Laboratório da ECA resgata história do teatro paulistano

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Foto: Marcos Santos / USP Imagens
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Além da documentação em papel, o espaço também abriga figurinos, gravações em VHS e fitas cassete de espetáculos.

“O espetáculo é um patrimônio imaterial, assim que ele termina, não é o mesmo”, afirma a professora e pesquisadora de história do teatro Elizabeth Azevedo. No entanto, é buscando captar a essência dessa arte que a docente do Departamento de Artes Cênicas (CAC) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP coordena o Laboratório de Informações e Memória (LIM CAC), que desenvolve trabalhos de preservação e pesquisa em documentos da história do departamento e do próprio teatro paulistano.

Com uma proposta grandiosa, na visão da professora, o laboratório tem potencial para se tornar um centro de documentação sem precedentes na cidade de São Paulo, um local especificamente voltado para as artes cênicas, que incluem também, além do teatro, a ópera e a dança. “Até porque em montagens contemporâneas, com as performances, as fronteiras estão diminuindo”, afirma. Segundo a coordenadora do LIM CAC, é imprescindível que um centro com estas proporções – que ainda se desenvolve em pequenas salas da Universidade – possa abrigar todos os tipos de documentação, e também relacioná-los de maneira eficaz.

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
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Elizabeth Azevedo, coordenadora do Laboratório de Informações e Memória

Elizabeth ressalta a vocação da universidade, em especial a USP, para manter coleções e museus. A professora menciona o Instituto de Estudos Brasileiros (IEB) como exemplo de instituição que organiza e reúne uma documentação rica e variada. Para a pesquisadora, a USP pode ter um importante papel na preservação documental, já comprovada pelas coleções que estão sob os cuidados da Universidade, como todo o acervo do Museu Paulista (Museu do Ipiranga), além das sedes do Museu de Arte Contemporânea (MAC) e coleções dos museus científicos. E não seria diferente com as artes cênicas. Não existe ainda um museu de teatro na cidade, e órgãos que poderiam se apropriar destes assuntos, em São Paulo, não se dedicam a projetos como o do LIM CAC.

“No Rio de Janeiro, o acervo da Funarte  [Fundação Nacional de Artes] é muito importante e cobre o teatro carioca”, pondera a professora. “Muito embora seja uma fundação nacional, você não vai encontrar documentos sobre o teatro de São Paulo, por exemplo”. É para isso que a professora defende a criação de centros de documentação específicos, como o Laboratório, em que se preservem os documentos da história teatral. “Documentos entendidos em uma gama bastante ampla – figurinos, programas e maquetes – já que o teatro é uma arte que faz fronteiras com muitas outras artes”.

Sala professor Clóvis Garcia

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
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Parte importante do acervo do LIM CAC, a Biblioteca Clóvis Garcia ocupa hoje a sala do professor emérito da ECA que deu início ao projeto de memória. Crítico de teatro, cenógrafo, e professor, o intelectual desenvolveu múltiplas atividades no teatro e acumulou diversos tipos de documentação sobre a história do CAC e sobre teatro, em geral. “Além da biblioteca, em seu fundo, as documentações extrapolavam sua sala”, relata Elizabeth. A partir desses documentos é que se formou o que seria a base de um centro de documentação e memória. À época, o LIM CAC recebia recursos da Fapesp para o desenvolvimento das atividades da professora Maria Cristina Costa, também da ECA, acerca de toda a documentação. Com o final do projeto da professora, os trabalhos pararam, e foi apenas com a entrada de Elizabeth Azevedo que toda essa documentação histórica do teatro no Brasil voltou a ter importância, mas exigindo agora reorganização e cuidado.

“Como eu sou formada em história e sempre trabalhei com pesquisa em arquivos, me pediram que coordenasse esse centro e desse um destino àquela documentação”, explica Elizabeth. A partir deste convite, a pesquisadora passou então a dedicar parte de suas atividades à reativação do LIM CAC – agora com um processo um pouco mais ambicioso, reconhece. “Achei que deveria ser um centro de documentação não só do departamento, mas um centro de documentação sobre o teatro paulistano”. Até então, não havia uma instituição responsável por preservar a memória do teatro.

O Centro Cultural São Paulo (CCSP) tem um arquivo voltado ao teatro, mas que cobre apenas um espaço de 20 anos de produções (de 1975 até 1995). “Houve uma equipe de documentação e de pesquisa. Havia toda uma política de registro dos espetáculos, mas depois que a equipe se desfez, o que veio antes de 75 e depois dos 20 anos ficou esquecido”, conta a professora. O CCSP guarda, também, documentos sobre o Teatro Brasileiro de Comédia e o Arena, que por não terem um local adequado para guarda, como lembra Elizabeth, foram parar lá em caráter excepcional. O mesmo acontece com os fundos do dramaturgo, Jorge Andrade. No Laboratório da ECA, por outro lado, existem documentos da década de 40, como fotos e programas de espetáculos de grandes grupos de teatro do país.

Um arquivo plural como o teatro

O teatro não pode ser arquivado – pelo menos não da maneira convencional. O espetáculo é efêmero e, para que pesquisadores e público compreendam seu formato original, é necessária uma documentação variada. Por isso, o Laboratório de Informações e Memória não se resume a uma biblioteca ou um arquivo comum. Além dos documentos e livros presentes tanto no arquivo do Laboratório no prédio 9 da ECA, como na Biblioteca Clóvis Garcia, o centro de documentação conta também com um acervo de figurinos e trajes, o que demanda uma forma de acondicionamento diferente das usuais para arquivos.

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
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Este braço do acervo conta com o trabalho do professor Fausto Viana, especialista no assunto e vice coordenador do LIM CAC. Elizabeth explica que as questões de projetos ligados a figurinos, adereços e cenografia são, geralmente, feitos em parceria com o Núcleo Traje de Cena da USP, criado por Viana. As informações catalogadas pelo Laboratório são enviadas para uma mesma base de dados que  busca integrar todas as informações e dimensões da documentação teatral.

(Leia mais em Núcleo de Pesquisa procura manter viva a memória dos trajes cênicos)

Além dos figurinos, a documentação em papel divide espaço com gravações em VHS e fitas cassete de espetáculos, que deverão ser digitalizados em um projeto futuro.

Uma parte importante da coleção são os programas de teatro, que segundo a professora, são fontes ricas de informação e talvez sejam os documentos em papel mais tipicamente ligados ao teatro. “Os programas que a gente tem aqui, desde a década de 40 cobrem os grupos mais importantes da história do teatro paulista”. Entre eles, o Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), que lançou nomes como Cacilda Becker, Paulo Autran, Sergio Cardoso e Cleyde Yáconis; e o Arena, de onde surgiram Gianfrancesco Guarnieri e Oduvaldo Vianna Filho. “Esse tipo de documento fala dos espetáculos, dos atores, enfim, traz muita informação para a pesquisa”. Em sua vasta coleção de programas, o LIM CAC guarda impressos que pertenceram ao professor Clóvis Garcia, ao diretor Antunes Filho e está para receber a coleção de programas da professora, diretora e crítica teatral, Barbara Heliodora.

Um espaço para a arte

Por motivos de segurança do acervo, por ora não é possível aceitar grandes quantidades de doação. Segundo a coordenadora do Laboratório, um acervo tão diferenciado como este precisa ter uma estrutura especial para o acondicionamento, como salas climatizadas e com temperatura e umidade controlada. “Acabamos de receber da ECA mais uma sala para o arquivo. Ao longo desses anos, temos feito um grande esforço para conseguir mais espaço”, comenta a professora, que reforça a importância que o apoio da Unidade teve para o desenvolvimento das atividades.

O novo espaço será direcionado exclusivamente aos arquivos, que hoje dividem espaço com a área de trabalho dos pesquisadores. Elizabeth Azevedo acredita que o potencial que o Laboratório tem de ser um centro de documentação especializada em teatro deve impulsionar o aumento nas doações, mas que as campanhas de recolhimento só serão possíveis se houver uma forma mais adequada de manutenção desses documentos.

O LIM CAC fica na Av. Prof. Lúcio Martins Rodrigues, Bloco 8, Sala 13, na Cidade Universitária, São Paulo. Contatos: (11) 3091-8203 e email limcac@usp.br. Horário de atendimento: de segunda a sexta-feira, das 8 às 17 horas.

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