Contextos que envolvem obra ajudam a compreender capitalismo editorial

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Foto: Wikimedia Commons
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Entre os anos de 1855 e 1860, a França praticamente inventava o modelo do livro de bolso conhecido hoje, caracterizado por seu tamanho reduzido e custo menor em relação ao formato tradicional – por isso, associado, à época, a obras de caráter mais popular. A mudança diminuía em 15 vezes o valor praticado anteriormente, fazendo com que o livro atingisse o valor de 1 franco. O livro era produzido de maneira estandardizada, dentro de uma cadeia em que salta aos olhos a lógica da quantidade. Todos estes fatores devem ser levados em conta para se compreender a questão dos preços no mercado literário.

Por meio da obra Madame Bovary, do escritor francês Gustave Flaubert, o pesquisador Jean-Yves Mollier, do Centre d’Histoire Culturelle des Societés Contemporaines, da Universitè de Versailles Saint-Quentin-em-Yvelines, teceu uma análise economicista desse contexto e percebeu que entre os anos 1855 e 1860 houve uma fixação dos preços no mercado literário. Mollier esteve presente na USP no dia 1 de abril para a palestra O Dinheiro e as Letras – História do Capitalismo Editorial, mesmo nome do seu livro, publicado no Brasil pela Edusp em 2010, e comentou sobre o questionamento de muitos especialistas sobre a remuneração recebida por Flaubert pelo manuscrito que se tornou o célebre romance.

Ao contrário do que se poderia pensar, o pesquisador entende que, para além de qualquer questão envolvendo religião (os editores eram judeus e Flaubert se tornaria antissemita), o valor pago pela obra, pelo seu valor material enquanto manuscrito, foi o estabelecido para a época entre os 10 maiores editores franceses.

O escritor nunca escreve um livro, salvo no caso do livro de artista. Os escritores escrevem textos e são os editores que transformam esse texto em livro.

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Madame Bovary: ilustração de Alfred de Richemont para edição de 1905

A dúvida quanto ao preço devido ao pagamento dos manuscritos poderia vir do fato de que o editor, Michel Lévy, dispunha de muita experiência no ramo e que, portanto, talvez devesse ter dado uma quantia maior a Flaubert. Mollier, porém, explica que Flaubert entrou para o mundo literário de maneira instável, dado que Madame Bovary fora publicado inicialmente na Revista de Paris e o autor recebera, por conta de uma passagem, uma advertência formal em um tribunal. Um procurador chegou a acusar Flaubert de ter criado a cena mais erótica da França, em um trecho em que a personagem Bovary entra em uma carruagem em movimento com um jovem, retira sua luva e rasga uma carta.

Diante disso, o pesquisador conclui que “se não houvesse aquele primeiro escândalo causado pela edição na revista, Madame Bovary certamente seria editado em uma edição de 100 francos, e seria um livro, de fato, dirigido a um público restrito”, tal como poderia pensar Michel Lévy. No entanto, o editor se deparara com a impossibilidade de colocar aquele jovem escritor desconhecido, para quem ele vislumbrara um grande futuro, em uma edição para um público reservado. Mollier é enfático: “Flaubert não escreve para o grande público, Flaubert escreve para o leitor culto, capaz de ler com uma distância crítica os seus romances. O que é bem diferente do leitor bovarista, que é aquele que não tem um distanciamento”.

Foto: Divulgação
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Mollier entende que é forçoso levar em conta esse contexto para compreender o mercado literário, compreendendo “do formato no qual a obra foi publicada, do papel, da tinta, de tudo o que se chama de paratexto, de tudo o que serviu para transformar o texto em livro”. Isso porque, prossegue, “contra tudo o que creem alguns críticos literários, o escritor nunca escreve um livro, salvo no caso do livro de artista. Os escritores escrevem textos e são os editores que transformam esse texto em livro”.

Na palestra, que aconteceu no prédio de Letras da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, Jean-Yves Mollier seguiu falando de outros casos literários e editoriais.

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Jean-Yves Mollier

Também mencionou a incompreensão de Flaubert das razões de seus editores não serem capazes de reinventar para seus dois romances posteriores, Salammbô e Educação Sentimental, o mesmo sucesso de Madame Bovary, a despeito do preço estabelecido pelos seus editores e de ter sido o autor mais lido na França do período.

O autor viveria vinte anos de muita frustração, o que teria o levado a uma posição completamente antissemita.

Em francês, a palestra foi auxiliada com a tradução consecutiva da professora Marisa Midori Daecto, da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP.

Contextos que envolvem obra ajudam a compreender capitalismo editorial
Editoria: Sociedade, USP Online Destaque - Autor: - Data: 8 de abril de 2014

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