Estudo investiga ambiguidades e contrastes que marcaram imagem de Erico Verissimo

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Ana Paula Souza / Agência USP de Notícias

Ideias conflitantes sobre Erico Verissimo fizeram com que o professor Carlos Minchillo traçasse o percurso intelectual do escritor gaúcho, a fim de compreender como se deu a formação dessas diferentes imagens do autor. O estudo, que resultou na tese de doutorado Erico Verissimo, escritor do mundo: cosmopolitismo e relações interamericanas, mostra que houve uma íntima associação entre a carreira de Verissimo e o contexto maior do pan-americanismo de boa vizinhança e da Guerra Fria. O estudo foi elaborado na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, sob orientação do professor Hélio de Seixas Guimarães.

Por escrever com sensibilidade sobre os problemas sociais, Verissimo era considerado como comunista pela direita e pelos setores católicos, enquanto a esquerda o atacava como agente do imperialismo. Para entender melhor a formação desses conceitos extremos, Carlos Minchillo, ao longo de três anos e meio de pesquisa, realizou a leitura de toda a obra de Erico Verissimo e seus manuscritos, além de analisar o manual de literatura brasileira do autor, seus livros de viagem, relatos memorialistas, correspondências, documentos e artigos produzidos pela crítica. Nesse processo, percebeu que, tanto as trajetórias de escritor quanto de homem público de Verissimo, foram influenciadas de maneira decisiva pelas estadias do gaúcho nos Estados Unidos e pela sua função de diretor para assuntos culturais junto à União Pan-Americana.

Minchillo, que também investigou documentos referentes à diplomacia cultural exercida por Washington, destaca produções em que é possível perceber com clareza essa influência da vida nos Estados Unidos no trabalho de Erico Verissimo, como as obras O senhor embaixador (1965) e O prisioneiro (1967). Em comum entre as obras, está o fato de que total ou parcialmente, a trama de cada uma delas se desenvolve fora do Brasil.

Mudanças no caminho

Primeiramente, Minchillo queria entender as contradições sobre Erico Verissimo, mas, no decorrer da pesquisa, muitas outras questões foram surgindo. Intrigou-lhe, por exemplo, o fato de Erico ter sido publicado nos Estados Unidos na década de 1940, quando raríssimos escritores brasileiros contemporâneos eram traduzidos para o inglês. No entanto, os livros do escritor gaúcho caíram no esquecimento nos EUA depois dos anos 1960. “Isso me pareceu merecer investigação e conduziu o trabalho ao estudo da política da boa vizinhança dos EUA, que, entre outras ações de diplomacia cultural, agenciou a publicação de escritores latino-americanos em inglês”.

Com esse novo olhar, o pesquisador direcionou seu trabalho para que o público pudesse avaliar com clareza a importância de Erico internacionalmente. “Verissimo exerceu um papel central — com bastante equilíbrio e justiça — no cenário da literatura e das artes durante e após a Segunda Guerra Mundial. Suas conexões com instituições e pessoas nos Estados Unidos o transformaram em um certo agente da cultura brasileira naquele país e, a partir de lá, para toda a América”.

“Tangencialmente, é importante pensar na hipótese de que os incentivos oficiais talvez não sejam capazes de manter sozinhos, a longo prazo, o interesse por um autor no cenário internacional globalizado. O caso de Erico parece jogar luz a essa questão: apesar de ter sido intensamente traduzido nos anos 1940-1960, hoje é praticamente esquecido pelo público leitor internacional”.

Mais informações: email minchillo@dartmouth.edu

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