SIBi estreia espaço de mostras com coleção rara de “Dom Quixote”

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Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Desocupado leitor,

É assim que Miguel de Cervantes inicia a novela de cavalaria mais famosa da história ocidental.  Apaixonado por Dom Quixote, Sebastião Publio Dias da Silva – um bastante ocupado médico pernambucano que vivia em São Paulo – colecionou por 40 anos versões ilustradas da jornada do engenhoso fidalgo. Edições de todo o globo somam mais de 400 exemplares, que agora estão no acervo da Universidade, somando um total de mais 700 obras, todas com imagens. “Essa é a grande característica da coleção, e que a faz rara”, diz a diretora do Sistema Integrado de Bibliotecas (SIBi) da USP, Sueli Ferreira, ao destacar que ela “é toda ilustrada e dispõe de diversos idiomas”.

Para engordar a coleção, Publio procurou as embaixadas e consulados brasileiros em vários países para que contribuíssem com sua busca. Amigos do pernambucano também fizeram parte desta arrecadação, que ultrapassa 45 idiomas diferentes – os mais exóticos, ressalta Sueli, são os volumes em turco, catalão, japonês, grego, árabe e hebraico. Jorge Amado, Manuel Bandeira e Carlos Drummond estão entre os colaboradores do médico.

Parte desta paixão, presente no acervo cervantino da USP, está na exposição que marca a abertura do Espaço de Mostras Periódicas das Coleções de Obras Raras e Especiais do SIBi. Quixote: entre a palavra e a imagem, fica aberta ao público no Complexo Brasiliana até o dia 1 de março, com uma seleção especial de exemplares. Entre eles, o mais antigo de Publio Dias, uma raridade com mais de 350 anos. É a primeira edição ilustrada, em língua espanhola, que data de 1662, em dois volumes.

Entre a palavra e a imagem

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Ao alinhar palavra e imagem, Sueli gosta de evidenciar como as gravuras e ilustrações variam de acordo com o tempo e contribuem para as várias interpretações e leituras da obra. Em algumas imagens, o fidalgo é mais cômico, em outras, melancólico ou sonhador. “Aí vai se criando toda uma estrutura em cima das ilustrações, inclusive em relação à língua”. A diretora lembra ainda que é possível encontrar traços diferentes de cada cultura a partir das gravuras, como por exemplo, uma das representações francesas trazem um Quixote com traços finos e delicados, típicos das imagens deste país.

Separada em duas vertentes, a mostra busca tratar do impacto mundial da obra e para tanto, a curadoria apresenta desde as obras mais antigas da coleção, nos vários idiomas, até algumas mais recentes, com ilustrações de artistas como Portinari e Salvador Dalí. Uma das mais famosas, a edição francesa com gravuras de Gustave Doré, é a mais reproduzida em edições pelo mundo. A figura de Quixote com seus demônios e pesadelos define uma leitura específica para a obra e serve de guia para interpretações dos leitores.

Assinada por Dalí, uma das edições traz 31 vinhetas – pequenas ilustrações em preto e branco – e dez pinturas de página inteira. Essas e outras ilustrações estão disponíveis para apreciação do público em tablets espalhados pelo espaço. Além de ser possível folhear as digitalizações de livros históricos, com esta interação, cada detalhe é evidenciado: desde os veios da madeira na xilogravura até as pinceladas e assinaturas do artista.

Parte importante da mostra, também, é a recepção que a obra de Cervantes teve no Brasil. Cercada de adaptações, diversos escritores brasileiros se apropriaram do cavaleiro errante em suas histórias. Sueli cita o volume de D. Quixote para Crianças, cuja tradução e adaptação são assinadas por Monteiro Lobato como exemplo. A versão foi traduzida posteriormente para o espanhol, difundindo a história pela América Latina. Outras formas de recontar Quixote se destacam na exposição, com quadrinhos e cordel, além do Semanário D. Quixote, que apresentava as situações políticas e socioeconômica do Brasil através das figuras de Quixote e Sancho Pança.

Sonho e realidade

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Sueli Ferreira, diretora do SIBi USP

A Coleção Cervantina Publio Dias, primeira temática do SIBi, foi a escolha para a estreia do Espaço de Mostras Periódicas das Coleções de Obras Raras e Especiais. Pela primeira vez é constituído um espaço destinado às obras raras da USP.

No Complexo Brasiliana, onde está o SIBi,  serão colocadas todas as obras raras da Universidade presentes hoje nas 73 bibliotecas espalhadas pelos campi. Para isso, foram instalados laboratórios destinados à manutenção das obras, além de tratamentos de higienização e digitalização de livros e periódicos. O prédio tem controle de temperatura, de umidade e segurança. Todos livros têm RFID, uma forma de se controlar qualquer exemplar desde a estante. “Mexeu no livro, ele aponta no sistema”, explica Sueli. “Essa é a proposta, que todas as unidades possam colocar aqui, sob nossa custódia, seus livros”.

Sueli lembra que este é um momento especial para o Sistema, e chama atenção para o fato de a exposição representar bem o momento do SIBi, “com novas instalações, passando do sonho para uma realidade – assim como Quixote, um sonhador, que vive entre o sonho e a realidade”.

Serviço

Quixote: entre a palavra e a imagem
SIBi, Complexo Brasiliana, s/n, Cidade Universitária, São Paulo
Aberta à visitação até 1 de março de 2014, das 9 às 17 horas. Entrada gratuita.

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