No Instituto de Psicologia, dança circular é ritual de saúde e bem estar

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Foto: Marcos Santos / USP Imagens
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Os jardins do Instituto de Psicologia (IP) da USP são o cenário de mais um encontro do Grupo de Danças Circulares. Tânia Pessoa de Lima, psicóloga do Laboratório de Estudos da Personalidade (LEP), é a focalizadora da roda que partilha vivências e conhecimentos sobre este tipo especial de dança, mais ritualístico e que tem suas origens na Fundação Findhorn, na Escócia – associação cujos membros mantêm um modo e vida comunitária e de partilha.

É neste clima que semanalmente mais de 40 pessoas se reúnem para participar e interagir com o círculo – forma importante para a dança que busca estar sempre em sintonia com a terra. Zuleika Benedito é psicóloga e participa da roda há mais de três anos. Conta que antes de participar da atividade, já havia se inscrito em diversos cursos livres da USP, mas se identificou mesmo com a dança, pois além de lhe dar prazer, facilita seu relacionamento com as pessoas. “Cada semestre, é um grupo diferente, e as experiências de cada um são passadas no grupo. É muito bom, eu gosto muito”, empolga-se.

Todo semestre são abertas as inscrições para a turma de iniciantes, sendo oferecidas 20 vagas. Este ano, porém, Tânia aceitou 30 alunos – que é o quanto cabe na Sala Ateliê, espaço em que as atividades acontecem quando não é possível ficar do lado de fora. “Depois que as inscrições se encerram, o grupo fica fechado, não entram novas pessoas e vamos com o grupo até o final do semestre”, explica a pesquisadora. Já em seguida, também às terças, a psicóloga organizou um “grupo de partilha”, para os que praticam a dança circular já há mais tempo. “Há alguns participantes que vêm dançando com a gente já por vários semestres, e chega uma hora em que não dá mais para mantê-los no grupo de iniciantes”, revela. “Então eles vêm para um outro formato, onde eu não comando as danças”. Tânia explica que como neste grupo há membros que buscam a dança circular fora da USP, neste momento eles são responsáveis por trazer para a roda novas danças e histórias para compartilhar entre os “amigos que compartilham danças”.

Encontro com o sagrado

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
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Tanto o grupo iniciante quanto o mais avançado fazem parte de um processo que vai além da própria dança. Danças de rodas e danças circulares existem em todos os lugares, diz Tânia, mas o que acontece no LEP é um formato de dança circular sagrada – que entra em contexto ritual. “Os praticantes não chamam esse contexto de um contexto ritual. Dou este nome na pesquisa que eu tenho feito e posso dizer que este formato que nós dançamos é um formato ritual”. Para fazer parte de um ritual, explica a psicóloga, alguns procedimentos devem ser tomados: uma abertura, colocação de intenções e propósitos (cada um diz porque dança) e as danças em si com o centro marcado.

O centro, como lembra Tânia, é uma figura importante em todo este contexto. Antes do início, ele é decorado pelos participantes como uma mandala, e em volta dele são praticadas danças de roda de diferentes povos, que são contadas nessas populações e trazidas para esse formato. “Quem dança não precisa ser dançarino, não precisa ter nenhuma habilidade corporal ou física”, avisa. “Isso porque são danças muito simples e o propósito não é a perfeição dos passos, é justamente um campo de cooperação e harmonia”.

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
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Selma Ferro, membro da roda, conta que quando trabalhava nunca tinha a oportunidade de fazer alguma coisa para ela mesma. “Faço primeiro porque tem contato com essa coisa do sagrado e isso para mim é muito importante”, expõe. Conta também que é praticante de yoga e a atividade veio complementar essa conexão, do que ela chama de sagrado. “É um contato para mim, é algo meu… é uma delícia”.

Por que dançar?

Relaxamento, diminuição do estresse, alegria, ou amor pela dança. Esse é o discurso de quem chega ao projeto pela primeira vez. “Eles dizem que é gostoso, que faz bem pra saúde, que se sentem alegres”, explica a pesquisadora. “Mas considero esse trabalho como um cuidado com a cultura, cuidando das pessoas que vivem na nossa época”. Tânia confessa que quando começou a praticar as danças, também não sabia muito bem o que buscava, mas se encontrou na atividade que é orgânica e “agradável para o espírito”.

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
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“Noto muito que as pessoas falam que desenvolvem uma consciência corporal mais própria”, explica a psicóloga. “Não sabiam antes qual era a direita e a esquerda, elas falam que começam a perceber reações e sensações corporais que não sabiam ter”. Tânia conta também que o mais interessante é quando levam a mensagem da dança circular para a vida cotidiana. Lembra de uma participante que disse ficar muito desesperada durante a semana com as inúmeras tarefas para fazer, e que começou a se lembrar que na dança circular sempre tinha que seguir as sequências “um passo depois do outro passo” e resolveu aplicar o conceito em sua vida. “As pessoas levam mensagens, insights, descobertas que têm na roda para a vida diária, para os relacionamentos”, explica a psicóloga.

O grupo, como conta a psicóloga, tem em sua maioria mulheres maduras. A faixa etária das participantes vai desde os 20 aos 80 anos, mas todos são convidados a dançar. Todo o início de semestre são abertas as inscrições para o Grupo de Danças Circulares.

Mais informações: email taniapl@usp.br

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