Uso atual da Rua Augusta tem relação com sua história, revela pesquisa da FAU

Publicado em Sociedade por em

Lara Deus / Agência USP de Notícias

A Rua Augusta não foi sempre palco de bares e festas frequentado por jovens de classe média. Antigamente um local de compras da elite paulistana, a via passou por uma desvalorização imobiliária que provocou o surgimento de prostíbulos do início dos anos 70 até o fim do século XX. Para entender o que levou a rua a ser um dos principais pontos de lazer da noite paulistana, o comunicólogo Felipe Melo Pissardo se dedicou a sua pesquisa de mestrado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP.

Os jovens sempre estiveram presentes no cotidiano da Rua Augusta, já que a via foi aberta em 1891 e logo apareceram colégios em seu entorno. Quando os cinemas de bairro surgiram como uma opção de lazer da região, foram muitas vezes frequentados por estudantes. Inicialmente, a rua foi projetada com o principal objetivo de ligar o centro à Avenida Paulista, já que seu declive era mais suave do que outras alternativas, como a Rua Consolação, facilitando a caminhada. O comunicólogo ressalta que esta característica influencia seu atual uso, já que “muito da apropriação hoje é feita pelas pessoas andando de um bar para outro, de uma balada para outra”, explica.

O tempo passou e o povoamento da região fez com que edifícios de mais de um pavimento começassem a tomar conta da via. Na década de 1950, a opção arquitetônica que prevaleceu foi pelo edifício de uso misto, aqueles com estabelecimentos comerciais no térreo e moradias nos demais andares. Esta escolha foi crucial para todo o resto da história da rua. Em um primeiro momento, a configuração propiciou que o comércio de alto luxo surgisse e que as elites se apropriassem do local como centro de compras. No fim dos anos 60, o congestionamento de carros e pessoas e o aumento da criminalidade afastaram as camadas mais abastadas, que migraram para os shoppings centers. A evolução dos transportes públicos da Augusta também denota a mudança: de bondes a burro, chegou à Linha 4-Amarela do Metrô, passando pelos bondes elétricos, ônibus elétricos, e pela priorização de carros individuais.

Prostituição desvalorizou, mas criou marca

Em decorrência da desvalorização imobiliária, muitas destas construções deram espaço a prostíbulos, que se identificavam como “casas de massagem”, “casas de banho” ou “american bar”. Pissardo conta que, muito devido ao processo de globalização de São Paulo, os maiores frequentadores destes estabelecimentos eram executivos que visitavam a cidade a negócios. Uma das conclusões da pesquisa é que os edifícios de uso misto são importantes até para o uso que se faz hoje em dia dos espaços da rua. Agora, os estabelecimentos do térreo dos prédios são restaurantes, bares e baladas.

A prostituição ainda é vista como um símbolo da rua, mesmo tendo predominado apenas de meados da década de 70 até o início dos anos 2000. O comunicólogo explica que “[os artistas e intelectuais] começam a se atrair por este mundo da prostituta e a representá-lo, então a Rua Augusta começa a se tornar um símbolo da prostituição”. Esta reputação foi uma das responsáveis por, a partir de 2005, casas noturnas surgirem e iniciarem o processo de atração dos atuais frequentadores. Na pesquisa, Pissardo concluiu que a ambientação de parte desses locais remetia a um conceito de prostituição idealizado, mas que foi suficiente para tirar a Rua Augusta da obscuridade e transformá-la em um dos principais palcos da juventude de classe média paulistana. Este cenário de intensa agitação cultural está promovendo o fenômeno de valorização dos imóveis da região, com a construção de novos prédios e até a demolição de algumas construções antigas.

A dissertação de mestrado A rua apropriada: um estudo sobre as transformações e usos urbanos na Rua Augusta (São Paulo, 1891-2012), com imagens e mapas da rua em diversas épocas, pode ser baixada no link. Orientado por José Tavares Correia de Lira, Pissardo foi um dos pioneiros ao fazer um estudo de urbanismo usando como fonte publicações em jornais que datam desde o fim do século XIX até os tempos atuais. Nos acervos abertos da Folha de São Paulo e  de O Estado de São Paulo, ele encontrou todas as referências que eram feitas à Augusta e analisou a mudança da apropriação do espaço com o passar do tempo.

Mais informações: email fepissardo@gmail.com, com Felipe Melo Pissardo

.