Centro de Estudos da USP é polo tradutor da língua e da cultura árabe

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Foto: Wikimedia
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Estrutura complexa das línguas orientais exige comprometimento maior de interessados em seu estudo e tradução

Com o intuito de estimular o interesse pela língua e cultura árabe e provar que a literatura desses povos vai muito além das Mil e uma noites, o Centro de Estudos Árabes (CEAr), ligado ao Departamento de Línguas Orientais da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP luta pela expansão e disseminação da diversidade cultural árabe.

O CEAr foi fundado por iniciativa do professor Helmi M. I. Nasr na década de 1960, no mesmo período em que foi criado o curso de línguas orientais com habilitação em árabe na Universidade. Entre as atividades do Centro estão a organização de eventos e, sobretudo, a publicação de obras referentes à cultura árabe em geral, com destaque para o intercâmbio Oriente/Ocidente.

Atualmente, estão vinculadas ao Centro aproximadamente 30 pessoas, com relação direta ou indireta. Os membros vão desde alunos da graduação envolvidos com projetos de iniciação científica até alunos do mestrado e doutorado.

Oriente

Foto: Divulgação
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Mamede Jarouche, do CEAr, traduziu o Livro das Mil e Uma Noites diretamente do árabe para o português

Segundo o professor Mamede Mustafa Jarouche, um dos coordenadores do Centro, quando os estudos sobre as línguas orientais foram implantados na USP, na década de 60, boa parte da comunidade acadêmica “humanista” brasileira, pelo menos em São Paulo, não se mostrou favorável à iniciativa. “Havia a ideia de que o Brasil sendo um pais ocidental deveria se limitar a estudar línguas ocidentais e culturas que interessavam, como a inglesa, francesa, espanhola, germânica”, cita. “Isso me parece de uma miséria mental que chega a causar asco. Infelizmente, essa mentalidade prevaleceu por um bom tempo e de certa maneira prejudicou bastante o desenvolvimento dos estudos orientais no Brasil”, critica Jarouche.

Inicialmente, o Centro pretendia promover o estudo da língua e da cultura árabe, além de propor palestras. Atualmente, com o crescente interesse sobre as culturas orientais, e com a árabe em particular, ele oferece não só atividades para os alunos da comunidade USP, como também um curso de árabe para o público geral, palestras, oficinas, debates e traduções de obras para que possam ser lidas em português.

Tradução, diálogo entre as culturas

Foto: Wikimedia
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O impulso para tradução do árabe no Brasil começou em 1835, quando escravos muçulmanos revoltaram-se em Salvador. Diante de documentos ininteligíveis e da ausência de tradutores, as autoridades brasileiras acabaram enviando os papéis para Paris. Assim, a tradução do árabe para o português começou somente com a inauguração dos cursos de árabe na USP e, em menor escala, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Antes disso, só havia pequenas iniciativas individuais e esporádicas.

Desde então o Centro de Estudos árabes se mantém como único polo de tradução ampla no país, onde professores como Arlene Clemesha (sua diretora), Safa Jubran, Michel Sleiman, Mona Hawi, Miguel Attie Filho e Mamede Jarouche cobrem um panorama que inclui as obras clássicas e as modernas, em prosa e em poesia, além da filosofia, da gramática e da história.

Entretanto, o volume de obras que são traduzidas ainda é limitado, já que o número de colaboradores que exercem esse tipo de atividade no país é pequeno. De acordo com Jarouche, o fato de exigir um nível de dedicação que as línguas neolatinas não exigem limita o número de tradutores. “Um dos maiores problemas é que na língua árabe não há tradutores fora da academia”, aponta o pesquisador. “Esse fato tem consequências muito fortes sobre o nosso trabalho, que torna a expressão da literatura árabe cada vez mais limitada”, completa.

Um dos maiores problemas é que na língua árabe não há tradutores fora da academia

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Segundo o coordenador, não faltam interessados em aprender a cultura árabe. Pelo contrário, Jarouche acredita que o interesse está latente, mas faltam instrumentos capazes de direcionar o interesse desses indivíduos de forma eficaz. Além disso, a complexidade da língua ainda se apresenta como uma barreira para muitos. “As línguas orientais, como um todo, têm estruturas complexas desde a fonética até a sintaxe, passando inclusive pelo vocabulário. Ou seja, elas exigem um nível diferente de comprometimento”, argumenta Jarouche. “Exigem a estadia no país em que a língua é falada para se ter uma fluência mínima”, completa.

As línguas orientais têm estruturas complexas desde a fonética até a sintaxe, passando inclusive pelo vocabulário. Ou seja, elas exigem um nível diferente de comprometimento

“A importância das traduções consiste no diálogo que é proposto entre as culturas”, afirma o professor. Segundo ele, um dos objetivo principais do Centro é tornar a língua e a cultura oriental mais familiar aos leitores brasileiros, sejam eles acadêmicos ou não. “Os autores árabes e a literatura árabe é muito rica tanto no seu período clássico antigo quanto no seu período contemporâneo mas, infelizmente, faltam traduções em português para todas as áreas e fases dessa literatura”, revela.

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