Instituto de Psicologia debate as várias formas de violência nas escolas

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Izabel Leão / Jornal da USP

Foto: Francisco Emolo  Lizardo, Galuch, Almeida, Giovinazzo e Ferreira
Foto: Francisco Emolo
Elisangela Lizardo, Terezinha Galuch, Renata Almeida, Carlos Giovinazzo e Karen Ferreira

O Laboratório de Estudos sobre o Preconceito (Laep) do Instituto de Psicologia (IP) da USP e o Programa de Estudos Pós-Graduados em Educação: História, Política, Sociedade da PUC-SP promoveram entre os dias 14 e 17 de outubro o 4º Seminário sobre a Teoria Crítica da Sociedade: Direitos e Violência na Escola. O objetivo do encontro foi apresentar o resultado das pesquisas e iniciar a elaboração de um projeto temático a ser apresentado ao CNPq a partir de duas pesquisas, Violência Escolar: Discriminação, Bullying e Responsabilidade e Educação e Direitos Sociais: A Perspectiva dos Professores da Educação Básica. O objeto de estudo do projeto são as formas de violência que se manifestam na escola, em especial o bullying, e a inserção dos direitos sociais na educação brasileira, sob a perspectiva dos professores.

O seminário, coordenado pelos professores Odair Sass, da PUC, e José Leon Crochik, da USP, foi aberto com conferência do professor Jaime Gynzburg, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Em sua palestra, Gynzburg chamou a atenção para a apatia de alunos e professores na escola, causada pelo fato de não verem sentido na vida escolar. Trata-se, segundo o professor, de uma espécie de mecanismo de proteção que esses sujeitos desenvolvem para se situar no clima de angústia e violência que caracteriza o ambiente escolar. “É uma violência da escola e na escola, das relações sociais tensas em seu interior, que são marcadas pela violência e agressividade de ambas as partes”, ressaltou.

Hierarquia Escolar

Foto: Francisco Emolo  José Leon Crochik
Foto: Francisco Emolo
José Leon Crochik

Para o professor José Crochik, a violência escolar está presente na  discriminação aos alunos em situação de inclusão e no bullying. Ele aponta a  hierarquia escolar como uma das causas da violência. O professor cita o  filósofo alemão Theodor Adorno, para quem existe uma “hierarquia oficial”,  que categoriza os melhores e piores alunos em sala de aula, e uma “hierarquia  menos oficial”, dos alunos e professores, que categoriza os não populares e os  mais populares, que são os melhores na educação física ou em outras  atividades que não o estudo. “Nossas pesquisas mostram que, de fato, aqueles que são melhores em educação física tendem a ter mais atos de agressividade  em relação aos seus colegas do que os demais. Os que são melhores na hierarquia oficial tendem a não ser agressivos e não sofrer violência. Os piores  em sala de aula tendem a ser agressivos, mas também ser alvos de violência. Os que são piores em educação física em geral só apanham”, explica.

É uma violência da escola e na escola, das relações sociais tensas em seu interior.

O professor lembra ainda que a nossa cultura tem um certo apreço pelo sujeito mais forte, corajoso, destemido e que se arrisca, pois é visto como o que se sai melhor na vida. Já aquele que estuda, é atento e tem uma formação melhor é tido como impopular, não agride e não é agredido. No entanto, o pior em sala de aula agride, por ser uma forma que encontra para ter espaço nessa cultura. “É o que chamamos de hierarquia escolar e prática de sofrimento e violência”, ressalta Crochik.

Bullying

Foto: Francisco Emolo  Carlos Giovinazzo
Foto: Francisco Emolo
Carlos Giovinazzo

Outro dado relevante apresentado no evento foi a questão do bullying, que não é a única forma de violência, e sim uma delas. Crochik explica que, em geral, aqueles que são indicados como mais violentos e os indicados como os que mais sofrem violência não são os mesmos que entendem que são violentos ou que são as vítimas. “A questão da percepção também é um diferencial. Aquele que se autoavalia como sendo violento ou vítima não é indicado como sendo vítima ou violento porque não tem a percepção correta dos seus atos, não percebe o quanto o que fez é brincadeira ou violência”, esclarece.

O professor explica ainda que o fato de essas hierarquias serem favorecidas e não serem pensadas reproduz a competição social, a ideia de que o mais forte, o mais rápido, o mais esperto é o que se dá bem na vida. “Isso é uma dupla mensagem: eu posso estudar e ser comportado, mas o que é valorizado pelos pares não é somente isso, mas aquele que se dá melhor no esporte, porque é mais hábil e mais esperto. A escola deveria se preocupar em passar a mensagem de que o melhor para poder se diferenciar não é por meio da competição, da força, da conquista, e sim do companheirismo, do trabalho coletivo, sem sacrificar a individualidade.”

Livro didático

As pesquisas apresentadas durante o evento abordaram temas relevantes para a educação hoje. A pesquisadora Maria Terezinha Galuch, da Universidade Estadual de Maringá, com sua pesquisa Organização do Ensino para os Anos Iniciais do Ensino Fundamental: Livros Didáticos e Formação, por exemplo, mostrou que o livro didático, na tentativa de tornar o estudo agradável e lúdico, vem promovendo um esvaziamento do conteúdo, pois enfatiza mais a forma de se aprender do que o conteúdo da aprendizagem. “Em nome de formas inovadoras de comunicação, abre-se mão do que é comunicado; em nome da criatividade, restringe-se o conteúdo da criação; em nome da diversão, perde-se o encanto pelo saber; em nome da autonomia para aprender, dificulta-se a possibilidade de conhecer para ser autônomo; em nome do diferente, privilegia-se o sempre igual”, analisou.

Renata Weffort Almeida, doutoranda da PUC-SP, em sua pesquisa Avaliação e Educação Infantil: Uma Análise das Políticas Educacionais, destaca que a ênfase das políticas públicas no setor recai sobre os meios ou as diferentes formas e recursos para se avaliar a educação, e não os fins da avaliação, que deveriam promover a reflexão sobre qual formação está sendo oferecida às crianças e as condições objetivas propiciadas pelas escolas para a realização de experiências formativas. “Os dados apresentados mostram o duplo caráter da política educacional voltada para a educação infantil: se, por um lado, a avaliação escolar infantil potencialmente pode contribuir para o processo formativo das crianças, apontando os melhores caminhos para a sua formação e inserção qualificada e crítica na cultura, por outro, pode cumprir meramente a função burocrática, por meio de técnicas e métodos que expressam a racionalidade tecnológica, porque vinculado ao princípio do desempenho”, disse.

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