‘Paisagens Ameríndias’ usa etnografia na discussão sobre natureza e sociedade

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Foto: Marta Amoroso / Divulgação
Foto: Marta Amoroso / Divulgação
Experiências de imersão e convivência com os povos indígenas foram base para ensaios

Resultado de quatro anos de trabalho, o livro Paisagens Ameríndias (Terceiro Nome, 2014) apresenta uma coleção de artigos sobre pesquisas resultantes da parceria entre a USP e a Universidade Federal do Amazonas (UFAM). Com organização dos antropólogos Marta Amoroso (USP) e Gilton Mendes dos Santos (UFAM), os ensaios buscam abordar a etnologia, história indígena e antropologia urbana na região central e meridional da Amazônia.

Em um livro de explorações, seus diversos autores buscam analisar – a partir de suas vivências – a riqueza e complexidade da vida dos habitantes e sua relação com o meio. Uma completa imersão é o mote principal das pesquisas que adentram pelos territórios estudados, além das comunidades e suas línguas. É possível encontrar, entre outras experiências, a descrição e tradução de rituais de cura e sistemas de troca entre as populações.

Com o incentivo da Capes, alunos de iniciação científica e da pós-graduação puderam realizar uma aproximação de caráter etnográfico com as populações indígenas. Foram realizadas pesquisas de campo em que os alunos partiam pelos rios da região e efetuavam trabalhos junto aos indígenas. A professora conta que são pesquisas de muita convivência, inserção e imersão na língua que tem que ser prolongada para poder trazer os resultados. “Com o trabalho de aproximação, que se dá via convivência, é possível acompanhar como se dão as práticas e as conceituações que o pesquisador colhe em campo”.

Ponto alto das expedições, Marta Amoroso conta que a aproximação que resultou na pesquisa sobre o modo de vida dos Sateré-Mawé, em Manaus foi “construída militantemente, conseguindo mapear e seguir com eles nos circuitos”. Foi possível então, nestes “circuitos”, perceber como os indígenas se inserem tanto em uma paisagem urbana, quanto em suas áreas e reservas – essa pesquisa, por exemplo, é resultado do trabalho feito pelo grupo do professor José Guilherme Magnani, membro do Núcleo de Antropologia Urbana (NAU) da USP. “Aqui nesse momento, estamos enfatizando um método de trabalho que exige uma abordagem na construção desse dado, em um trabalho de aproximação”, comenta a pesquisadora.

A etnografia hoje

Foto: Marc Ferrez / Wikimedia  Índia Tobá
Foto: Marc Ferrez / Wikimedia
Índia Tobá

Ainda mal interpretada, a pesquisa etnográfica pode parecer ter perdido seu espaço, já que, com as distâncias reduzidas, povos que antes pareciam isolados tornam-se mais próximos. Mas para Marta Amoroso os antropólogos devem realizar cada vez mais pesquisas do gênero. Essa ferramenta metodológica da antropologia, conta a pesquisadora, passou a ser pensada até para se entender as tribos urbanas. “Quanto mais temos a necessidade de nos aproximar das populações ribeirinhas, por exemplo, mais devemos nos apropriar dessas técnicas”.

A pesquisa etnográfica, da maneira que é entendida pela antropologia moderna, conta com uma inserção prolongada no campo – de preferência com o domínio da língua do grupo – e tem como perspectiva traduzir um universo de vida diferente da do pesquisador. “Deve-se traduzir a diferença, traduzir os modos de vida que são distintos”, explica a docente. “A partir dessa ideia de diferença, de que estamos diante de um modo de vida distinto, é que o antropólogo consegue proceder em uma análise em que são captadas as narrativas e que trazem elementos de diversidade”.

Foto: Valter Campanato / Agência Brasil
Kaiapós

Para a produção dos trabalhos presentes em Paisagens Ameríndias, as pesquisas presenciais foram, em sua maioria, feitas na língua do grupo trabalhado e com pesquisadores dos diversos níveis. Envolvidos no processo de aproximação, eles tinham que participar da vida da comunidade, que é entendida como a totalidade daquela vivência que pôde ser captada pela pesquisa.

A aproximação do pesquisador com seu foco de pesquisa pode ser constituída de diversas formas, mas a professora relata a maneira curiosa como o esporte facilitou o contato nessa questão dos índios na cidade – o futebol foi uma porta de entrada para os pesquisadores se aproximarem dos coletivos indígenas. Marta acrescenta que este fenômeno foi observado “redundantemente em outras pesquisas do NAU” e que “o tema futebol é uma instituição que reúne todos os índios da cidade”.

É com a inserção no meio que se nota como é produzido o cotidiano indígena, como é pensada a vida e quais são os procedimentos de relação dos estudados com o ambiente. “A pesquisa etnográfica, no caso da coletânea Antropologia Hoje – da qual Paisagens Ameríndias faz parte – foi realizada nos moldes clássicos”, explica Marta. “Os alunos tiveram uma imersão de campo importantíssima e as iniciações científicas se transformaram em pesquisas de mestrado e em alguns casos até de doutorado”, relata. Isso durante os quatro anos de duração do programa de cooperação acadêmica que viabilizou as pesquisas.

Das paisagens e meio ambiente

Foto: Salles Neto / Wikimedia Rio Negro
Foto: Salles Neto / Wikimedia
Rio Negro, no Amazonas. As populações indígenas não separam, como nós fazemos, as dimensões da natureza e da cultura

Acompanhando o debate internacional, o tema que uniu os trabalhos dos pesquisadores foi a relação entre sociedade e meio ambiente. Em destaque na antropologia, o tema se apresenta em discussões recentes em que a Amazônia é figura central. “Esse tema diz respeito, nos últimos anos, ao desafio de que estamos diante, que é superar a separação entre natureza e cultura”, explica Marta. “Mesmo porque as populações que pesquisamos não separam, como nós separamos, essas dimensões”.

Esta dicotomia era o que motivava as pesquisas e discussões, mas em cada uma delas, é possível reconhecer uma diferente abordagem no tema que em alguns casos buscou, além da etnografia, uma bibliografia especializada para se compreender a proposta. Após o período de inserção, em alguns casos, os pesquisadores em seu retorno vasculharam arquivos presentes na cidade de Manaus, onde produziram um levantamento documental acerca da história indígena na região, contando inclusive com documentações primárias encontradas, por exemplo, em arquivos do extrativismo da Amazônia – importantes registros ainda em fase de organização que documentam o período do boom da borracha do final do século 19.

Foto: Yves Picq / Wikimedia
Enawenê-nawê

“Trabalhar com os povos indígenas, hoje, é trabalhar para os povos indígenas”, afirma Amoroso, que conta um pouco sobre as questões de demarcação de terras que ainda causam desconforto em setores do governo. Por ter uma história diferente de outras áreas da região norte, a Amazônia não sofreu tanto com as demarcações e com as fronteiras agrícolas.

Trabalhar com os povos indígenas, hoje, é trabalhar para os povos indígenas.

“Apesar dessa questão da demarcação ser muito importante, encontramos muitas outras demandas dos indígenas”, explica a professora, ao apontar questões como saúde, fiscalização da terra indígena e projetos para estas terras como outros temas relevantes. São levantadas as formas de condução dos trabalhos com a juventude indígena, como ela se coloca em relação à cultura, como se desenvolvem as escolas.

“Não existe outra maneira de fazer pesquisa senão como uma pesquisa engajada nas questões que interessam aos índios”, explica a professora. “Todas as pesquisas descritas no livro tiveram a aprovação dos grupos, porque lhes interessava pensar o tema da paisagem e das questões indígenas”.

Coleção Antropologia Hoje

Foto: Reprodução

A coleção Antropologia Hoje é uma iniciativa do NAU com o propósito de divulgar ensaios, resultados de pesquisas, etnografias e propostas da antropologia voltadas para a dinâmica cultural e processos sociais contemporâneos. “O objetivo é oferecer ao público acadêmico trabalhos inovadores no que se refere aos temas, métodos de pesquisa ou enfoques interpretativos”, conta Luis Felipe Hirano, coordenador do Conselho Editorial da Coleção. ” Isso sem perder de vista um círculo diversificado de leitores.

Marta Amoroso complementa que a coleção quer divulgar a antropologia com panoramas mais recentes, de pesquisas que ainda estão sendo realizadas. “Consideramos que a antropologia tem análises muito interessantes e é uma perspectiva que sempre que traz novidades. A antropologia pluraliza as vozes, o que faz tudo ficar sempre mais interessante”.

A antropologia pluraliza as vozes, o que faz tudo ficar sempre mais interessante.

Os títulos da coleção constituem uma mostra da atual produção na área da antropologia, com resultados tanto da reflexão de pesquisadores experientes, como de autores recém-titulados na pós-graduação. Hirano destaca outros títulos da coleção como os livros Junto e Misturado: uma etnografia do PCC, Visão de Jogo: antropologia e Religiões e cidades: Rio de Janeiro e São Paulo. Estes como maioria dos títulos, têm dialogado temas de antropologia urbana, religião, violência e criminalidade.

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