Estudo da FFLCH investiga estrutura dramática da peça “Gota D’água”

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Ana Paula Souza / Agência USP de Notícias

A peça Gota d’água, escrita e encenada em 1975, tendo como base o contexto político do Brasil da época, foi o objeto de estudo da dissertação de mestrado da professora Cecilia Furquim, elaborada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Intitulado Gota d’água: entre o mito e o anonimato, o estudo destrincha os versos da obra de Chico Buarque e Paulo Pontes para entender como se dá a formação da estrutura dramática do espetáculo e como essa construção dialoga com o espectador. Um dos pontos principais está no fato de que, segundo a pesquisadora, “a peça encontra equilíbrio no desequilíbrio, tanto na forma como no conteúdo”.

“Um dos diferenciais de Gota D’água está na escolha do verso popular urbano cantado e falado como veículo principal da experiência teatral, o que significa também dar o devido crédito e importância à participação de Chico Buarque na composição final”. Segundo a pesquisadora, além das canções, a participação do compositor no corpo do texto não estava devidamente clara para o público e sua contribuição também acabou sendo diminuída pela crítica teatral, que valoriza o enredo em detrimento da forma.

Além disso, a peça traz misturas aparentemente incongruentes, como o popular e o erudito, o baixo e o elevado, o trágico e o cômico, a catarse e a razão, o que Cecilia sugere como reveladoras da instabilidade do universo retratado pelo espetáculo. “Dependendo do trecho que você escolhe da peça, elementos muito diferentes se apresentam”, conta a professora. Há também a constatação de que algumas das canções que fazem parte da peça, como a homônima Gota d’agua, Basta Um Dia e Bem Querer, são momentos de intensificação da experiência da protagonista, e não de distanciamento, como já se afirmou na academia.

Todas essas descobertas foram feitas ao longo de três anos, período no qual o estudo se desenvolveu e a pesquisadora se debruçou sobre o texto da peça, a história do teatro brasileiro, o período da ditadura militar, a carreira de Chico Buarque e de Paulo Pontes.

Orientada pelo professor Ivan Francisco Marques, Cecilia, ao desenvolver sua dissertação de mestrado, contribuiu para um movimento que vem crescendo na academia: a valorização do Teatro Nacional Popular Brasileiro e da presença de temas políticos na arte das décadas de 1960 e 1970. No caso da peça Gota D’água, a obra teatral se destaca por ser a adaptação teatral da peça Medeia, de Eurípedes, para a situação social e política brasileira. Assim, na análise da sua estrutura, há o desafio de buscar o contraponto entre os versos de Eurípides e os versos de Buarque e Pontes.

Entre os questionamentos que precederam a elaboração do trabalho, estava a atualidade do texto, se ele ainda seria interessante em plenos anos 2000. No entanto, segundo Cecilia, a mistura de contradições, como efeitos racionalizantes e efeitos intensificadores da emoção em um mesmo texto, é a responsável por fazer com que, quase 40 anos depois, Gota D’água ainda seja um um texto de grande importância para o teatro nacional.

Mais informações: email ceciliafurquim@gmail.com

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