Com menos foco em técnicas, Educação Física busca formação cidadã

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Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Conceito de cultura corporal expande o leque de papéis da Educação Física na escola

Iniciada no século no século 19 como uma prática que mobilizava apenas a ginástica e o adestramento do corpo com base em técnicas, a Educação Física se voltou, em meados do século 20, para o ensino de algumas modalidades esportivas, em geral limitadas à quadra. Foi só com o desenvolvimento das áreas humanas, como as Ciências Sociais e a Antropologia – e o conceito de cultura que trouxeram -, que a disciplina pôde expandir seus horizontes. Passou-se a se discutir a maneira como a sociedade significa, utiliza e compreende o corpo. O que inclui “como as noções de corpo para homens e mulheres, brancos e negros, pobres e ricos são, de certa forma, critérios de desigualdade social”, esclarece o professor Walter Roberto Correia.

Na Escola de Educação Física e Esportes (EEFE) da USP, Correia coordena um núcleo que privilegia esta visão ampliada, mais focada na cultura corporal. É o grupo de pesquisa Saberes Docentes para a Educação Física Escolar.
Por ‘cultura corporal’, entende-se todo o conjunto de manifestações corporais e movimentos que carregam dentro de si algum significado referente a uma dada sociedade. Corresponde à parcela da cultura cujos significados estão ligados ao corpo e ao movimento, a maneira pela qual os cidadãos pensam, sentem e agem com seus corpos a partir das possibilidades de movimento.

“Um bom exemplo de cultura corporal é o ato de mostrar o dedo do meio: em alguma culturas é um sinal religioso, em outras é uma ofensa. Um gesto corporal tem significações e consequências muito diferentes e específicas para cada cultura”, afirma o docente.

Além de aspectos diversos da cultura corporal, a relação entre o saber prático e o saber teórico é protagonista nos estudos do grupo. É o caso de uma linha de pesquisa voltada para as soluções dos dilemas de docentes da rede pública de ensino, e outra referente ao modo como os professores incorporam as manifestações da cultura corporal dentro das salas de aula. “São desafios com que os educadores têm que lidar no dia a dia”, diz Correia, e exemplifica: “um projeto de mestrado desenvolvido no grupo analisa os significados que os professores da rede pública estadual do Ensino Médio estão atribuindo ao conteúdo de lutas na Educação Física”.

Corpo e movimento

Foto: Marcos Santos/USP Imagens
Walter Roberto Correia: jovens podem ter potencializados o viver, o sentir e o pensar do corpo e do movimento

Em sua origem, a Educação Física Escolar tratava da ginástica, que é apenas um tema da cultura corporal. “Sobretudo os métodos de ginástica europeus, que eram de cunho militar”, conta o pesquisador. Os teóricos da época seguiam uma lógica de desenvolvimento do corpo baseada no militarismo e na medicina higienista.

Na fase posterior, a tendência que prevaleceu foi a de esportivização da área. Entendia-se que a Educação Física tinha um papel importante no desenvolvimento da aprendizagem de modalidades esportivas, mas isso se desenvolvia em um universo muito pequeno, do basquete, vôlei, handebol e futebol, além da ginástica.

A atualidade assiste ao afastamento da Educação Física de uma condição muito marcada como atividade curricular – ou seja, que ensinava um determinado ‘saber fazer, saber jogar, saber se exercitar’ – para incorporar vários temas da cultura corporal, como a dança, os jogos, as lutas e as manifestações do corpo no cotidiano.

“Ainda que nós encontremos uma precariedade em alguma aulas – seja na proposta, seja na estrutura – a Educação Física exerce um papel importante para o desenvolvimento da cidadania. Na medida em que ela coloca como sua prioridade a problematização de dois conceitos importantes e radicais para o ser humano: o corpo e o movimento”, afirma Correia. Afinal, complementa, a Educação Física leva à educação dos jovens uma temática que lhes interessa e que interfere diretamente na qualidade de vida deles, uma vez que traz à tona dois temas radicais para o ser humano: ‘eu não tenho corpo, eu sou corpo; eu não tenho movimento, eu sou movimento’. “Nós nos movemos para nos adaptarmos, para interagir e para transformarmos o meio. O corpo humano é estruturado para mover-se. E com o ensino dos saberes teóricos e práticos sobre o corpo e o movimento, pretende-se que o aluno passe a ter condição de potencializar o viver, o sentir, e o pensar do seu corpo e do seu movimento”.

Cotidiano escolar

Entre os dias 22 e 24 de novembro, acontece na EEFE a décima segunda edição do Seminário de Educação Física Escolar. Oferecido pelo Departamento de Pedagogia do Movimento da EEFE, o evento terá nessa edição o tema “A Prática Docente da Educação Física Escolar: da inspiração à ação”.

Em função desse tema, o programa do evento está inteiramente voltado para a valorização de um tipo específico de conhecimento: o saber proveniente das experiências pedagógicas vivenciadas por diferentes professores de Educação Física Escolar. “A ideia é de que os professores, na sua prática profissional, possuem um importante saber proveniente do manejo de situações desafiadoras do cotidiano escolar – seja esse saber acadêmico, técnico ou didático”, resume o professor Walter Correia, que também é presidente da comissão organizadora do Seminário. Esse, inclusive, é um direcionamento que tem sido tomado desde as duas últimas edições do evento. O seminário de 2011 teve como tema os “Saberes Docentes”, e o de 2012, a “Prática Docente”.

“Tudo isso configura uma tentativa de aproximar os conhecimentos produzidos pela academia dos conhecimentos produzidos pelo profissional da Educação Física Escolar”, ressalta Correia, ao argumentar que este último tipo de conhecimento nem sempre é valorizado dentro do ambiente acadêmico. “Nós entendemos que os saberes provenientes da prática precisam de reconhecimento, de análise e de partilha”, finaliza.

Mais informações sobre o evento podem ser obtidas no site, pelo email xiiseminarioefe@gmail.com, ou telefone: (11) 3091-3135.

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