Tusp escancara discussão estética em sua primeira bienal de teatro

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Pulsão, do grupo Desvio Coletivo, é um dos espetáculos apresentados na Bienal

Segundo o mito grego, ao roubar o fogo sagrado do Olimpo para dá-lo aos homens, Prometeu tornou possíveis as inúmeras criações da arte e da ciência. Inspirada nessa narrativa, a organização da Bienal Internacional de Teatro da USP escolheu o tema “Realidades incendiárias” para definir o espírito das atividades que trouxe para essa primeira edição do evento, que começa no dia 31 de outubro.

“A curadoria não teve nenhuma preocupação comercial. Nossa demanda foi radicalmente artística”, conta o diretor do Teatro da USP (Tusp) Celso Frateschi, idealizador e coordenador da Bienal. A partir desse critério, foram selecionados nove espetáculos que representam a forma como o teatro vem respondendo ao atual momento histórico de ebulição social. As produções vêm do Brasil e também do Líbano, Argentina, Eslovênia/Croácia e Tunísia, regiões marcadas por diversos conflitos. Segundo Frateschi, a escolha dos espetáculos levou em conta não apenas os temas tratados, mas, principalmente, a forma como são apresentados. “O interesse é em como uma realidade incendiária se reflete na realidade incendiária do palco”, afirma.

A curadoria não teve nenhuma preocupação comercial. Nossa demanda foi radicalmente artística.

A radicalidade estética presente nas produções que compõem a Bienal tornou difícil até mesmo nomeá-las. Deise Abreu Pacheco, que divide a curadoria do evento com René Piazentin e Maria Tendlau, conta que eram várias as denominações possíveis para dar conta das produções trazidas – peça, experimentação, imersão, performance -, que foram resumidas apenas como espetáculos.

Incluir sem impor

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66 minutes in Damascus abre a programação da Bienal

Um exemplo de como essa designação pode ser desafiadora é a produção libanesa que abrirá a Bienal: 66 minutes in Damascus, que será apresentada pela primeira vez no Brasil, traz uma experiência intensa de imersão cênica. Cada apresentação é aberta para apenas oito pessoas, que assumirão o papel de turistas em visita à capital síria e que são presos pelo serviço secreto do país. Ao comprar o ingresso, o espectador assina um termo de concordância de participar da experiência.

Assim como 66 minutes in Damascus, as demais produções também proporcionam uma fruição diferente do que se costuma entender por teatro – atores no palco e uma plateia que apenas assiste a um roteiro preestabelecido. “Nenhum dos espetáculos é contemplativo”, afirma Ferdinando Martins, vice-diretor do Tusp. Segundo a organização do evento, não há interesse em criar uma situação constrangedora – em algumas apresentações, inclusive, é o próprio espectador que escolhe a experiência que quer vivenciar.

Nenhum dos espetáculos
é contemplativo.

É o caso de Pulsão, criado por Marcos Bulhões, do grupo Desvio Coletivo. Concebido durante uma internação hospitalar, a produção trata da motivação de viver diante da possibilidade da morte. Sem limites entre palco e plateia, o espetáculo chama parte do público para interagir com os mais de 20 atores. A partir de cartas de tarot, cada pessoa é conduzida a uma trajetória diferente e o público que optou por não participar da experiência pode escolher qual história quer acompanhar.

Além de Pulsão, outras três produções nacionais integram a programação da Bienal, entre elas Arqueologias do Presente: A Batalha da Maria Antonia, criada especialmente para o evento (Leia mais em Tusp expõe cicatrizes da ditadura em Maria Antonia – 45 anos da batalha).

Independência

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Cena de Pulsão

“Somente livre da estrutura do mercado seríamos chamados para um evento como esse”, afirma o diretor de Pulsão, Marcos Bulhões. Segundo o diretor do Tusp, Celso Frateschi, a intenção é que essa independência entre no DNA do evento. Totalmente financiado pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP, a Bienal já começa fazendo parte da programação permanente do Tusp. De acordo com Frateschi, essa característica é o que torna a Bienal um evento inovador entre outros do cenário. “A intenção não é competir com outros festivais, mas trazer elementos que os outros não trazem, colocar um olhar que não é o foco dos outros, escancarar a discussão estética”, explica.

Essa discussão não acontece apenas nos espetáculos, mas também em conferências, encontros e workshops. A abertura da Bienal Internacional de Teatro da USP, no dia 31 de outubro, conta com a presença do teatrólogo argentino Jorge Dubatti, que apresentará a conferência “Realidades incendiárias e o Teatro Latino-Americano”, no Tusp, às 20 horas. Entre as outras atividades da Bienal, estão a “Roda de espectadores”, “Curtos-circuitos” (encontros entre diretores e grupos participantes do evento) e as “Partilhas incendiárias”, espaço onde os artistas apresentam seu projeto artístico.

Serviço

Foto: Lorena Fernandéz
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Espetáculo argentino Mi vida después retrata reconstrução da juventude a partir de fotos, cartas, fitas e memórias

A Bienal Internacional de Teatro da USP vai de 31 de outubro até 15 de dezembro e a programação completa pode ser acessada na página do evento. As apresentações acontecem no Tusp, Funarte, Tenda USP, Sesc Consolação e Centro de Cultura Judaica.

Os ingressos para os espetáculos custam R$ 20,00 e R$ 10,00 (meia-entrada) e são vendidos na bilheteria do Tusp, na Rua Maria Antonia, 294, Vila Buarque, das 12 às 19 horas, e também nos dias dos espetáculos, até o horário das apresentações (limite de quatro ingressos por pessoa para cada apresentação).

As inscrições para os workshops são gratuitas e devem ser feitas por email, mediante envio de currículo resumido e carta-interesse para tuspline@usp.br. Todas as demais atividades também são gratuitas, com ingressos distribuídos no dia do evento, duas horas antes do início.

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