Diário de bordo: Instituto Oceanográfico recupera memória em projetos

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Foto: Francisco Luiz Vicentini Neto / Acervo IOUSP
Foto: Francisco Luiz Vicentini Neto / Acervo IOUSP

Fundado em 1946, na época com o nome de Instituto Paulista de Oceanografia, o Instituto Oceanográfico (IO) foi incorporado à USP em 1951 e, ao longo desses 68 anos de trajetória, acumulou muitas histórias – envolvendo não apenas os cientistas, mas também antigos funcionários e mesmo as próprias embarcações. Buscando resgatar e preservar a memória do IO, a equipe do Museu Oceanográfico vem desenvolvendo diversos projetos, que além de divulgar a ciência dos oceanos e as pesquisas desenvolvidas no Instituto, valorizam as pessoas envolvidas em sua história.

A preservação de acervos documentais, memórias e monumentos já era uma atividade realizada pelo Museu e estimulada pela Pró-Reitoria de Cultura e Extensão (PRCEU) da USP. Um dos projetos nesse sentido é o de “Contribuição à construção da memória audiovisual (científica e tecnológica) do IO”, por meio do qual já foram documentadas diversas entrevistas com antigos pesquisadores do Instituto.

No entanto, associada a essa proposta de conservação, a professora Elisabete de Santis Braga da Graça Saraiva, presidente da Comissão de Cultura e Extensão do IO, e também presidente da Comissão de Memória Institucional do Museu, percebeu que deveria ser preservada também a memória dos funcionários. Vários deles trabalharam durante muito tempo nas pesquisas do IO, seja nas bases de pesquisa localizadas no litoral de São Paulo ou nas expedições realizadas no aposentado navio Wladimir Besnard. Essa percepção foi o que impulsionou a proposta de um novo projeto.

Um mar de histórias para contar

No litoral sul de São Paulo, na cidade de Cananéia, está localizada a base de apoio, ensino e pesquisa “João de Paiva Carvalho” do IO, e é nela que vem sendo realizado há cerca de um ano e meio o projeto Um mar de histórias para contar.

Foto: Mauro Sznelwar / Acervo IOUSP
Foto: Mauro Sznelwar / Acervo IOUSP
Vista panorâmica da Base de Pesquisa do IO em Cananeia, SP

A fundação da base de Cananéia aconteceu em 1949, mas, como explica o chefe da equipe do Museu, Sérgio Teixeira de Castro, desta época não foi contatado nenhum funcionário. “As pessoas que estamos entrevistando trabalharam lá na década de 60 até os anos 90. Um dos entrevistados trabalhou na base até 1998, e dois ainda estão ativos – são aposentados, mas ainda trabalham na base”, conta. “Então estamos fazendo um trabalho de resgate da memória das pessoas sobre todo esse período”.

Um aspecto comum a todos os entrevistados é o fato de serem caiçaras. Segundo Sérgio, essa é uma característica importante do projeto, porque, na história da Oceanografia, a comunidade científica utilizou muito do empirismo e do conhecimento dos caiçaras. “Naquela época, para que fosse possível realizar os estudos era preciso coletar organismos, usar a pesca, e quem é que tinha a experiência com isso? O caiçara – que, na minha opinião, é uma das comunidades mais integradas com o meio ambiente que existe até hoje”, diz Sérgio. Na base de Cananéia já foram entrevistadas seis pessoas, e serão realizadas mais quatro entrevistas com trabalhadores dessa época.

Foto: Acervo IOUSPJoão Claudino Xavier
Foto: Acervo IOUSP
João Claudino Xavier

Além disso, está prevista a reforma de uma antiga estrutura, hoje abandonada, que já foi muito utilizada para as pesquisas do IO: o cascador de rede. Composto por uma banheira de alvenaria e um fogareiro, o cascador de rede era usado para conservar as redes de pesca que eram feitas de algodão.

“[No fogareiro] eram colocados tachos nos quais eram fervidas as cascas de algumas árvores da região, como a Aroeira, Jacatirão e o Mangue Vermelho. Em seguida, a água utilizada para ferver as cascas era jogada na banheira e nela eram mergulhadas as redes. Isso fazia com que as redes, que na época eram feitas de fios de algodão, ficassem mais resistentes e com uma coloração avermelhada e mais escura – o que inclusive ajudava o pescador, pois enganava o peixe, facilitando a captura”, explica Sérgio. Essa estrutura toda ficou abandonada, porque, as novas redes, feitas de nylon, derretem quando esquentadas.

O interesse em recuperar o cascador de rede vem do seu papel na integração da comunidade caiçara à comunidade científica. “Essa estrutura também conta parte da história da Oceanografia no país”, afirma o chefe da equipe do Museu. “O resgate da memória está ligado a atitudes como essa: a busca pela conexão que os acervos têm com a comunidade, da história do instrumental científico e da história das pessoas que fazem a história da Ciência: os pesquisadores, os alunos, os funcionários, e vários outros”, acredita chefe da equipe do Museu.

Além da base de Cananeia, o IO possui outra base de pesquisas, localizada ao norte do litoral paulista, em Ubatuba. O projeto Um mar de histórias para contar diz respeito, por ora, apenas às memórias da base de Cananéia, mas já existem planos para que o trabalho seja estendido à outra base.

Um navio que fala

Foto: Acervo IOUSP
Foto: Acervo IOUSP

Além das bases de pesquisa, está previsto um projeto semelhante de resgate de memórias, mas envolvendo o aposentado navio Professor Wladimir Besnard, que recebeu esse nome em homenagem ao fundador do IO.

O navio, que veio da Noruega e foi adquirido em 1967, participou de todos os projetos de pesquisa na costa brasileira, do Nordeste até o Sul do país, até 2011 – tendo, inclusive, sido utilizado para expedições na Antártica. Durante todo esse período, o Wladimir Besnard foi o único navio oceanográfico civil existente no Brasil.

O projeto Memória da Oceanografia no Brasil – O Papel do Navio Oceanografico Prof. Vladimir Besnard do IO da USP, assim, pretende recuperar os relatos e memórias que existem em torno dessa embarcação que navegou por tantos anos na história da Oceanografia no Brasil.

Mais informações: (11) 3091-6587, email eloisamaia@usp.br

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