Historiadora analisa conexões da obra de Caetano Veloso e Chico Buarque

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Bruno Capelas / Agência USP

Duas trajetórias musicais que surgem quase ao mesmo tempo, se cruzam e se distanciam em diversos momentos ao longo de 40 anos, e se influenciam mutuamente, muitas vezes sem perceber. Uma se liga prioritariamente à modernidade, ao diálogo com a cultura estrangeira e discussões mais amplas sobre arte e mercadoria, enquanto outra nasce a partir da tradição, do debate sobre a busca por uma essência brasileira. Trata-se aqui do baiano Caetano Veloso e do carioca Chico Buarque, respectivamente. “Os dois representam duas forças da cultura brasileira, que se chocam, mas que também têm muito em comum. Não é uma bobagem o suposto Fla-Flu entre os dois, que ao longo dos anos se estabeleceram como padrão de música de qualidade e também de referência na opinião pública”, conta a historiadora Priscila Correa, autora de recente estudo sobre o tema do cotidiano na obra dos dois músicos.

A pesquisa de Priscila, Do cotidiano urbano à cultura: as canções de Caetano Veloso e de Chico Buarque, traz à tona uma análise bastante completa sobre Caetano e Chico, utilizando-se de teoria musical, semiótica, entrevistas e notícias de acervo, análise de capas de discos, performances em palco e espectrogramas de suas canções, abrangendo o período de 1966, quando Chico estreou em disco, até 2006, quando ambos lançaram álbuns. “Um estudo sobre um dificilmente deixaria de lado uma análise sobre o outro, então achei conveniente colocá-los em comparação”, explica a historiadora. Ela ainda ressalta: “A canção só se realiza quando é cantada, então não basta apenas analisar a letra, a música ou o contexto em que ela se insere”.

“Eu vou, por que não?”

Em seu estudo, orientado pelo professor José Geraldo Vinci de Moraes na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Priscila define três momentos chave ao longo da trajetória dos dois compositores. O primeiro se passa em 1967, no terceiro Festival de Música Popular Brasileira, organizado pela emissora paulista TV Record. Em 1966, Buarque vencera o festival, com a música “A Banda”, e fora apontado pela crítica como sucessor de Noel Rosa, enquanto o público se deleitava com seus olhos azuis e seu ar de bom moço. “No festival de 1967, Caetano se lança no mercado, com o tropicalismo e a guitarra elétrica, muito em contraposição a Chico. É interessante perceber isso quando se tem a noção de que ‘Alegria, Alegria’, a primeira grande canção de Caetano, é uma marcha, assim como ‘A Banda’”, explica Priscila.

Nos anos seguintes, ambos “tateariam em busca de seu projeto artístico”, como diz Priscila: Caetano desenvolverá mais o tropicalismo e se exilará em Londres, até 1971, enquanto Chico parte para Roma, distanciando-se do clima tenso que se estabelece no Brasil. Nesse ínterim, o mercado fonográfico brasileiro começou a aceitar a presença de guitarras elétricas e outros elementos estrangeiros.

“E me calo com a boca de feijão…”

É no contexto da volta do exílio, em 1972, que acontece o segundo momento crucial de suas trajetórias, na análise de Priscila: o encontro dos dois cantores/compositores, no disco Caetano e Chico: Juntos e Ao Vivo. Nesse disco, vê-se que Caetano continuava seu projeto artístico de diálogo com o externo, enquanto Chico flertava brevemente com a postura tropicalista, especialmente em palco. “Ele deixa de se vestir de terno e cara limpa para usar um bigode e roupas mais despojadas, por exemplo. Chico usa elementos do tropicalismo para fortalecer sua indignação com o momento político do Brasil”.

Essa análise encontra seu ponto mais alto na gravação de “Você Não Entende Nada/Cotidiano”, união de uma canção do baiano e uma do carioca em uma só música, respectivamente. “Juntas, as canções mostram a indignação da classe média dentro do contexto da Sociedade do Espetáculo, falando de sua realidade maçante e opressora. ‘Cotidiano” lida com uma visão do coletivo, enquanto ‘Você Não Entende Nada’ traça um olhar acerca da individualidade, dialogando com desejos de consumo, falando de Coca Cola, por exemplo”, diz a pesquisadora. De acordo com Priscila, é também nessa época que os artistas atingem seu ponto de expressão máximo: para Chico, trata-se do álbum Construção, de 1971, enquanto Caetano chegará a ele em Araçá Azul, de 1973. “Apesar de mal compreendido, Araçá tem em sua essência muitas questões que Caetano desenvolveria adiante em seu trabalho”, conta a historiadora.

“Organizo o movimento, oriento o carnaval”

O último momento, de menor impacto, é o programa de TV Chico & Caetano, exibido pela Rede Globo em 1986. “Ali, a personalidade diversa dos dois já estava definida, e era utilizada como elemento para entreter o público”. Outro dado interessante, na visão da pesquisadora, é que desse momento em diante, os artistas passam a aparecer mais como opinadores da sociedade brasileira. “Eles aparecem bastante na época das eleições. Por serem artistas intelectuais, muita gente quer ouvir suas opiniões acerca do que está acontecendo”, explica Priscila, que fez a pesquisa como parte de sua tese de Doutorado. A defesa aconteceu em 17 de junho de 2011.

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