Laboratório da FFLCH lança olhar brasileiro sobre arte medieval

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Foto: Reprodução
Pintura retabular medieval do acervo do Masp, estudada por pesquisador do LATHIMM

No Brasil, arte medieval é, ainda, um campo de estudo bastante incipiente, em especial se pensarmos que o próprio estudo da história da arte é uma área em crescimento. Avançando nesse ramo, a professora Maria Cristina Correia Leandro Pereira pesquisa imagens medievais no Laboratório de Teoria e História da Imagem e da Música Medieval (LATHIMM) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

Ao contrário da Europa e mesmo dos Estados Unidos, onde há uma enorme produção na área, com um campo bem estabelecido, no Brasil, durante muito tempo, privilegiaram-se os grandes momentos da arte nacional, o barroco, no período colonial, e o modernismo, no século 20, que são, segundo a professora, quando se tem a expressão de uma arte brasileira. “Há uma tendência de se estudar o que é local, o que está perto. Assim, estudos sobre arte antiga, arte medieval e arte renascentista, diante do já parco estudo de história da arte, eram bem limitados”, explica Maria Cristina.

Além disso, o acesso aos objetos de estudo até bem pouco tempo se dava com dificuldade, “Era realmente complicado se fazer história da arte medieval no Brasil há dez anos, pois era preciso ir diversas vezes à Europa. A internet, de fato, mudou tudo.”

O laboratório

Dentro do LATHIMM, um cuidado adotado é o de se pensar por meio de um ponto de vista teórico, discutindo e levantando questões, de maneira a não se restringir a períodos históricos. A busca é sempre por um diálogo com outros momentos e disciplinas. Essa é a importância da teoria, pois com ela o foco no conteúdo se mescla a questões conceituais e metodológicas, para que seja possível estabelecer relações com outros períodos além da Idade Média – objeto de aplicação de questões teóricas do laboratório. Para a professora, “é uma questão de pensar, seja através de conceitos da história, seja através de conceitos da filosofia ou da psicanálise”.

O LATHIMM é coordenado por três professores, cada um em uma área de pesquisa. O professor Eduardo Henrik Aubert trata de Musicologia Medieval e a professora Rita Luciana Berti Bredariolli versa mais largamente sobre teoria da arte, sobretudo contemporânea. Já a professora Maria Cristina possui duas grandes linhas de pesquisa, uma delas sobre escultura em claustros românicos, e outra sobre ornamentação. Por meio do conceito de ornamentação, por exemplo, é possível se estudar produções do período Barroco, do Renascimento ou mesmo da Idade Média.

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Seguindo a linha da professora, o aluno Doglas Morais Lubarino, seu orientando de mestrado e membro do Laboratório, desenvolve pesquisa sobre uma pintura retabular (parte de painel) do último período da Idade Média conservada no Museu de Arte de São Paulo (Masp), obra que nunca fora objeto de estudos específicos e cujas origens e percursos até chegar ao Brasil ele busca traçar. Assim, Doglas procura dados sobre a história da pintura, que são muito vagos. Até o momento se sabe que é uma obra pintada em Valença, na Espanha, para um mosteiro da Borgonha, na França. Porém, qual o mosteiro, qual o contexto no qual foi executada e quem a encomendou seguem desconhecidos. Outra parte da pesquisa atem-se à análise da imagem e do que está ali representado.

A obra se insere no contexto da eucaristia, tema caro ao século 15, uma vez que se trata de uma imagem da missa de São Gregório. Assim, o pós-graduando trabalha a obra enquanto iconografia, mas também enquanto objeto em si, levando em consideração a materialidade da pintura, seus usos, funções e manipulações, especialmente quando se tem que um retábulo, em geral, possui três partes que constituem um painel, sendo esta apenas uma de suas partes, não sendo conhecido o paredeiro das restantes.

Encontro Anual

Há quatro anos o Laboratório realiza o Encontro Internacional: a Imagem Medieval, História e Teoria, com pesquisadores não apenas dedicados à Idade Média e à arte medieval, com o objetivo de se fomentarem discussões e intercâmbios entre os estudiosos em torno de questões teóricas e metodológicas.

Inicialmente reservado a conferencistas convidados, a tendência do evento é abrir-se, a exemplo dos últimos dois anos, quando foram incluídos espaços para estudantes de pós-graduação apresentarem suas pesquisas em andamento. Com uma demanda grande, a proposta do grupo é expandir o encontro para quatro dias, já que o estudo da História da Arte está em visível crescimento no Brasil.

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