Livro de professor da FEA explica características da gestão empresarial na América Latina

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Cacilda Luna / Assessoria de Imprensa da FEA

Durante 35 anos ele foi executivo de empresas de porte, a maior parte do tempo em multinacionais norte-americanas como Microsoft, Citibank, Iron Mountain e Ernst & Young. Conciliando desde 1981 a carreira de alto executivo com a de professor da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade (FEA) da USP, Paulo Roberto Feldmann conta que um dos principais problemas enfrentados por executivos brasileiros que trabalham em companhias estrangeiras, principalmente nos Estados Unidos, é explicar para os “gringos” como as coisas funcionam no Brasil, as características culturais que impactam na qualidade da gestão e os obstáculos que impedem o bom desempenho das empresas.

Paulo Feldmann acaba de lançar nos EUA o livro Management in Latin America: Threats and Opportunities in the Globalized World, pela editora Springer, com venda disponível pela Amazon. O objetivo do livro é analisar a qualidade da gestão empresarial e o desenvolvimento econômico na América Latina, e explicar o jeito latino-americano de gerir os negócios. Feldmann morou na Argentina, Venezuela e México, onde pode constatar as semelhanças com o Brasil no modo de administrar as empresas. Um dos aspectos culturais mais significativos é “o nosso apego à família e aos amigos”. O professor da FEA explica que para os empresários brasileiros “é muito mais importante colocar numa posição-chave na empresa um amigo do peito ou um parente do que um bom profissional”. Segundo ele, quando a família está no comando, as decisões de contratação, escolha e de avaliação de executivos são “emocionais”.

Outra característica é que, no Brasil, dificilmente o empresário abre o capital por receio de perder o controle do negócio. “Os grupos privados que fizeram isso deixaram uma parte muito pequena das ações para quem não é da família”, afirma Paulo Feldmann. Nos Estados Unidos, quando o empresário monta um negócio, a primeira coisa que ele faz, segundo o professor, é abrir o capital para captar recursos e alavancar o empreendimento. “Ele quer ganhar dinheiro. Ele passa a ter uma parte pequena das ações, mas a empresa cresce. Por isso que nos EUA ninguém sabe quem é o dono das grandes empresas americanas. Citibank e General Motors não têm dono”.

Mais um traço importante dos empresários latino-americanos, de acordo com Feldmann, é sua preferência por exercer influência política em vez de competir no mercado. Muitas vezes eles buscam apoio do governo, perdendo um tempo valioso em reuniões, no lugar de empregar o tempo para buscar o aumento efetivo da produtividade de suas empresas. Por outro lado, quando ocorrem prejuízos ou fracassos nas suas empresas, eles nunca assumem a culpa, apontado como responsável o governo, os fornecedores, os distribuidores, ou até mesmo os clientes.

Feldmann aponta ainda como um dos empecilhos do crescimento das empresas o fato de empresários brasileiros e latino-americanos nunca se unirem ao concorrente. “Concorrente é um inimigo que eles têm de aniquilar. Mas em outros países, as empresas se aliam com muita frequência com os concorrentes para fazer negócios que são bons para todos. Na Itália, por exemplo, as empresas pequenas, elas sozinhas não conseguem exportar. Mas elas se juntam, criam uma marca, e criam uma massa crítica para exportar. Isso é impossível no Brasil”. Outra característica negativa do brasileiro é a falta de inovação. “O brasileiro pensa que é empreendedor, mas não é. Quando a gente abre uma empresa aqui, não existe nada de inovador, ou é uma franquia ou os produtos já existem”.

Má qualidade de gestão no Brasil

Há algum tempo, o professor Paulo Feldmann tinha vontade de escrever um livro contando para os empresários estrangeiros as características da gestão das empresas latinas. Em 2011, quando participava de um congresso na Índia pela FEA, a editora regional da Springer assistiu à sua apresentação e se interessou em publicar o assunto.

Management in Latin America: Threats and Opportunities in the Globalized World traça o perfil das 100 maiores empresas da América Latina. Apesar de concentrar 8,5% da população mundial, a região representa pouco mais de 8% do PIB global, sediando apenas 12 (2,5%) das 500 maiores empresas do mundo.

Feldmann afirma que a qualidade da gestão empresarial nos países latino-americanos é muito baixa. Ele cita a pesquisa “World Management Survey” conduzida pelos professores Nicholas Bloom (Stanford University) e John Van Reenen (London School of Economics), realizada junto a 6 mil empresas de mais de 20 países, dentre os quais o Brasil. Nesse levantamento, os executivos avaliaram 18 práticas de gestão. O Brasil, que teve 500 empresas avaliadas, foi o penúltimo colocado, na frente apenas da Índia.

Em seu livro, de 163 páginas, Paulo Feldmann apresenta explicações para o atraso da América Latina no desenvolvimento econômico, e sugere maneiras de como as empresas latino-americanas podem aumentar sua produtividade e promover a inovação, a fim de melhorar o desempenho no mercado global.

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