Vídeos de coletivos culturais em São Paulo ressignificam a “cidade”

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Otavio Nadaleto / Agência USP de Notícias

Uma pesquisa etnográfica, realizada entre março de 2009 e agosto de 2013, mostrou que coletivos midiativistas originados em áreas periféricas de São Paulo estimulam o desenvolvimento de reflexões críticas sobre os modos de representação e gestão dos espaços urbanos. A conclusão surgiu da tese de doutorado Reinventando a ‘cidade’: disputas simbólicas em torno da produção e exibição audiovisual de ‘coletivos culturais’ em São Paulo, de Guilhermo Aderaldo, defendida em outubro de 2013, na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

O foco da análise foi o Coletivo de Vídeo Popular (CVP), uma rede integrada por diversas associações coletivas dedicadas à produção e exibição audiovisual em lugares marcados por processos de precarização sócio urbana.

“O uso do vídeo como ferramenta de intervenção urbana teve como objetivo promover formas de solidariedade e associativismo mais alargadas, pautadas pela crítica ao modelo urbanístico que marginaliza grande parte da população. A intenção desses coletivos, portanto, não pode ser confundida com um simples desejo de celebração de uma ‘identidade cultural periférica’, como diz parte da literatura acadêmica”, pontua Aderaldo.

No estudo, o pesquisador evitou o uso de termos como “periferia”, “centro” e “cidade”, pois um de seus objetivos foi observar como estes termos eram empregados pelas pessoas pesquisadas em diferentes contextos. A ideia de “cidade”, por exemplo, não pode ser considerada de forma auto-evidente, pois nem sempre é pautada pelos mesmos referenciais urbanísticos. Mesmo na administração pública, diferentes noções de “cidade” disputam espaço. “Muitas forças estão agindo dentro das esferas do poder público e estão representando a ‘cidade’ de maneiras distintas, o que acaba se refletindo no modo como diferentes instâncias lidam com as intervenções urbanas”, afirma Aderaldo. “Houve, por exemplo, o caso de um coletivo que ganhou um edital público para fazer grafites em determinadas áreas urbanas. Após receberem a verba, eles fizeram a arte e funcionários terceirizados da mesma prefeitura apagaram os trabalhos. Em reação, eles escreveram nos muros frases como ‘Prefeitura paga e apaga’”, completa.

Contexto político-cultural

“No início dos anos 2000, diante de diversas crises do mundo do trabalho a gestão cultural tornou-se uma das prioridades dentre as políticas públicas voltadas à administração das cidades”, explica o pesquisador. “Houve uma série de mudanças na concepção de políticas culturais. Uma das principais foi a incorporação de uma referência mais ampla do conceito de ‘cultura’. Ele deixou de ser pensado somente como sinônimo de conhecimento especializado e erudito e passou a englobar costumes e modos de vida de setores socialmente desfavorecidos”.

A partir desta mudança, diversos grupos que não tinham acesso a recursos relacionados a programas culturais passaram a tê-lo. “O meu interesse foi, então, entender como a relativa democratização do acesso às novas tecnologias comunicativas (como câmeras, gravadores e computadores), num contexto marcado por esses avanços nas políticas sociais e culturais, passou a afetar a trama social e urbana”, descreve.

Ainda sobre a referida modificação dos paradigmas de muitas políticas culturais, o pesquisador considera que um dos principais desdobramentos deste processo foi o fato de que uma expressiva parcela das populações menos favorecidas passou a ter condições de produzir bens simbólicos sem ficar dependentes das ONGs e outras instituições . “É comum que essas instituições reforcem uma visão dualista de cidade, na qual entende-se ‘periferia’ e ‘centro’ como mundos sociais estanques e não como partes de um mesmo processo. Neste sentido, uma das principais críticas que ouvi em relação às ONGs é a de que elas, normalmente, se beneficiam desta visão dicotômica, pois existe um mercado voltado ao financiamento das chamadas ‘ações culturais na periferia’, que tende a estetizar e despolitizar os debates públicos sobre a desigualdade urbana”.

Desdobramentos

A partir deste conhecimento, Aderaldo afirma ser possível elaborar reflexões mais apuradas sobre o uso de conceitos como o de “periferia”. De acordo com o pesquisador, “não se pode fazer uma pesquisa partindo-se de uma concepção prévia deste conceito, pois os próprios atores comumente associados às regiões periféricas costumam alargar suas redes de sociabilidade e fazer usos diversos do mesmo, de acordo com os diferentes interesses em jogo”, diz ele.

Mais informações: email guiade@ymail.com

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