Estudo da FSP identifica relação entre cárie e insegurança alimentar

Publicado em Saúde, USP Online Destaque por em

Foto: Banco de Imagens do HRAC / USP Imagens
Foto: Banco de Imagens do HRAC / USP Imagens

No Brasil, o direito à alimentação adequada é garantido por lei, que define a segurança alimentar e nutricional como o acesso regular e permanente a alimentos de qualidade e em quantidade suficiente. Sabe-se que pessoas em condições de insegurança alimentar são mais propensas a desenvolver deficiências nutricionais, além de doenças cardíacas, diabetes e hipertensão, entre outras. Um estudo coordenado pelo professor Paulo Frazão, do Departamento de Prática de Saúde Pública da Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP, identificou que a cárie dentária na infância também pode estar associada a altos níveis de insegurança alimentar.

A pesquisa, que envolveu também o Departamento de Nutrição da FSP, realizou exames odontológicos em crianças de 7 a 9 anos de idade, estudantes de três escolas urbanas de Acrelândia, município do Acre com cerca de 11 mil habitantes. Os dados, obtidos em 2010, foram cruzados com outras informações já disponíveis em pesquisas anteriores, sobre as condições socioeconômicas das famílias, além de número de escovações por dia, altura e peso das crianças. Já a insegurança alimentar foi avaliada por meio de uma escala criada pelo Departamento de Agricultura dos Estados Unidos, que leva em consideração a experiência das famílias nos últimos três meses em relação a acesso à comida, avaliando, por exemplo, a preocupação com a falta de alimentos e a possibilidade de ficar sem comer durante um dia inteiro.

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Foto: Marcos Santos / USP Imagens

Os pesquisadores observaram que a incidência de cárie era 50% maior quando associada a altos níveis de insegurança alimentar. “Achávamos que poderia haver essa relação, mas não tínhamos ideia de que ela seria tão expressiva”, afirma Frazão. O modelo para as análises incluiu diversas variáveis para que o resultado não fosse “contaminado” por fatores que, sabe-se de antemão, influenciam a ocorrência de cárie nos dentes. Uma das características que permitiu observar o fenômeno com mais clareza é o fato de Acrelândia não ser abastecida com água fluoretada – umas das medidas de saúde pública de combate à cárie. Foram 203 crianças analisadas. Destas, cerca de 80% tinham pelo menos um dente cariado sem tratamento, e quase 60% viviam em domicílios que registraram um ou mais problemas com insegurança alimentar.

Pobreza e insegurança

Uma possível explicação para o resultado encontrado é o fato de famílias com problemas de segurança alimentar consumirem alimentos não só em pouca quantidade, mas de má qualidade. “Elas tendem a ingerir alimentos de baixo preço, ultraprocessados, com alto teor de gorduras, sal, açúcar e carboidratos, ficando mais expostas à cárie”, comenta Paulo Frazão. Segundo o pesquisador, outro fator possível seria a falta de disponibilidade de locais que comercializem alimentos saudáveis nos bairros rurais e pobres. A pobreza é outra possibilidade que pode explicar os achados da pesquisa, já que a relação entre insegurança alimentar e baixa renda já é bem conhecida pelos estudiosos.

Foto: Pedro Bolle / USP Imagens
Foto: Pedro Bolle / USP Imagens

Este é o primeiro estudo realizado que associa cárie e insegurança alimentar em escolares. Os resultados sugerem que políticas de segurança alimentar podem ajudar a reduzir a cárie dentária. Segundo a Pesquisa Nacional de Saúde Bucal publicada em 2012 pelo Ministério da Saúde, embora tenha havido melhoras entre os anos de 2003 e 2010, a cárie dentária continua sendo o principal problema de saúde bucal dos brasileiros.

O estudo coordenado por Frazão foi publicado na edição de abril do periódico European Journal of Oral Sciences e contou com o apoio da Universidade Federal do Acre e das Secretarias Municipais de Saúde e Educação de Acrelândia.

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