Estudo questiona noção de que periferias são agrupamentos homogêneos

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Ana Paula Souza / Agência USP de Notícias

A periferia é marcada por inúmeras diferenças internas, de modo que, ao contrário do que se costuma imaginar, as comunidades não podem ser consideradas como agrupamentos sociais homogêneos. Esse é um dos principais resultados da dissertação de mestrado Por dentro da quebrada: a heterogeneidade social de Ermelino Matarazzo e da periferia, de autoria da educadora Adriana Dantas. Elaborada na Escola de Artes, Ciências e Humanidades (EACH) da USP, a pesquisa recebeu a orientação de Graziela Serroni Perosa e teve como objetivo primordial a compreensão da configuração social do distrito de Ermelino Matarazzo, na zona leste da capital paulista.

“Geralmente, a periferia é vista de forma homogênea, como um grande bloco na cidade, com pouca infraestrutura e na qual vivem as pessoas mais pobres”, conta Adriana. No entanto, segundo a pesquisadora, o cenário é mais complexo. No caso de Ermelino Matarazzo, destaca-se a diferenciação interna e a segregação espacial, ilustradas pelo fato de que escolas públicas e particulares estão localizadas em regiões diferentes da comunidade, sendo que a presença de colégios públicos recuou em detrimento da expansão do número de instituições privadas. Essa constatação, que poderia ser irrelevante para alguém que não conhece o distrito, foi muito reveladora para Adriana, uma vez que lhe permitiu refletir sobre a história de ocupação do espaço não apenas em Ermelino Matarazzo, mas nas periferias como um todo.

Outra peculiaridade da região estudada é a grande participação política de seus moradores, ao mesmo tempo em que estes encontram-se inseridos em um processo de valoração socioespacial. Esse processo, segundo a pesquisadora, consiste na atribuição de um valor simbólico a partir do lugar que alguém ou um lugar ocupam na cidade. “Isso ocorre porque o espaço da cidade é uma transfiguração da divisão e da hierarquia social. Em outras palavras, quem mora em São Miguel Paulista ou em Ermelino Matarazzo teria uma valoração social a partir do espaço, e este valor é depreciativo em relação a quem mora na zona sul, por exemplo”.

Um vínculo estreito

Adriana Dantas foi criada em Ermelino Matarazzo. Após alguns anos fora de São Paulo, a pesquisadora, ao retornar para a comunidade da zona leste, não reconheceu o lugar onde havia crescido. “Voltar, depois de muito tempo fora, fez com que eu estranhasse vários aspectos que, antes, eram naturais como moradora. Fiquei com uma pergunta em mente: por que a minha região, onde cresci, parecia tão diferente daquela?”.

Ao longo de dois anos e meio, Adriana buscou respostas para esse questionamento. Sua pesquisa envolveu 20 entrevistas com moradores da comunidade e a leitura e análise de documentos produzidos pelos próprios moradores, além de arquivos oficiais sobre a região.

“Pesquisar o distrito de Ermelino Matarazzo, como também a zona leste de São Paulo, foi importante para entender como as clivagens sociais são construídas. Reconhecer suas diferenças, assim como a atuação dos agentes dentro das limitações impostas socialmente, permite entender o fenômeno das periferias como uma construção, que, como tal, pode ser transformada por políticas públicas”.

Mais informações: email novadrica@gmail.com

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