Exposição resgata a trajetória do escultor László Zinner

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Valéria Dias / Agência USP de Notícias

No dia 10 de maio, na Casa da Fazenda, no Morumbi, em São Paulo, será inaugurada a exposição Ateliê Universalista, onde serão expostas 32 esculturas e 12 desenhos do escultor e desenhista judeu László Zinner. A curadoria é da professora Maria Luiza Tucci Carneiro, do Laboratório de Estudos sobre Etnicidade, Racismo e Discriminação (LEER) da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP.

A mostra resgata a trajetória artística e humana do escultor e desenhista, que é responsável pela criação da estatueta que dá forma ao Prêmio Juca Pato, concedido a intelectuais brasileiros.

László Zinner nasceu em 1908, em Dömos (Hungria), mas o antissemitismo presente em seu país e em outras nações europeias o obrigou a mudar de cidade ao longo da vida. Na década de 1920, foi para Budapeste rumo a Bruxelas, depois Paris, Madrid, Tanger, Lisboa, até chegar ao Rio de Janeiro, em 1946, e se fixar, posteriormente, em São Paulo, onde viveu até o final da vida, em 1977.

Naturalizado brasileiro, Zinner criou bustos e esculturas de califas (Mulei el Hassan Ben el Mehdi), presidentes (John F. Kennedy) e cantores (Frank Sinatra), entre outros, além de eternizar, com suas esculturas e desenhos, imagens de pessoas comuns. Zinner também foi professor de modelagem e um grande divulgador do esperanto.

“A trajetória de László Zinner como artista somente pode ser entendida quando se estuda também a história política da Hungria e da Europa dentro do contexto do antissemitismo e da ascensão do nazismo”, explica a professora. “A trajetória de vida coincide com aquela percorrida por outros milhares de refugiados expulsos de seus países pelo nazismo e pelo antissemitismo e que, assim como ele, tiveram familiares assassinados em campos de concentração”, completa Maria Luiza, que é a coordenadora do Arquivo Virtual do Holocausto (Arqshoah), projeto do LEER e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) que reúne depoimentos de sobreviventes do Holocausto, assim como objetos pessoais e documentos dos refugiados do nazifascismo.

Filho de pai católico e mãe judia, Zinner se converteu ao catolicismo em sua passagem por Lisboa. “Omitir sua origem judaica foi uma estratégia de sobrevivência”, explica a professora. Ela lembra que, entre 1933 e 1948, o governo brasileiro emitiu várias circulares secretas que dificultavam ou mesmo impediam a entrada de judeus no Brasil. Centenas de refugiados receberam vistos na condição de católicos ou como turistas em trânsito.

A exposição vai reproduzir a oficina de trabalho do artista, bem como disponibilizar uma cópia digitalizada do álbum-portfólio que Zinner construiu ao longo da vida com mensagens de autoridades e amigos, e recortes de jornais e revistas com notícias sobre a sua trajetória enquanto escultor e desenhista, publicados pela imprensa das diversas cidades onde morou. “Detalhes da trajetória de László Zinner foram recuperados com base neste álbum-portfólio, uma peça única da sua história de vida.”

Anônimos, califas, generais e Kennedy

A vida de Zinner foi marcada por convites especiais para retratar personalidades: o califa Mulei el Hassan Ben el Mehdi (alteza imperial do Marrocos, em 1943); o tenente general Don Luiz Rogaz y Yoldi (alto comissário da Espanha em Marrocos, em 1943);  Don Antonio Yuste (ex-governador militar de Tânger, em 1941); do general Don Genaro Uriarte (ex-governador militar de Tânger, em 1943), do bispo de Gallipolis de Marrocos, em 1943; e do ex-governador do Estado de São Paulo, Ademar de Barros (1949), e de vários reitores do Mackenzie onde lecionou durante décadas, dentre outros.

É dele também a autoria de uma escultura de John F. Kennedy abraçando um menino negro e que foi entregue ao presidente americano em outubro de 1963 na Casa Branca, em Washington, Estados Unidos, por uma comitiva brasileira.

László Zinner participou de inúmeras exposições individuais e coletivas nas cidades por onde passou sendo agraciado com importantes prêmios e medalhas em reconhecimento à sua arte. Em São Paulo, em 1950, participou da Exposição de Artes Plásticas da Reitoria da USP, recebendo o primeiro prêmio de escultura desta mostra.

Em Tanger, lecionou modelagem. Em São Paulo, a convite do arquiteto Christiano Stockller das Neves, foi professor de modelagem e artes plásticas no Mackenzie, além de coordenar o curso de Desenho e Plástica e de ter sido um dos fundadores dos cursos de Artes Plásticas da instituição.

Uma cópia do passaporte de Zinner já foi doada para o Arqshoah e sua trajetória estará disponível no catálogo da exposição e no site do projeto. Uma cópia digitalizada do Processo de Naturalização de László Zinner está sendo enviada pelo Arquivo Nacional do Rio de Janeiro, parceiro do projeto “De apátrida a cidadão brasileiro”, coordenado pela professora Maria Luiza.

A exposição pode ser visitada de 10 de maio (abertura) a 10 de junho, de terça a sábado, das 11 às 18 horas, na Casa da Fazenda (Av. Morumbi, 5594, Morumbi). Visitas monitoradas podem ser agendadas pelo email leer@usp.br.

Mais informações: emails malutucci@gmail.com, com a professora Maria Luiza Tucci Carneiro e silzinner@hotmail.com, com Silvana Zinner. Site http://www.arqshoah.com.br/

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