Pesquisa da EACH revela que Zona Leste de SP tem seu patrimônio histórico ameaçado

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Rúvila Magalhães / Agência USP de Notícias

A zona leste de São Paulo possui um vasto número de testemunhos apagados em tempos recentes ou em processo de degradação. A memória histórica local é volátil: não resguarda seus vestígios e as transformações são muitas e rápidas. “A região possui um patrimônio altamente significativo, de grande amplitude temporal e fortemente ameaçado, sobretudo, devido a multiplicidade de interesses, a falta de preocupação em se conservar o passado e o que é relevante”, observa o gestor ambiental Danilo da Costa Morcelli.

Morador da zona leste, Morcelli decidiu analisar os remanescentes dos processos históricos ocorridos na região bem como contextualizá-los em uma pesquisa realizada na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP. O pesquisador  sempre ouviu falar sobre as transformações que a área sofreu, bem como vivenciou muitas delas e isso o estimulou a pesquisar sobre o assunto. Orientado pela professora Silvia Helena Zanirato, a pesquisa Paisagens paulistanas, memória e patrimônio às margens do rio Tietê abordou as transformações históricas ocorridas nas regiões banhadas pelo Tietê, na porção leste, por intermédio de uma leitura da paisagem.

No estudo da paisagem dos distritos banhados pelo Tietê, com enfoque para o patrimônio, Morcelli pensou na materialidade, nas marcas e nos testemunhos de sociedades passadas ou que estão para desaparecer. A análise partiu desde a colonização europeia no século 16, chegando até momentos posteriores a industrialização, no século 20. Esse momento de periferização da região é particularmente importante. Afinal esse processo culminou com um grande adensamento populacional no local, favorecendo transformações que ocorreram muito rápido e de forma drástica, por isso, grande parte da história se perdeu.

Para abordar o assunto, o pesquisador fez uma leitura analítica das paisagens, tanto atuais quanto passadas. Com o objetivo de reconstruir os testemunhos pretéritos, Morcelli coletou relatos, notícias e fotografias. Identificou em alguns locais a conservação, apesar das constantes ameaças — as antigas igrejas coloniais de São Miguel e Biacica, as igrejas da Penha e dos Homens Pretos, estruturas industriais e estruturas de fabrico de tijolos e extração de areia no Parque Ecológico do Tietê são alguns exemplos — e em outros a destruição e ruínas — como o Engenho do Sítio Piraquara, e a Casa sede do Sítio Mirim, ambos do início da colonização paulista. Com esta análise, pôde identificar um vasto número de testemunhos apagados em tempos recentes ou em processo de degradação.

Morcelli concluiu que os tombamentos – que são registros oficiais do valor cultural de uma construção, ou de saberes, com o objetivo de incentivar a sua preservação – não possuem efetividade na região, já que prédios tombados estão em ruínas, ou sofreram significativas alterações. Muitos registros históricos são eliminados para a construção do novo, como é o exemplo da mansão Engenheiro Goulart (Casarão Faleiros), que foi destruída para construção de prédios residenciais.

Memória e esquecimento

A não consideração das tradições de outros povos que vieram para a região é algo que intrigou o pesquisador. “E por que não considerar também em nossas memórias a favela, as populações ciganas e as antigas colônias japonesas presentes na região?”, questiona. “A região é riquíssima, pouco explorada e possui tradições que estão muito perto de desaparecer. Muitas das quais temos poucos relatos”.

Disposto a agir diretamente nessa questão, o pesquisador faz parte de um grupo que visa resgatar as memórias da região, o Grupo de Memória da Zona Leste, e o Memorial da Zona Leste, a ser construído no campus da EACH. Diante desta questão, Morcelli convida: “Refletir sobre o patrimônio, sua conservação, as motivações para sua escolha são fundamentais para a sociedade. Assim como conhecer e reconhecer os elementos constituintes de cada local, isso está diretamente ligado à identidade”.

Mais informações: email danmorcelli@gmail.com, com Danilo da Costa Morcelli

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