Origem da rivalidade entre Corinthians e Palmeiras é tema de estudo na FFLCH

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Hérika Dias/Agência USP de Notícias

A rivalidade entre os times de futebol paulistas Corinthians e Palmeiras foi o foco de um estudo realizado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. O historiador Marco Aurélio Duque Lourenço pesquisou a origem da famosa disputa durante o a construção dos estádios corintiano e palmeirense, entre 1917 e 1933, período que corresponde à transição do amadorismo para o profissionalismo do futebol paulistano. O estudo utilizou como fonte jornais, atas dos clubes e acervos públicos.

Segundo o historiador, a formação da rivalidade está ligada ao encerramento, no fim da década de 1930, do clube Paulistano, representante da elite paulistana da época, que enfrentou uma grave crise financeira. “Até então, Corinthians, Palestra Itália (nome original do Palmeiras) e Paulistano formavam o trio de ferro do futebol de São Paulo, alternando entre eles as primeiras posições dos campeonatos”, conta Lourenço. “Os três clubes ascenderam como forças permanentes no campo até 1925, mas a primeira vez que o público conferiu um jogo do Corinthians contra o Palestra foi em 1917”.

Na época, o Paulistano era o time a ser batido por Palestra e Corinthians, pois era um time tradicional e havia um fator extracampo: a questão do amadorismo contra o profissionalismo. “O futebol era um esporte da elite e se constituía como uma prática amadora, sem remuneração aos jogadores. O Paulistano defendia o amadorismo, como uma forma de frear a ascensão de clubes que não eram da elite. Ele acusava os times alviverde e alvinegro de pagarem para os jogadores atuarem e, assim, ‘seduzir’ os atletas para seus times. Apesar de o Paulistano praticar o ‘amadorismo marrom’, pagando também aos jogadores, mas às escondidas”, contextualiza Lourenço.

Com o desligamento oficial do Paulistano dos campeonatos, em 1929, Palestra e Corinthians tornaram-se os principais times na Liga Paulista de Futebol (LPF). De acordo com o historiador, “naturalmente, os jogos entre os dois clubes começaram a atrair grande público e atenção da imprensa, dando início à famosa rivalidade”, afirma o historiador.

Estádios

No início da formalização do futebol paulistano, a ideia de que cada clube tivesse um campo era inconcebível, já que haviam poucos espaços disponíveis na cidade. Para Lourenço, a conquista dos primeiros estádios pelo Corinthians e Palestra Itália estava menos ligada à rivalidade e a fatores como “ter a sua casa” e mais à questão de sobrevivência dos clubes com a profissionalização do futebol. “Apesar de serem caracterizados como times populares, Corinthians e Palestra contaram com apoio de segmentos distintos do poder público e da burguesia para se consolidarem no futebol”.

O primeiro estádio de propriedade do Corinthians foi o da Ponte Grande, localizado próximo à Ponte das Bandeiras, às margens do rio Tietê. “A possibilidade de locar parte dessa área foi concretizada pelo vereador, deputado estadual e escritor José de Alcântara de Oliveira Machado, e esse apoio abriu precedentes para uma estreita relação entre clubes de futebol e o poder público”, diz o historiador.

Após reforma, o novo campo foi inaugurado em 1918. Entretanto, o espaço já não comportava o grande público dos jogos e o estádio pertencente ao Sport Club Sírio, localizado na rua São Jorge, passou a ser de propriedade do Corinthians, em 1926. A aquisição do Parque São Jorge teve o apoio de Alfredo Schüring, pioneiro da metalurgia no País, e Wladimir Toledo Piza, médico e prefeito de São Paulo (1956 e 1957).

Já o primeiro estádio do Palestra Itália foi conquistado com o investimento de uma das mais famosas famílias de industriais da época: os Matarazzo. A partir de 1920, o campo do Parque Antarctica, principal estádio de futebol de São Paulo na época, passou a ser do time alviverde. Depois de longo período de reforma, o Parque Antarctica foi aberto oficialmente em 1933.

“O caráter simbólico que os estádios desempenham no cenário esportivo constitui o solo comum da topografia clubística da cidade. Iniciam as mitificações tanto da agremiação dos italianos, situados num bairro em grande ritmo de modernização e ascensão social de seu público habitante que é dragado para o clube, quanto do time do povo, instalado num bairro pobre, numa região cujo valor imobiliário decresce com a retificação e própria poluição do rio, e o estreitamento dos espaços públicos com as obras paisagísticas, e que resulta num movimento natural da população mais carente da cidade em ocupá-lo e encontrar uma identificação com o clube do Parque São Jorge”, finaliza Lourenço.

Mais informações: email marcoadlourenco@gmail.com

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