Com atendimento multidisciplinar, programa da FO torna possível envelhecer sorrindo

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Foto: Pedro Bolle / USP Imagens
Foto: Pedro Bolle / USP Imagens

Conforme os anos vão passando, as pessoas costumam se preocupar com mudanças na pele e no cabelo, elevação da pressão arterial, da glicemia e do colesterol, e com problemas nas articulações e no equilíbrio. Apesar da importância óbvia, a boca nem sempre ocupa o primeiro plano nesta lista.

Para a professora do Departamento de Próteses da Faculdade de Odontologia (FO) da USP, Maria Luiza Moreira Arantes Frigerio, muitos idosos não priorizam a boca, seja porque dentista é caro – especialmente porque muitos precisam de próteses e não dispõem de recursos para arcar com os custos -, seja porque essa é uma geração que não possui uma relação muito amigável com dentistas. Em outras palavras, o medo que surge ao pensar em sentar numa cadeira de dentista acaba sendo bem maior do que a atenção com a saúde bucal.

Além disso, o paciente idoso apresenta outras variáveis, como a percepção de estar “tomando” o tempo e o dinheiro dos filhos ao estar submetido a um tratamento odontológico. “Meu filho está faltando ao trabalho, está abonando esta falta, vamos fazer o trabalho mais curto, para não sobrecarregá-lo, eu não quero dar trabalho para ninguém” ou ainda, “quanto vai custar, eu não sei, é o meu filho que vai pagar, eu não tenho renda para isso, eu vou querer o mais barato” são exemplos comuns de preocupações que os afligem.

Ainda que tal abordagem não receba o devido destaque na formação odontológica acadêmica, todos este fatores apontam para necessidade de se atuar de forma diferenciada com os pacientes idosos. Foi desta percepção que surgiu na FO o programa Envelhecer Sorrindo.

Justamente por trabalharem majoritariamente com pacientes idosos, os profissionais do Departamento de Prótese perceberam que muitos dos seus pacientes não conseguiam manter uma regularidade nas visitas ao dentista – diversas vezes em função de problemas de saúde. E, mais do que isso, tiveram a sensibilidade de entender que algumas das queixas apresentadas extrapolavam o aspecto odontológico, passando, possivelmente, por transtornos cognitivos.

Desse modo, como o dentista atua sozinho diante do paciente, sem receber influência externa e, inclusive, sem conhecer a história dele, se este apresenta uma queixa que pode ser improcedente, o odontogeriatra precisa estar atento.

Qualidade de vida e autonomia

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Com cinco equipes e atendimento às terças e quartas-feiras, o programa, a despeito de não realizar propaganda, possui uma grande demanda reprimida de pacientes. Desta forma, em geral, os casos selecionados são aqueles tidos como “desafiadores”, nas palavras da docente.

Na essência, o que o grupo pretende é proporcionar um envelhecimento com qualidade de vida. Maria Luiza explica que “quando a pessoa não tem dente, ela não quer sair de casa, porque vai rir e vai ser ‘desdentada’, ‘boca murcha’. Sem sair de casa, ficará deprimida porque não fala com ninguém e não vê ninguém. E, com o quadro depressivo, tem-se o caminho mais curto para o início dos processos demenciais”.

Somada à importância estética, a professora ressalta a função fonética dos dentes, necessários para emitir os sons adequadamente, e a função mastigatória.

Além disso, com a perspectiva do aumento de casos de câncer com o envelhecimento da população, se faz necessário orientar o paciente a fazer o auto-exame de boca pelo menos uma vez no mês: “pôr a língua para fora e olhar querendo achar. Não é olhar rapidinho, é olhar procurando, apalpar, ver se mudou a cor do tecido, a consistência. Porque quando você vê no começo, é mais fácil de tratar”, comenta Maria Luiza.

A equipe do projeto tem como princípio valorizar a autonomia do idoso, instigando-o a realizar atividades diversas, aprender coisas novas e experimentar, de modo a fazer com que o cérebro crie ramificações para se desenvolver. Nesse sentido de valorizar a autonomia, o relacionamento do profissional passa a se dar de forma mais efetiva com o paciente, que tradicionalmente foi deixado à parte.

Além dos dentistas que atuam na odontogeriatria, o projeto também conta com a participação de profissionais de fonoaudiologia, fisioterapia e de arte terapia.

À espera do dentista

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Foto: Marcos Santos / USP Imagens

No lugar de uma sala de espera tradicional, o programa conta com atividades de interação e de expressão, que constituem a arte terapia. Nessa sala, são oferecidos materiais – lápis, tinta, argila –, e a ideia é que todos se sentem em volta da mesa e conversem. Que possam entender que aquilo que acontece com cada um não acontece só com ele, mas com outras pessoas da mesma faixa etária. Desse modo, os pacientes ficam, de certa forma, aliviados. “Antes da prática da terapia, quando eles chegavam ao ambulatório com a ânsia de relatar seus dramas pessoais e aflições, o trabalho do dentista ficava comprometido”, relata a docente.

Mais do que o comprometimento momentâneo, a equipe já atendeu idosos com comportamentos depressivos, o que interferia na dinâmica prótese-paciente, pois este não a utilizava, prejudicando a evolução do tratamento. E foi assim que o Instituto de Psiquiatria (IPq) se uniu ao projeto, com o objetivo de oferecer alternativas adequadas ao paciente, que ao contrário do que se supunha, iam além da odontologia.

Evento

Realizado em uma parceria da FO, IPq, Centro Práticas Esportivas (Cepeusp) e com apoio da Pró-Reitoria de Cultura e Extensão Universitária da USP, o evento Envelhecer Sorrindo está chegando à sua 15ª edição. As atividades acontecerão no dia 3 de dezembro, das 8 às 15 horas, no auditório da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP.

Voltado a todos os pacientes, mas especialmente aos que não foram atendidos pelo agenda normal do programa, o evento acontece anualmente, sempre abordando possibilidades de se envelhecer com qualidade. 500 idosos participarão de palestras, atividades e exercícios físicos que podem ser praticados depois em casa.

Todas as atividades são abertas para perguntas, com o intuito de esclarecer ansiedades. A demência, por exemplo, é um assunto bastante abordado na ocasião pelo IPq. Maria Luiza conta que sempre surgem dúvidas do tipo: “eu estava andando num ônibus, perdi o ponto e não percebi, isso é demência?”. A odontologia, por sua vez, trata de como cuidar dos dentes, de modo a desconstruir o mito de que não adianta cuidar, pois  tudo mundo ficará sem dentes um dia.

Para informações sobre participação no programa e no evento, entre em contato pelo telefone (11) 3091-7888.

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