Estudo da EACH analisa escritos sobre o anarquismo e evidencia leituras equivocadas

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Lara Deus/Agência USP de Notícias

Atualmente, muito do que se fala sobre o anarquismo é baseado em senso comum, leituras ideológicas ou mesmo em estudos com problemas metodológicos. Por isto, uma pesquisa da Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP buscou desvendar os equívocos dos estudos de referência anteriores e propôs uma nova abordagem. Para fugir da superficialidade com a qual é tratada a ideologia, o pesquisador Felipe Corrêa produziu uma introdução ao tema em sua dissertação de mestrado. Depois de analisar mais de 150 escritos, livros, artigos e manifestos anarquistas, o estudo conceituou o anarquismo, seus debates e correntes mais importantes, concluindo que a ideologia é coerente e pode ser descrita por um conjunto preciso de princípios.

“As relações entre o anarquismo e o idealismo, o anarquismo e o utopismo, tomado em seu sentido pejorativo, vêm sendo realizadas por seus adversários políticos”, explica Corrêa, que considera muitas leituras meramente doutrinárias. O anarquismo não pode ser associado ao individualismo, já que se trata de um tipo de socialismo e sua concepção de liberdade individual se insere no âmbito da coletividade.

Apesar de serem consideradas utópicas, “as teorias sociais do anarquismo buscaram, sempre, conectá-lo com a realidade”, conta o pesquisador. A ideologia é um tipo de socialismo revolucionário que, ao inserir em seus princípios a crítica à dominação capitalista, propõe a autogestão e estratégias para tanto.

De 1868 ao Black Bloc

Ao conceituar esse conjunto de pensamento e ação, olhando para sua história nos cinco continentes, Corrêa pôde perceber que o anarquismo existe de 1868 até o presente, com seguidores no mundo inteiro. Além disto, mobilizou as mais distintas classes oprimidas, mas principalmente os proletários urbanos industriais, contradizendo a afirmação de que é uma ideologia seguida exclusivamente por camponeses do “mundo atrasado”.

“O anarquismo tem evidenciado sua presença na sociedade contemporânea, e os protestos de 2013 evidenciam isso. Não se trata somente de Black Bloc mas, principalmente, de anarquistas que têm construído e participado de movimentos sociais nas cidades e nos campos, constituindo uma força determinante”, completa.

Além de ser pouco pesquisado, “muitas vezes os pesquisadores incorrem em problemas teórico-metodológicos significativos, que complicam as investigações”, explica Corrêa. Daí, vêm conclusões equivocadas que até hoje fazem parte desse amplo senso-comum sobre o assunto, que está presente inclusive nos meios acadêmicos. Segundo ele, um problema comum é a base de dados da pesquisa ser restrita, com análise de poucos autores e episódios. O foco dado à Europa Ocidental e ao Atlântico Norte também contribui também para que se faça generalizações sem fundamentos.

Muitos estudos baseados nesses equívocos concluem, erroneamente, por exemplo, que o anarquismo acabou em 1939, com a derrota da Revolução Espanhola, e que este foi um dos raros casos em que o anarquismo se tornou um movimento de massas.

Revisão do cânone

Considerar anarquistas todos aqueles que se definem assim é outro erro frequentemente cometido por pesquisadores. Segundo Corrêa, o termo teve, ao longo da história, conotações distintas que fizeram com que ele ora extrapolasse, ora fosse restrito demais à sua real definição. Enquanto Mikhail Bakunin, expoente do anarquismo, por muito tempo se denominou socialista revolucionário, periódicos cujas práticas não dialogam com os princípios anarquistas continuam a carregar a ideologia no nome.

Por esse e outros motivos, a pesquisa propõe uma revisão do cânone anarquista, concluindo que, se Leon Tolstói, Max Stirner e William Godwin, por exemplo, não eram anarquistas, muitos outros deveriam fazer parte desse cânone, como Errico Malatesta, Piotr Kropotkin e Nestor Makhno. Textos destes últimos pensadores fizeram parte do conjunto de mais de 150 escritos analisados, compondo a vasta bibliografia estudada.

Na dissertação de mestrado Rediscutindo o anarquismo: uma abordagem teórica, orientada pelo professor Marco Antonio Bettine de Almeida, da EACH, Corrêa elaborou propostas para que o tratamento do assunto não insista nesses problemas metodológicos, além de aplicá-las a uma análise de escritos anarquistas. Assim, ele conceitua a ideologia e apresenta elementos que “contrapõem diretamente as conclusões equivocadas dos estudos de referência”, segundo ele próprio. Para baixar a pesquisa, basta clicar no link.

Mais informações: email felipecorreapedro@gmail.com

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