Difusão da história e cultura ciganas é arma na luta contra o preconceito

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Foto: Marcos Santos / USP Imagens
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Exposição fotográfica “Ciganos – Estigma e Identidade”, de Rogério Ferrari, integrou programação do seminário

A exclusão e o preconceito sempre acompanharam os ciganos por onde quer que eles passassem. De escravizados por cinco séculos nos antigos territórios que formam a atual Romênia, a perseguidos e assassinados pelo regime nazista de Hitler. Infelizmente, esta história de discriminação não chegou ao seu final. Os grupos ciganos ainda são pouco conhecidos e acabam negligenciados pelos governos dos territórios onde vivem. Para falar sobre o assunto, o Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP organizou, na última semana, o seminário internacional Ciganos: História, Identidade e Memória.

Entre os dias 26 e 28 de novembro, a Faculdade recebeu pesquisadores e especialistas em povos ciganos para apresentar os resultados de seus estudos e incentivar as pesquisas acadêmicas nesse campo. “A Universidade tem o importante papel de resgatar a história desses povos. É uma tradição da Faculdade abordar temas esquecidos pelo público em geral”, disse Sérgio Adorno, diretor da FFLCH, na abertura do evento.

Os organizadores do seminário também pretendem que as pesquisas nele apresentadas fomentem as ações governamentais para fortalecer a identidade cigana. “Os povos ciganos sofrem com violações dos direitos humanos diariamente. É preciso mudar essa realidade e instalar políticas públicas de promoção da cidadania cigana. Por isso é muito importante ter esse espaço de debate, de produção de conhecimento e de subsídio de dados que orientem essas políticas públicas”, disse Luana Arantes, representante da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), do Governo Federal.

Território e identidade

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
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Apresentação de dança cigana durante o evento

A estratégia do seminário foi a de buscar o fim do preconceito pelo conhecimento. Enquanto a sociedade continuar a desconhecer a história dos ciganos e seus hábitos, eles ainda serão um povo desconhecido e, por isso, suscetível à discriminação. “A violência contra os ciganos está relacionada com a nossa dificuldade de enxergar uma realidade diferente dentro da nossa realidade”, afirmou Florencia Ferrari, doutora em antropologia social pela USP. Esse pensamento guiou a antropóloga na pesquisa que desenvolveu entre os ciganos Calon, em acampamentos no estado de São Paulo. Seus estudos não se dedicavam a descrever como são os ciganos, mas apontar como os Calon criam suas próprias realidades.

“Durante todo o tempo que passei com eles, fui muito questionada sobre como conseguia ficar assim sozinha. Perguntavam-me como meu marido me permitia sair sozinha, sobre minha relação com meus parentes, onde eles estavam e quão próximas eram suas casas da minha”, contou Florencia. Segundo a pesquisadora, esses ciganos são incapazes de compreender a condição de estarem ou ficarem sozinhos e constroem sua identidade a partir da família. A família nuclear dos Calon é composta por um casal de filhos solteiros, os filhos dos filhos que têm esposa e, possivelmente, os pais de um dos cônjuges. Eles têm horror à ideia de isolamento social. “Quando percebemos que eles se organizam pela rede de parentes, nós entendemos que não faz sentido colar neles uma identidade nacional”, disse revelou.

Quando percebemos que eles se organizam pela rede de parentes, nós entendemos que não faz sentido colar neles uma identidade nacional.

A exposição de Marcos Toyansk, doutor em Geografia Humana pela USP, foi em sentido semelhante. “Até os anos 1930, quando as primeiras ideias de criação de um Estado cigano apareceram, os ciganos não tinham uma ideia muito forte de território”, explicou Toyansk. Essas ideias, porém, foram interrompidas pelo nazismo, que perseguiu e assassinou essas populações. O episódio, segundo o geógrafo, enraizou nos ciganos a lição de que, espalhados pelo território, poderiam ter mais chances de fugir das perseguições. Surge, então, uma nova ideia política: transformar os ciganos em uma comunidade transnacional.

Nos anos 1990, cresceu a reivindicação de representatividade internacional sem que houvesse a necessidade de um território. Esse modelo baseia a autonomia de um povo não mais no território, e sim na cultura. Para Marcos, o modelo, apesar de moderno, ainda encontra muitas divergências: sendo aterritorial, os ciganos são estrangeiros em todos os territórios. E essa não é uma condição favorável em muitos países.

Perseguição

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
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O fato de não terem registros históricos, o que impedia a organização de uma árvore genealógica, associado aos hábitos nômades, abriu precedentes para que os ciganos fossem considerados “impuros” por muitos séculos. “Em 1499, os reis católicos espanhóis ordenaram que os ciganos abandonassem suas terras. Proibiram, também, que usassem a língua e os trajes ciganos, com a intenção de incorporá-los à vida cotidiana do reino”, contou Maria Luiza Tucci Carneiro, coordenadora do LEER. Expulsos da Espanha, fugiram para Portugal – onde foram vetados de entrar e expulsos os que já estavam lá, em 1526. Foram enviados para Angola e para o Brasil, mas aqui também foram perseguidos ao longo dos anos. Segundo a professora da FFLCH, durante o primeiro governo Vargas os ciganos foram impedidos de receber vistos de entrada e eram avaliados como indesejáveis.

A apresentação de Márcia Yáskara Guelpa, representante do Povo Cigano na Comissão Nacional de Desenvolvimento Sustentável de Povos e Comunidades Tradicionais, mostrou que a perseguição aos ciganos pelo mundo ainda está longe do fim. Segundo Márcia, na França, por exemplo, os ciganos são expulsos, e na Eslováquia as mulheres ciganas são esterilizadas. “Comparado a alguns lugares, o Brasil é o paraíso dos ciganos, mas ainda temos muitos direitos desrespeitados”, disse. O acesso a documentos de identificação, obrigatórios para todos os brasileiros, por exemplo, ainda é muito limitado aos ciganos. “Quando a mulher precisa registrar o filho, é preciso dizer local de nascimento. Se a criança nasceu na viagem de um acampamento para outro, por exemplo, como que ela faz? Além disso, é preciso apresentar duas testemunhas e ninguém quer ser testemunha de cigano”, disse.

Comparado a alguns lugares, o Brasil é o paraíso dos ciganos, mas ainda temos muitos direitos desrespeitados.

Para ela, tal dificuldade seria menor se os costumes ciganos fossem levados em consideração. Márcia Yáskara também questionou os dados oficiais do IBGE: o mapa do Instituto apresenta apenas 25 acampamentos ciganos nos municípios de São Paulo. Existem, segundo as lideranças ciganas presentes no Seminário, mais de 600 acampamentos. Em sua avaliação, um governo que não conhece os ciganos brasileiros não poderá aplicar políticas públicas eficientes para eles.

Carta São Paulo

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Ao final do Seminário, foi elaborada e lida a Carta São Paulo, que traz as linhas de ações futuras dos próximos seminários sobre os povos ciganos e do Grupo de Estudos sobre os Ciganos, ligado ao LEER e lançado no seminário. O método de trabalho, a partir de agora, é envolver as entidades representativas e ativistas ciganos na rede de pesquisa para que a cooperação entre o mundo acadêmico e as comunidades ciganas representem uma forma de enfrentar os desafios.

A Carta vai circular entre as instituições representativas que trabalham com a questão dos direitos humanos e discriminação racial.

Além da apresentação de pesquisas, a exposição fotográfica “Ciganos – Estigma e Identidade, do fotógrafo Rogério Ferrari, integrou a programação do seminário.  Entre 2010 e 2011, Ferrari retratou ciganos que vivem no interior da Bahia, trabalho que também deu origem ao livro Ciganos (Editorial Movimento Contínuo, 2012).

A mostra ficará aberta ao público até o dia 14 de dezembro, na Sala BNDES da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin, da USP, localizada à Rua da Biblioteca, s/n, Cidade Universitária, São Paulo.

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