Professores não identificam todas as diferenças entre alunos

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Fernando Pivetti / Agência USP de Notícias

Dentro do contexto escolar, os professores têm dificuldades de enxergar as diferenças existentes entre os alunos em uma sala de aula. Uma pesquisa da Faculdade de Educação (FE) da USP aponta que a maioria dos educadores não conseguem desenvolver projetos de ensino eficientes, e que contemplem  a todos os estudantes, devido à falta de métodos de aprendizado e recursos pedagógicos.

Segundo dados da dissertação de mestrado da bióloga Miriam Brito Guimarães, a carência de estratégias dentro da sala de aula é uma das principais causas de desconforto e insegurança dos professores.

No estudo, foram entrevistadas 31 professoras da rede pública de ensino, e que trabalham com os anos iniciais da alfabetização de crianças, o chamado Ensino Fundamental 1 (do primeiro ao quarto ano). As educadoras trabalham em três escolas da periferia da cidade de São Paulo. Segundo a pesquisadora, a escolha da periferia leva em consideração o grande impacto do professor em promover a educação dentro das classes mais pobres. “Nesse meio, as escolas tem grande potencial de transformação das pessoas.”

As entrevistas realizadas com as professoras eram escritas e utilizavam dois contextos. O primeiro buscava realizar um levantamento sobre como o professor enxergava a sua própria sala de aula, e o outro contexto buscava promover um debate sobre um caso de heterogeneidade dentro de uma classe e a maneira como o professor lida com essa demanda.

Os dados apurados pela pesquisa apontaram que cerca de 60% das professoras caracterizaram a heterogeneidade dos alunos apenas enquanto diferenças nos níveis de aprendizado apresentados por eles. Outros 24% focaram as diferenças a partir das deficiências dos alunos, como transtornos de atenção, hiperatividade e outros casos, com ênfase nos aspectos negativos que esses comportamentos trazem para a sala de aula. Apenas 16% das professoras que participaram do estudo justificavam a classe heterogênea a partir das diferenças de personalidade, de história e de vivência das crianças, observando com naturalidade as riquezas desse fenômeno.

Na segunda etapa do estudo, as professoras participantes avaliaram um contexto de sala aula em que os alunos possuíam diferentes origens, religiosidades e gêneros. “É interessante notar que, nesse momento, as professoras identificavam a real heterogeneidade entre os alunos e reconheciam, no exemplo dado, a sua turma”, aponta Miriam.

Dificuldades e estratégias

As análises realizadas pelos participantes apontaram que a principal dificuldade dos professores frente às diferenças dos alunos é a carência de recursos pedagógicos, revelando uma formação profissional que não os prepara para esse contexto. Entretanto, a pesquisadora ressalta que um aspecto positivo é a visão de apoio que os professores possuem da coordenação e direção das escolas. “A escola, enquanto coordenação, é vista pelos professores como recurso de apoio, e não apenas como fonte de cobrança pelo seu trabalho”.

Miriam afirma que a carência identificada pelos professores serve de alerta para a avaliação das estratégias de ensino dentro da sala de aula. “É necessário utilizar hoje outras habilidades, para atender diferentes demandas. Uma única forma de trabalhar com a classe gera um processo de exclusão”. Para ela, o déficit de recursos advém da formação dos próprios professores, e a melhoria nesse ponto, como cursos de especialização, não é vista como alternativa pelos profissionais. “Na academia, a heterogeneidade também se aplica. Se a gente entende que um grupo de professores é heterogêneo, é preciso considerar essas diferenças durante a formação deles e ouvir suas necessidades”, completa.

Mais informações: email mirguima@usp.br, com Miriam Guimarães

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