Estudo com portadoras de HIV mostra transformação após a maternidade

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Marcela Baggini / Serviço de Comunicação Social da Prefeitura USP do Campus de Ribeirão Preto

Estudo da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto (EERP) da USP analisou narrativas e sentimentos de mães com Síndrome da Imunodeficiência Adquirida (HIV) que infectaram seus filhos durante a gestação. Os resultados apontam que a doença é um fator transformador na maternidade e na vida dessas mulheres, pois essas mães abdicam de suas vidas para que os filhos tenham possibilidade de sobreviver.

“Quando a maternidade acontece na presença da infecção do HIV, este percurso pode ser permeado por dificuldades e ameaças”, diz a autora da pesquisa, a psicóloga Ana Cristina Magazoni Bragheto-Pires. Em seu doutorado, Narrativas de mulheres mães infectadas pelo HIV, defendido em outubro de 2013, ela muda o foco de seus estudos para as mães, antes voltados só para as crianças.

Foram entrevistadas dez mulheres infectadas pelo HIV/Aids e com filho em tratamento na Unidade Especial de Terapia de Doenças Infecciosas (UETDI) do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto (HCFMRP) da USP, de abril a novembro de 2011.

Cuidados de uma gestante infectada

Ana Cristina lembra que o quanto antes a síndrome for detectada, mais chances a criança tem de nascer sem o vírus. O primeiro passo, diz a pesquisadora, é uma série de medicamentos para prevenir a infecção no feto. “Mas em algumas regiões, infelizmente a gravidez é percebida tardiamente, por volta dos seis meses. Com essa idade gestacional, os remédios já não fazem efeito, pois a criança já está formada.”

A pesquisadora afirma que essas mulheres não podem ter parto normal, devido a grande troca de sangue com o bebê durante o procedimento. “Além do parto ser cesárea, a mãe não pode amamentar. Mesmo alguns estudos indicando que, caso o nível da infecção esteja baixo, a prática é possível, há controvérsias.”

Entre os relatos das mães que participaram do estudo, há o de uma que diz ter usado crack até momentos antes do parto, atribuindo a esse fato a infecção adquirida pelo seu filho. Nesse caso, diz a pesquisadora, devido ao uso de drogas, o parto teve que ser normal, uma vez que se aplicada a anestesia, haveria contato entre as substâncias do medicamento e da droga, o que levaria a mãe a morte. “O nascimento do bebê com HIV trouxe não apenas uma nova mãe, mas também os recursos emocionais para ela lidar com a vida e os filhos.”

Depois do nascimento, a criança de mãe portadora do HIV é acompanhada por médicos, periodicamente, faz uso de antirretrovirais (remédios utilizados principalmente no tratamento de HIV) e, até os 18 meses de vida, são coletados amostras de sangue para saber se a criança vai ou não desenvolver o vírus da Aids.

Pouco acolhimento e muito julgamento

O estudo aponta, ainda, que as mães, além de precisarem de acompanhamento psicológico, encontram equipes multiprofissionais com pouco acolhimento e muito julgamento. “Eles sempre dizem que se a mulher sabia da sua condição, não deveria ter engravidado”, conta Ana Cristina, que já ouviu diversas vezes profissionais da saúde emitindo essa opinião. “Culpar a pessoa, não vai ajudar. Precisamos de uma equipe mais coesa e que consiga orientar melhor essas mães”, completa.

Ana Cristina lembra que as mães e filhos atendidos na Unidade Especial de Terapia de Doenças Infecciosas (UETDI) do HCFMRP contam com ajuda do Grupo de Revelação e Diagnóstico composto por enfermeiros, médicos e psicólogos, que orientam qual é o momento certo de contar para a criança sobre sua condição sorológica. Segundo a pesquisadora, cada criança tem o seu “momento certo” de saber sobre o HIV. “A criança em algum momento de sua infância percebe que tem alguma coisa errada com ela, ir no hospital com certa frequência não faz parte do mundo infantil.”

Segundo o Boletim Epidemiológico HIV/Aids de 2013, em 1980 foram registrados 6.309 casos de crianças infectadas pelo HIV por transmissão vertical (transmissão de mãe para filho). Já em 2012, foram apenas 135. “Nos últimos anos, houve uma queda brusca nesses casos graças aos avanços da medicina, como o adiantamento do uso de retrovirais na gestação e o teste rápido de diagnóstico para o HIV, feito antes do parto”, diz Ana Cristina.

A pesquisadora afirma que incorporar o teste de HIV antes do parto é uma das soluções. “Hoje, no HC, temos um centro de referência, mas na regiões norte e nordeste, por exemplo, não há muitos recursos”, afirma a pesquisadora.

Mais informações: email crisbragheto@yahoo.com.br, com Ana Cristina Magazoni Bragheto-Pires

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