Casca e semente de uva geram pigmento funcional, revela pesquisa da FZEA

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Hérika Dias / Agência USP de Notícias

Restos de casca e semente de uva podem se transformar em uma substância em pó colorida (pigmento) com propriedades funcionais, como capacidade antioxidante, atividade antibacteriana, e ainda inibir uma enzima relacionada à doença leishmaniose: a arginase de Leishmania. Esses são alguns dos resultados obtidos por uma pesquisa da Faculdade de Zootecnia e Engenharia de Alimentos (FZEA) da USP, em Pirassununga.

O autor do estudo, o engenheiro de alimentos Volnei Brito de Souza, sob orientação da professora Carmen Sílvia Fávaro Trindade, analisou o aproveitamento dos subprodutos da produção de vinho da uva do tipo Bordô, variedade conhecida por ter uma grande quantidade de pigmento. Os testes in vitro mostraram que as cascas e sementes, que sobram após o processo de vinificação, podem se tornar um pigmento natural com aplicações na indústria farmacêutica, alimentícia e cosmética.

De acordo com o pesquisador, o pigmento apresenta, entre suas propriedades funcionais, a capacidade antioxidante que protege o corpo dos efeitos prejudiciais dos radicais livres (substâncias geradas no organismo, responsáveis por reações que prejudicam as células).

Foi constatada também atividade antibacteriana. O pigmento foi testado contra a ação de quatro bactérias patogências, que podem causar doenças, conseguindo inibir o crescimento de duas bactérias: Staphylococcus aureus e Listeria monocytogenes, relacionadas a infecções de origem alimentar. “Essa atividade antimicrobiana pode ser aproveitada, por exemplo, para inibir o crescimento dessas bactérias em diferentes produtos alimentícios”, explica Souza.

O engenheiro destaca que “o pigmento obtido poderia substituir os corantes sintéticos que podem ser tóxicos. O pigmento é natural, solúvel em água, não tem gosto e remete à uva por causa da cor roxa. Pode ser empregado em bebidas, iogurtes e cosméticos, entre outros”.

As amostras da pesquisa tiveram alta inibição da atividade da enzima arginase, associada ao metabolismo e a reprodução da Leishmania, protozoário causador da leishmaniose. “O pigmento poderia ser testado na produção de alguma droga para o tratamento da doença”, afirma o engenheiro de alimentos.

Pigmento

Para obter o pigmento, o pesquisador triturou as cascas e sementes de uva, junto com uma mistura contendo 50% de água e 50% de etanol. Depois extraiu o líquido e em seguida eliminou o álcool. Adicionou maltodextrina, um carboidrato que ajuda no processo de secagem do composto.

Para virar pó, o líquido (extrato + maltodextrina) foi colocado em um atomizador (aparelho para a secagem rápida de produtos finais de líquidos a pó). “Nesse processo, a secagem é instântanea, por isso o pigmento não perde suas propriedades funcionais ou sua cor”, observa Souza.

O estudo ainda testou a estabilidade do produto durante a armazenagem sob temperatura e umidade controladas, durante 120 dias. “Constatamos que quanto mais maltodextrina havia na amostra, maior é a proteção ao pigmento, mas, de um modo geral, o produto manteve todas as suas características no armazenamento”.

O trabalho também contou com a colaboração do professor Edson Roberto da Silva, da FZEA, e da professora Maria Inés Genovese Rodriguez, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas (FCF) da USP .

Mais informações: email volnei@usp.br

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