Cinema comercial e “qualidade” podem caminhar juntos

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Ana Paula Souza / Agência USP de Notícias

Quem poderia imaginar que Os Embalos de Sábado à Noite e Rocky – Um Lutador, poderiam ter algo em comum? No entanto, além dos recordes de bilheteria e da fama de seus protagonistas, o pesquisador Sergio Eduardo Alpendre de Oliveira, em sua dissertação de mestrado O mal-estar da sociedade americana e sua representação no cinema (1975-1978), apresentada na Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, mostra que os dois filmes também se aproximam pelo fato de apresentarem elementos narrativos que retratam a melancolia da sociedade americana na segunda metade da década de 1970. Além disso, entre os principais resultados do estudo, também está o fato de que, ao contrário do que se costuma pensar, cinema comercial e qualidade artística são conceitos que podem, sim, andar lado a lado.

A melancolia escondida

Sob a orientação do professor Eduardo Victorio Morettin, Alpendre analisou as duas obras por mais de dois anos. Ao investigar Os Embalos de Sábado à Noite, filme em que John Travolta viveu o jovem Tony Manero, personagem que se tornou um ícone da era das discotecas, o pesquisador revela que o fenômeno disco, com sua febre de alegria, escondia, na verdade, uma melancolia profunda existente na época. Esse sentimento estava relacionado, entre outros motivos, a diversos eventos que ocorreram nos anos 1970, entre os quais a Guerra do Vietnã, a Crise do Petróleo e o Caso Watergate, o qual resultou na renúncia do presidente Richard Nixon.

Essa melancolia também está presente no caso de Rocky – Um Lutador, que conta a história do boxeador Rocky Balboa. O estudo mostra que o filme, vencedor do Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor e Melhor Edição, foi muito mais do que um veículo para o ator Sylvester Stallone. Segundo o pesquisador, a obra, além de também trazer elementos relacionados à melancolia da década de 1970, apresenta também uma alta qualidade artística, servindo como um documento histórico de uma época.

Cinema Comercial versus Qualidade Artística

Segundo Alpendre, na época em que os dois filmes foram lançados, o cinema comercial frequentemente tinha valor artístico, algo que o pesquisador afirma ser raro na atualidade. E as duas películas trazem mais uma curiosidade: apesar do sucesso de público, Alpendre conta que os filmes foram produzidos com um orçamento modesto e que não foram elaborados por diretores conhecidos. “É importante destacar que os dois fazem parte de um cinema que não é autoral, feito por diretores pouco celebrados por críticos e cinéfilos, mas que foram feitos em uma época em que o cinema autoral teve, como nunca antes, algum espaço na indústria de cinema americana”, conta o pesquisador. “É preciso chamar a atenção para a qualidade desses filmes, e para algumas injustiças na apreciação que tiveram e ainda têm”.

Para a elaboração da pesquisa, Alpendre assistiu não apenas ao dois filmes, mas também à outras produções da Nova Hollywood, período compreendido entre o começo da década de 1960 e da década de 1980. Entre as outras obras analisadas, estão filmes como Bonnie & Clyde – Uma Rajada de BalasO Poderoso Chefão e Apocalypse Now. O estudo também envolveu a leitura de uma longa bibliografia, na qual se destacam os livros Le Cinéma Americain des Années 70, de Jean-Baptiste Thoret, e Hollywood from Vietnam to Reagan… and Beyond, de Robin Wood, sem tradução para o português, mas considerados por Alpendre como obrigatórios para quem quiser entender o cinema americano do período.

Mais informações: email sealpendre@gmail.com

Cinema comercial e “qualidade” podem caminhar juntos
Editoria: Cultura - Autor: - Data: 22 de abril de 2014

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