Estudo evidencia importância dos textos na mediação do público com obras de arte em exposições

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Ana Paula Souza / Agência USP de Notícias

O potencial das peças textuais em exposições de arte contemporânea nem sempre é bem aproveitado. Muitas exposições não apresentam textos sobre as obras ou sobre o recorte feito pela curadoria e, não raramente, trazem um conteúdo inacessível para um público não especializado. Partindo dessas ideias, Thais Gurgel, mestre em Educação pela Faculdade de Educação (FE) da USP, desenvolveu o estudo Exposição e texto na arte contemporânea, que evidenciou a função educativa das exposições e procurou investigar a importância dos textos na mediação das obras de arte, juntamente com o impacto que eles produzem na recepção dos trabalhos pelo visitante.

Realizada entre 2010 e 2013, a pesquisa analisou as exposições Contrapontos, no Museu de Arte Sacra de São Paulo; Interior Profundo, na Pinacoteca do Estado de São Paulo; e Redes Alternativas, no Museu de Arte Contemporânea (MAC) da USP. Além das análises, a dissertação também trouxe a opinião de dois importantes nomes do contexto das exposições de arte contemporânea no Brasil: Mila Chiovatto, coordenadora do Núcleo de Ação Educativa da Pinacoteca de São Paulo, e a jornalista Teté Martinho.

Prejuízos

O estudo desenvolvido por Thais aponta que, quando a oferta de textos não é feita da melhor maneira, a comunicação com o espectador acaba sendo comprometida, seja pela ausência de textos ou por eles se pautarem, sem explicações ou contextualização, em referências do universo da arte ou da filosofia. “Teoricamente, as exposições em instituições abertas ao público foram feitas para serem vistas por qualquer um e para gerarem um impacto na sociedade, promovendo um convite à experiência. As instituições culturais deveriam ter o compromisso de promover uma experiência significativa para o visitante. Se o espectador não consegue se relacionar com a exposição, o museu acaba tendo a sua função social comprometida”.

A relação entre o artista e o público se viu transformada a partir da década de 1960, quando tiveram início as práticas de arte contemporânea. As inovações da arte moderna já não bastavam nas produções, e o que se queria era engajar o espectador, envolvê-lo nas proposições artísticas. Novos públicos, não necessariamente familiarizados com o universo artístico, também passaram a frequentar museus e galerias, espaços que buscavam se afastar do caráter elitista que lhes era atribuído. Nesse contexto, os textos cresceram em importância dentro das mostras. “Nas exposições de arte contemporânea, que são o foco da pesquisa, pode-se apreciar as obras por seus aspectos sensoriais. Entretanto, muitas vezes, não é possível encontrar uma chave de leitura para os trabalhos se não for possível contar com seu aspecto discursivo”.

As instituições culturais lidam com os desafios de contemplar um público mais amplo e heterogêneo e de cuidar para que as proposições de arte contemporânea atinjam o público. O caminho sugerido pelo estudo de Thais é fazer do próprio espaço expositivo um ambiente de mediação para a arte, com o apoio do texto e de outros recursos. Entretanto, segundo Thais, ter textos em uma exposição não resolve o problema da comunicação com o espectador: “É preciso pensar a respeito do objetivo desses textos, do que querem as exposições de arte contemporânea. O espectador não pode ser inferiorizado, mas sim chamado para o diálogo, convidado a pensar. O ponto de vista do visitante tem que ser considerado no momento em que a curadoria planeja uma exposição. Do contrário, pode haver um entendimento de exclusão e o público é levado a concluir que a arte contemporânea não é feita para ele”.

Mais informações: tmgurgel@gmail.com, com Thais Gurgel

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