. Dessa forma, a pluralidade dentro do grupo garantia uma grande quantidade de experiências diferentes que podiam ser compartilhadas, incluindo diferentes práticas de dança, orientações de cuidado com a postura e rodas de conversa sobre alimentação, vacinação e sexualidade.

Para a pesquisadora, os resultados do estudo aparecem na forma de processo. Alguns participantes do grupo de práticas corporais se mobilizaram para a realização de encontros em dias que o grupo não tinha atividades e se apropriaram de outros espaços. “Visitávamos espaços públicos com o grupo, como parques, praças e avenidas, e algumas pessoas passaram a se reunir para visitar esses locais por conta própria e sem a minha participação. Isso reflete o sentido do profissional trabalhar nesse serviço com a ideia de construção de vínculos, bem como de ações mais autônomas por parte da população”.

Trabalho conjunto

Os pontos positivos observados com as práticas corporais refletem a relevância do trabalho do profissional de educação física no contexto do SUS. Valéria destaca que esse profissional pode realizar atividades de forma conjunta com o conhecimento de outros trabalhadores do serviço de saúde, ampliando a forma de pensar o atendimento de acordo com as necessidades de saúde das pessoas. “A partir do contato com o SUS e de algumas questões sobre a minha formação, que esteve mais voltada para a técnica e menos para o sujeito, eu me questionei se haveria algum papel dentro dos centros de saúde para a educação física tal como havia, por exemplo, para fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e psicólogos”.

Ela comenta que os resultados revelaram que a principal contribuição do trabalho do profissional de educação física está na possibilidade dele pensar o trabalho em saúde de uma maneira crítica por meio da ênfase no trabalho em equipe, bem como aprender sobre formas de fazer uma ponte entre o individual e o coletivo no dia a dia do trabalho, mostrando a importância do profissional reconhecer a discussão política que envolve o trabalho em saúde.

Mais informações: valeriamm@usp.br, com Valéria Mendes

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