FEA discute queda de confiança internacional na economia brasileira

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Nicolas Gunkel / Assessoria de Imprensa da FEA

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
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No mesmo dia em que o Brasil foi rebaixado na nota de crédito de uma das mais importantes agências de classificação de risco do mundo, três dos maiores nomes da Economia brasileira encontraram-se na Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP para um frutífero debate. Promovida pela Liga de Mercado Financeiro da Faculdade, a primeira edição do “Economia na Mesa” contou com a participação do ex-presidente do Banco Central e chairman do BTG Pactual, Pérsio Arida, com o economista do Itaú BBA Caio Megale e com o economista-chefe do Bradesco, Octávio de Barros. A discussão foi mediada pelo editor-chefe da Reuters no Brasil, César Bianconi.

O primeiro tema abordado pelos convidados foi justamente a reclassificação da nota de crédito soberano do Brasil (que reflete a confiança de investidores no país), rebaixado de BBB para BBB- no ranking da Standard & Poor’s. Apesar de considerarem uma má notícia para a imagem do país, Arida e Barros criticaram a avaliação da agência. “Achei injusto. Na dívida em moeda estrangeira, o Brasil tem os melhores indicadores entre os países emergentes. Nos últimos 15 anos, fomos o único país que gerou superávit primário ininterruptamente. O país reage, sim, a incentivos, pressões e crises”, considerou o economista-chefe do Bradesco.

De acordo com Arida, é preciso levar em conta o contexto em que o rebaixamento foi feito. “Os emergentes têm hoje um cenário adverso, em que a taxa de juros americana deve subir e atrair os investimentos. Do outro lado, a China tem a combinação de uma enorme bolha imobiliária, a necessidade de regular seu sistema financeiro e a abertura das contas externas. É pouco provável que essa transição aconteça sem sustos e isso não é bom para os emergentes”.

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
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O chairman do BTG Pactual também acredita que o funcionamento das agências de classificação de risco deve ser analisado com reservas por ser pró-cíclico, isto é, potencializar as avaliações que elas mesmas fazem. “Elas informam menos do que parece. Já fizeram erros enormes no passado e crises podem ser geradas de más avaliações e exageros dessas agências”, alertou o economista.

Essas agências já cometeram erros enormes no passado e crises podem ser geradas.

Arida lembrou que outros países, entre eles Egito, Turquia, Rússia e Síria, também passam por tensões geopolíticas que se traduzem em risco financeiro para o resto do planeta. “O efeito destas instabilidades nos emergentes depende da qualidade das políticas públicas internas. A melhor resposta que o Brasil pode dar à avaliação é melhorando a qualidade de nossas políticas domésticas”.

Segundo o economista do Itaú Caio Megale, as taxas de juros do Brasil vinham cedendo desde 2010, período que trouxe distorções e desafios para o país. “A taxa de crescimento do PIB desacelerou muito por restrições de oferta, o déficit externo em contas correntes subiu de 1 para 4%. Tivemos uma alta da inflação e parte foi compensada por preços controlados que trouxeram novas distorções”, ressalta.

Para o economista, os preços distorcidos aliados a uma política fiscal expansionista ajudaram a criar o ambiente que levou ao rebaixamento do país. “Nossos fundamentos ainda são muito sólidos. Se o rebaixamento vier como estímulos para corrigir desequilíbrios gerados nos últimos dois anos, pode até trazer consequências positivas para o Brasil”.

Aprendizado

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
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Apesar do rebaixamento da nota de crédito brasileira, Octávio de Barros acredita que as consequências da recessão de 2008 trouxeram grande aprendizado para os mercados financeiros. “A crise teve efeito muito didático na ação de banqueiros de todos os países. Temos hoje bancos centrais mais pragmáticos, atentos à instabilidade financeira”, apontou. Para Barros, o mesmo vale para os países emergentes, que sofreram com a agudez da crise. “Antes, os emergentes eram um desastre, não tinham meta de inflação, nem câmbio. Era uma irresponsabilidade fiscal absoluta. Hoje, vemos avanços incrementais extraordinários na política econômica”, avalia. “O Brasil tornou-se mais previsível a despeito de incertezas no radar”.

Pérsio Arida também acredita que houve avanços nas políticas econômicas para identificar e lidar com crises. De acordo com ele, isso se deve, em parte, a um aperto regulatório por parte dos bancos centrais. “Por sorte, estamos em um processo radical de regulamentação. Cada vez mais se procura controlar os gestores e qualquer um que possa alavancar grande capital”.

Para Caio Megale, o sistema financeiro brasileiro tornou-se uma referência internacional. “Em 2008, cansamos de receber reguladores norte-americanos perguntando o que fizemos para lidar com a crise. Uma de nossas revoluções foi a do sistema financeiro que, hoje, é um dos mais bem regulados do mundo”.

Crescimento

Para a Arida, a noção de crescimento no pós-crise foi modificada e varia de país para país. “Temos realidades muito diferentes”, afirma. Ele acredita que os Estados Unidos estejam em uma trajetória de recuperação, com a formação de uma economia mais rigorosa, enquanto a China tem “uma realidade completamente diversa, acelerando a taxa de investimento de forma deliberada”.

De acordo com o economista, o crescimento chinês é um caso sem precedentes históricos. “A China chegou a ter investimentos de cerca de 45% do PIB. É um crescimento forçado” avalia. “No Brasil de hoje, esse número oscila entre 17 e 18%”.

Arida afirma que o único lugar onde a crise de 2008 ainda está presente é na Europa, por conta das particularidades da União Europeia. “A economia lá ainda move-se muito lentamente, dada a complexidade da moeda única sem autoridade fiscal única, e a mobilidade de mão de obra”, destaca.

Mesmo assim, o economista é otimista em relação aos europeus. “Se olharmos o básico, a periferia está se ajustando. A inflação também é um problema menor do que parece. A Alemanha segue com atividade econômica relativamente sustentável”.

Para Arida, no contexto de reconstrução da economia dos desenvolvidos, quem mais sofre são os emergentes. “Os emergentes saíram da crise mais rápido que os outros. Quando a resposta econômica dos desenvolvidos mudar, os emergentes serão bastante afetados”.

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
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Octávio de Barros, diz que o Brasil precisa levar adiante algumas de suas “agendas confusas”. “Precisamos dar um grande salto de qualidade com algumas reformas e ter um pouco mais de ousadia”. “O Brasil tem a vantagem de ser muito diversificado setorialmente, mas tenho impressão que o grande desafio é só um: aumentar a produtividade”, complementa.

Tenho impressão que o grande desafio é só um: aumentar a produtividade.

A produtividade é de fato uma demanda urgente do Brasil, mas a solução para ela não é simples, comenta Pérsio Arida. “Se não houver nos governantes a convicção de como resolver, de como guiar administrativamente este problema, não sairemos do lugar”, afirmou. “A demanda por maior eficiência, menos desperdício e melhor transporte existe, mas a sociedade não é obrigada a saber como resolver. Os governantes é que têm que captar os anseios da população”.

Reformas

Para encerrar a primeira edição do “Economia na Mesa”, o jornalista César Bianconi questionou os convidados sobre qual reforma eles fariam no Brasil se tivessem oportunidade.

Para Octávio de Barros, um problema recorrente no Brasil, independentemente do governo, é a crise de confiança. “O Brasil é mais punido pelos mercados que outros países que cometem os mesmos pecados que nós. Precisamos virar essa página”. Barros mencionou o economista norte-americano, que diz que a confiança é a forma mais simples e barata de estímulo econômico. Para realizar tal reforma, o economista-chefe do Bradesco julga necessário estabelecer, em lei, um teto para a expansão do gasto não nominal.

Já de acordo com Caio Megale, o que mais prejudica o desenvolvimento do país é a complexidade da carga tributária. “É preciso contratar equipes de contadores e de advogados para tudo. Não sei se a tributária é a reforma mais importante, mas com certeza a primeira que as empresas fariam”.

Arida, por fim, afirmou que faria uma reforma fiscal. “Eu zeraria alíquotas. O imposto sobre lucro e sobre renda é razoável, mas imposto sobre faturamento é uma distorção monumental”, criticou o economista. “Por último, reformaria o Banco Central. Quando o BC inglês se tornou independente do tesouro, o custo da dívida pública caiu. É um ganho imediato”.

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