Especialista francês discute com brasileiros livro e mercado editorial

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Sylvia Miguel / Jornal da USP

Foto: Divulgação/ECA
Max Butlen atuou com políticas públicas para a leitura no governo Miterrand

“O leitor, a informação e o editor” foi o tema da conferência proferida pelo pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Pedagógicas de Paris, na França, Max Butlen, durante o segundo encontro promovido pelo Núcleo de Estudos do Livro e da Edição (Nele) da USP, no dia 6 de novembro, na Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin.

O responsável pelo Projeto Pró-Leitura e pelo programa de implantação de bibliotecas em escolas na gestão do presidente François Miterrand, da França, falou para uma plateia de intelectuais, pedagogos e editores reunidos no 2º andar da Brasiliana. Com a mediação da professora Marisa Midori Deaecto, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, a exposição contou com debatedores como o professor aposentado da ECA Edmir Perrotti, além de Fernando Paixão, poeta, ex-editor profissional e docente do Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) da USP.

Butlen pontuou características do mercado editorial internacional, destacando a necessidade de os países articularem suas políticas de leitura às mudanças sociais e aos objetivos de formação do leitor. “Os objetivos de formação do leitor mudaram muito do século 20 para o século 21. O leitor hoje deve ser polivalente, com um conjunto de competências impressionante. Deve ler em vários suportes, todo tipo de texto e diversas modalidades de leitura”, disse. Destacou que as políticas públicas para a formação de leitores devem rever a forma de oferecer e promover a leitura e o livro em si. “É preciso redefinir o livro, a literatura e a leitura, pois oferecer leitura é mais fácil do que formar o leitor”, disse.

O intelectual citou o Brasil como um país que tem se pautado por políticas do livro e poucas políticas para a leitura e que isso pode ser verificado, por exemplo, nas notas baixas do PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), afirmou. “É necessário trabalhar a distância cultural, senão as distâncias geográfica, social e econômica não se resolverão”, disse. Na visão de Butlen, as práticas culturais podem revelar as leituras invisíveis do jovem. “Isso é reinventar a política de leitura”, disse.

Foto: Cecília Bastos/Jornal da USP  Fernando Paixão, Marisa Midori Deaecto, Max Butlen e Edmir Perrotti
Foto: Cecília Bastos/Jornal da USP
À mesa: Fernando Paixão, Marisa Midori Deaecto, Max Butlen e Edmir Perrotti

Segundo Butlen, o mercado editorial é um mundo revolucionário desde sua origem, marcado pela criatividade e, cada vez mais, pela diversificação da oferta. Apesar da diversificação crescente, existe uma tendência mundial à concentração do mercado editorial, ressalvou o professor da Universidade de Cergy-Pontoise.

“O mercado mundial da leitura, cada vez mais internacionalizado na fabricação e confecção do texto, vem se caracterizando pela formação de oligopólios. Há uma dificuldade crescente das livrarias tradicionais se manterem e é mesmo possível que os distribuidores passem a ter hegemonia sobre as edições e sobre o que publicar, tirando de circulação o produto que acreditam que não vende”, afirmou.

As políticas de leitura devem priorizar o regional e o local, a profusão de bibliotecas, bem como dos temas e títulos oferecidos, sendo que as ações e os mediadores culturais e os diferentes atores desse mercado devem ganhar um papel cada vez mais destacado, afirmou.

Monteiro Lobato

O poeta Fernando Paixão pontuou que um dos maiores obstáculos para desenvolver políticas nessa área é o fato de que a experiência interior da leitura é um mundo ao qual não temos acesso. Nesse sentido, Monteiro Lobato foi um mestre no campo da disseminação da leitura juvenil porque provavelmente conseguiu entender esse universo interior, afirmou.

Paixão rememorou o desenvolvimento da sociedade brasileira e os respectivos hábitos de leitura da década de 1950 até os nossos dias, mostrando como foram se formando os diferentes públicos no Brasil. Desde a ficção policial disseminada nos anos de 1970, passando pela flexibilização política da década seguinte e as discussões sobre comportamento na década de 1990, o novo milênio veio marcado pela cultura digital sob influência internacional.

“Hoje existe de tudo, numa fazenda em que não sabemos onde estamos. De fato não existem políticas de leitura e sim de livros”, disse. O mercado editorial nacional vive um processo de transição, o livro ainda é um produto de elite e aqui também existe a concentração editorial, ressaltou.

O professor da ECA Edmir Perrotti mostrou que existe uma discussão corrente sobre a leitura e não apenas sobre a promoção da leitura. Sendo assim, é preciso refletir por que precisamos construir um discurso sobre a leitura em si. “Existe aqui um novo paradigma discursivo indicando que o empírico não é mais capaz de responder à questão.”

Imagem: Acervo Monteiro Lobato
Ilustração de “As reinações de Narizinho”. Para Paixão, autor conseguiu entender a experiência interior da leitura juvenil

Segundo Perrotti, precisamos lembrar que o livro é um conceito que não se fecha em si. Subentende toda uma cadeia produtiva e um processo de produção. Por isso, é preciso interrogar as demandas e as dificuldades que o livro oferece como objeto cultural a ser produzido e a ser lido. É preciso ter em mente que a dimensão econômica está dimensionando atos de disseminação cultural e da própria criatividade, pontuou.

O próximo seminário do Nele acontecerá em março de 2014 e vai tratar do tema abordado no livro Edição e Revolução – Leituras Comunistas no Brasil e na França, que discute as estratégias editoriais adotadas no período entre 1920 e 1960 por comunistas no Brasil e na França para levar a leitura ao público. O livro, organizado pela professora Marisa Midori Deaecto e Jean-Yves Mollier, é uma coedição da Ateliê Editorial e Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

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