Novas vias e transporte multimodal facilitariam escoamento de carga no país

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Foto: Wikimedia
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O Brasil é, ainda, um país que se sustenta a partir da produção de matérias primas. O agronegócio, segundo algumas projeções de especialistas da área, responderá por pouco mais de 20% de toda a riqueza gerada no país até o final do ano. Só em 2012 foram R$ 989 bilhões acumulados com este mercado que, mesmo assim, enfrenta dificuldades básicas em sua logística. Entregas mais rápidas e sem desperdício dependem da melhoria das vias de rodagem de todo o país, ainda muito antigas para realizar de maneira mais simples e eficaz o escoamento de mercadorias.

Na Escola de Engenharia de São Carlos (EESC) da USP, o professor João Alexandre Widmer se dedica a estudar melhorias na área de planejamento e operação de sistemas de transportes. Sua linha de pesquisa envolve a busca por estratégias de realização e investimento em infraestrutura de transporte de cargas em um caráter multimodal, ou seja, com articulação entre vários modos de transporte para tornar as operações mais eficazes.

Trabalhos de mestrado e doutorado, sob sua orientação, têm investigado aspectos de restrições operacionais das redes rodoviária, ferroviária e hidroviária brasileiras utilizadas no transporte de cargas domésticas e internacionais. “A meta é que essas investigações, desenvolvidas em um ambiente isento de influências político-partidárias de curto prazo, possam servir de fundamentação para priorizar investimentos da sociedade brasileira no longo prazo”, conta o docente.

Visão multimodal

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Widmer e seus alunos já tiveram a oportunidade de investigar casos que envolvem a restrição da capacidade de processamento de trens no Porto de Santos, além do transporte ferroviário de contêineres. Em um outro trabalho do grupo de pesquisa, foram considerados a limitação de processamento de trens em vias singelas e o custo de uma nova via ferroviária dupla de Santa Fé do Sul até Campinas, esta com traçado moderno para trens de carga velozes com contêineres sobrepostos.

Já outro dos trabalhos desenvolvidos pelo grupo expõe, de um ponto de vista mais geral, o conceito de transporte multimodal com aplicação em diferentes cenários. São analisadas combinações de veículos de carga com grande capacidade para o transporte a granel, além de sistemas de transporte em navios porta-contêiner e alternativas rodo-hidroviárias para redução de custos. “Um subproduto importante das pesquisas é que conseguimos consolidar uma visão de que as restrições impostas pela topografia brasileira, muito distintas da topografia da Europa Central e do continente norte-americano, de um lado nos trazem uma imensa riqueza em recursos hídricos, mas do outro impõem severas restrições e exigem investimentos elevados para construirmos vias novas”, relata o pesquisador.

Projetos obsoletos

Foto: Wikimedia
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Desde 1988, Widmer vem estudando a infraestrutura das vias brasileiras e sua adequação a novas composições de veículos de carga, buscando ajustar a rede viária existente para que esta seja, segundo ele, compatível com a tecnologia veicular disponível.

Esta linha de pesquisa, denominada Compatibilidade de Composições de Veículos Rodoviários de Carga (CVCs) com a infraestrutura viária brasileira, se concentra no fato de que há uma pressão do mercado por veículos de maior capacidade de produção, ou seja, maior capacidade de transporte por viagem, em decorrência do crescimento do mercado agrícola que se refletiu no transporte a granel nos últimos 30 anos.

Uma série de aspectos geométricos e estruturais precisam ser revistos pelos órgãos que estabelecem os critérios de projeto das rodovias brasileiras.

“Do ponto de vista da segurança de tráfego nas rodovias, foi identificada uma série de aspectos geométricos e estruturais que precisam ser revistos pelos órgãos que estabelecem os critérios de projeto das rodovias brasileiras”, diz Widmer. Segundo o pesquisador, os projetos das vias que atualmente atendem a esta demanda são baseados em parâmetros europeus e norte-americanos da década de 60, que pouco se assemelham às características dimensionais e de locomoção dos veículos atuais.

“Veículos de maior capacidade de carga, logo mais pesados, requerem vias com aclives e declives de inclinação média muito menor e raios de curva muito maiores do que os valores hoje observados no nosso sistema viário”, conta o professor. Sugere-se, portanto, repensar as estratégias de investimento na implantação de novas vias, na duplicação de rodovias arteriais existentes e na pavimentação e perenização de vias rurais para o escoamento de granéis sólidos e líquidos.

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