Método desenvolvido em estudo da Esalq identifica presença de animais em extinção

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Caio Albuquerque / Assessoria de Comunicação da Esalq

Entre 2011 e 2012, o biólogo Marcelo Magioli percorreu áreas agrícolas e fragmentos florestais na Região Metropolitana de Campinas (RMC). Com objetivo de contribuir para a definição de estratégias e ações em prol da conservação da biodiversidade, Magioli registrou pegadas e coletou dados sobre a presença de mamíferos de médio e grande porte em áreas rurais, fortemente impactadas pela ação do homem, nos municípios de Campinas, Artur Nogueira, Cosmópolis, Holambra, Paulínia e Jaguariuna, no interior de São Paulo. A proposta foi obter informações acerca da composição de assembleias de mamíferos de médio e grande porte em áreas agrícolas, utilizar a análise de isótopos estáveis como ferramenta de pesquisa em ecologia e o uso da diversidade funcional como uma medida diferenciada mais complexa para avaliação de comunidades naturais. A pesquisa foi apresentada como dissertação de mestrado no Programa de Pós-graduação em Recursos Florestais, da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq) da USP, em Piracicaba.

O trabalho teve orientação da professora Katia Maria Paschoaletto Micchi de Barros Ferraz, do Departamento de Ciências Florestais (LCF) da Esalq, e a riqueza de espécies encontradas surpreendeu os pesquisadores. “O relato de 27 espécies de mamíferos de médio e grande porte é algo inédito nessa região do Estado, caracterizada por altos índices de urbanização e industrialização, além da presença de uma movimentada malha rodoviária. No entanto, a maior surpresa foi poder relatar sete espécies em risco de extinção, entre elas o tamanduá-bandeira, um mamífero típico do cerrado, bioma presente em alguns fragmentos de medidas reduzidas na região”, comenta o autor da pesquisa.

De acordo com o estudo, a variedade de espécies encontradas na RMC destaca esta como importante para a conservação dos mamíferos de médio e grande porte do Estado de São Paulo. “Os dados obtidos para uma das áreas inventariadas sugerem que esse remanescente pode ser considerado como matriz de dispersão de espécies na paisagem, e área chave para conservação. Além disso, a presença das espécies ameaçadas de extinção reforça a necessidade premente de ações e estratégias em prol da conservação da mastofauna na RMC”.

Por meio da análise de isótopos estáveis, Marcelo Magioli obteve informações acerca dos padrões de alimentação e do uso dos recursos da paisagem pela onça-parda (Puma concolor) e suas principais presas em dois mosaicos agrícolas com diferentes proporções de cobertura vegetal. Segundo o pesquisador, há uma escassez de trabalhos sobre os impactos causados por mosaicos agrícolas sobre a biodiversidade e, no caso da onça-parda, a análise isotópica dos pelos coletados nas fezes se apresentou como uma forma alternativa de estudo com carnívoros silvestres. “Trata-se de um método não letal e evita processos de captura e manipulação das espécies”.

Uso de recursos da paisagem

O estudo gerou informações pioneiras sobre a capacidade do uso de recursos da paisagem pelas onças-pardas. “Notamos a alta plasticidade comportamental das onças-pardas e de suas presas em regiões altamente modificadas, utilizando fontes alternativas de recursos, geralmente encontrados na matriz agrícola, no caso a cana-de-açúcar”. Portanto, continua Magioli, “o papel das áreas agrícolas para a sobrevivência da onça parda, de suas presas e da comunidade em geral deve ser melhor investigado, uma vez que estas se apresentaram como uma fonte de recursos também importante”.

O caráter inovador da pesquisa, no entanto, refere-se à utilização da diversidade funcional. Este método considera os aspectos individuais de cada animal, o que permite o levantamento de informações detalhadas acerca do comportamento de cada espécie. Entre outros, fornece dados físicos e fisiológicos, comportamentais, de alimentação e de sensibilidade ambiental, enfim, um panorama mais complexo, que pode nortear políticas públicas de forma mais assertiva e individualizada. “A diversidade funcional se apresentou como uma medida que ofereceu maior complexidade às assembleias de mamíferos, diferente de medidas tradicionais com a riqueza de espécies”. A partir da identificação de limiares ecológicos de diversidade funcional é possível indicar áreas prioritárias para conservação e definir formas de ação específicas para cada uma das situações.

A pesquisa sugere que, para assembleias encontradas abaixo do primeiro limiar (< 52 ha), são incentivadas ações visando o cumprimento da legislação ambiental brasileira (código florestal), enquanto para aquelas encontradas acima do segundo limiar (> 1244 ha), a criação e manutenção de unidade de conservação são as mais cabíveis. “Assembleias de mamíferos presentes entre os dois limiares (entre 52 e 1244 ha) merecem grande atenção por parte de investimentos em iniciativas visando promover a restauração biológica e melhorias de configuração da paisagem”, conclui Magioli.

As coletas de campo foram financiadas pelo Fundo Brasileiro para Biodiversidade (FUNBio – 045/2011 – AFCoF II – Proteção da Mata Atlântica II) e Marcelo Magioli recebeu bolsa de estudos da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoa de Nível Superior (Capes). Esteve envolvida com o estudo Márcia Gonçalves Rodrigues, analista ambiental do Instituto Chico Mendes para a Conservação da Biodiversidade (ICMBio), responsável pela coordenação do projeto “Pagamento por Serviços Ambientais no Corredor das Onças”, ao qual o projeto esteve associado. Os professores Marcelo Zacharias Moreira e Plínio Barbosa Camargo, ambos do Centro de Energia Nuclear na Agricultura (Cena) da USP auxiliaram na etapa de análise de isótopos estáveis. A professora Eleonore Zulnara Freire Setz, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e a equipe de seu laboratório contribuíram na triagem e identificação das amostras fecais de onças-pardas. O professor Milton Cesar Ribeiro, da Universidade Estadual Paulista (Unesp), auxiliou na análise de dados, e a equipe de seu laboratório contribuiu na triagem e identificação das amostras fecais de felídeos e canídeos.

Mais informações: (19) 99842-1013 / 98108-9600; email marcelo.magioli@gmail.com, com Marcelo Magioli; (19) 2105-8693, email katia.ferraz@usp.br, com a professora Kátia Maria Paschoaletto Micchi de Barros Ferraz

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