Curso de turismo da ECA discute implicações da Copa no futuro de SP

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Paulo Hebmüller / Jornal da USP

Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP
Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP

A realização da Copa do Mundo não terá, em São Paulo, a relevância e o impacto que se supõe. Em vez de impor uma lógica nova e diferente a partir de suas demandas, o evento vai na verdade se acomodar à própria dinâmica da cidade. É o que afirma Clarissa Gagliardi, professora do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo (CRP) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP e integrante da rede Observatório das Metrópoles. “São Paulo faz negócios, e a Copa será mais um deles. O grande impacto será na potencialização dos negócios”, considera a professora.

Clarissa foi uma das palestrantes da 8ª Semana de Turismo, organizada pelos alunos do CRP, de 4 a 7 de novembro, no Auditório István Jancsó da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, na Cidade Universitária. O tema escolhido foi “Copa do Mundo Fifa 2014: o jogo fora do campo”. Discussões sobre infraestrutura das cidades, legado e imagem internacional do Brasil integraram a pauta dos debates.

A edição de 2013 marcou também a comemoração dos 40 anos da criação do curso de Turismo na ECA. “A melhor forma de comemorar é realizar esse debate acadêmico e profissional”, disse na abertura da Semana a professora Margarida Kunsch, diretora da unidade.

De operária a terciária

Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP
Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP

Para Clarissa Gagliardi, o Mundial de Futebol na capital paulista servirá a outros propósitos, mas não o de consolidar o turismo na cidade. A estimativa é de que São Paulo receba 460 mil visitantes ao longo dos 30 dias da competição – 190 mil estrangeiros e 270 mil brasileiros. “Eventos como a Virada Cultural, a Parada Gay e o Réveillon na Paulista já recebem muito mais gente de uma só vez do que se espera na Copa”, assinala a professora, ressaltando que essa infraestrutura está consolidada. A capital é a líder na captação de eventos no País, especialmente feiras, congressos e negócios, e deve atrair um total de 15 milhões de visitantes ao longo de todo o ano que vem.

O fato de que, em função da Copa, comitês dos três entes – Município, Estado e União – conversem e planejem em conjunto é um dado positivo, salienta Clarissa. A grande oportunidade que a movimentação em torno do Mundial trará, de acordo com as pesquisas que o Observatório vem realizando, é o redimensionamento da importância da Zona Leste da capital no âmbito metropolitano. Além de ter o palco dos jogos – a Arena Corinthians, ou Itaquerão –, a região vai receber outras obras de infraestrutura e incentivos para novos empreendimentos e empregos.

Para Clarissa, a Zona Leste pode se transformar numa nova centralidade na área metropolitana ao estabelecer relações com outros municípios, como os do ABC – que, pela proximidade com o litoral, terão muitos impactos a partir dos investimentos no pré-sal. Também haverá influência de obras estruturais de longo prazo e de outros megaprojetos, como a conclusão do trecho leste do Rodoanel.

“A Zona Leste tende a redefinir seu território, deixando de ser operária para se tornar terciária”, afirma a docente da ECA. Atualmente, a região abriga 37% da população paulistana. É a segunda maior densidade, atrás apenas do Centro. Nela se encontram a maior diferença entre número de habitantes e quantidade de empregos e a menor média de renda familiar da capital.

As pesquisas apontam três áreas com perfis diferentes: quanto mais longe do Centro, piores os indicadores. A área 1 é a de bairros como Tatuapé, Belém e Penha. A 2 tem, por exemplo, Ermelino Matarazzo, São Mateus e Parque São Lucas, e na 3 estão bairros como Itaquera, Guaianazes, Cidade Tiradentes e Itaim Paulista.

Clarissa Gagliardi considera que a Copa do Mundo pode ser um vetor de desenvolvimento para a Zona Leste comparável à Operação Urbana Faria Lima-Berrini. Essa região e o eixo Anhembi-Centro-Paulista concentram hoje a maior parte dos atrativos e serviços para quem visita a cidade. O surgimento de novas centralidades tem como indicadores, por exemplo, a previsão de inauguração de 12 novos hotéis fora dos eixos tradicionais e a valorização imobiliária de outros bairros.

Oportunidade de surpreender

Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP
Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP

Renato Romanetto, assessor da Secretaria Executiva do Comitê Paulista da Copa do Mundo Fifa 2014, apresentou as ações do comitê, responsável, entre outras atribuições, por acompanhar o trabalho de todas as instâncias envolvidas – Fifa, órgãos das três esferas do poder público e o Corinthians, dono do estádio –, incluindo o andamento das obras no entorno da arena.

Uma das ações do comitê é propor que as prefeituras do interior apresentem atrações para os turistas que vão ficar no Estado no intervalo dos jogos. A capital receberá seis partidas do Mundial. A primeira é justamente a abertura da competição, no dia 12 de junho, e a última é uma das semifinais, em 9 de julho.

“Temos a possibilidade de surpreender com os roteiros paulistas. Quem vem à cidade acha que só temos negócios, avenida Paulista e trânsito. Mas aqui perto temos praia, aventura, natureza, cultura e muito mais para mostrar”, afirma. Ao planejar eventos ou lançar produtos, no entanto, as prefeituras e empresas precisam tomar cuidado com a longa lista de exigências e restrições da Fifa quanto ao uso das marcas da Copa e à presença de outros patrocinadores que não sejam os licenciados oficiais.

Vinte e três seleções classificadas para o Mundial já visitaram o Estado para observar instalações de treinamento. O comitê trabalha para que de dez a doze seleções fiquem em cidades-sede paulistas. Três já anunciaram a escolha: a Suíça definiu o Guarujá; o México (que ainda vai disputar a repescagem) pretende ficar em Santos; enquanto a França (que também enfrentará repescagem) optou por Ribeirão Preto.

Além de surpreender, as cidades precisam mostrar serviços de qualidade, diz Romanetto. “Sem haver jogos aqui, 25 mil turistas visitaram 14 cidades paulistas durante a Copa das Confederações (disputada em junho deste ano). Esse é um valor intangível”, conclui.

Para a professora Débora Cordeiro Braga, coordenadora do curso de Turismo da ECA, a Copa será muito importante para o setor turístico porque dará visibilidade do País para o mundo. “Mas a preocupação é grande, porque estamos percebendo que a infraestrutura necessária, especialmente em relação aos aeroportos e ao acesso aos estádios, não vai ficar pronta”, diz.

A professora considera que os movimentos que se opõem ao Mundial são tardios e deveriam ter sido mais efetivos já na época em que o Brasil lançou a candidatura como país-sede. “Naquele momento, apesar de existirem fóruns próprios para a sociedade se manifestar, a população não discutiu amplamente sobre possíveis interferências políticas e sobre o uso de dinheiro em estádios, em vez de, por exemplo, na educação.”

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