‘Inventando futuros’ debate internet e mercantilização do cotidiano

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Izabel Leão / Jornal da USP

Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP
Da esq. para a dir.: Sérgio Rizzo, Renato Cruz, Fredric Litto, Brasilina Passareli, Drica Guzzi e Sérgio Amadeu Silveira

A disseminação da internet e dos recursos digitais a cada dia promove uma revolução em vários aspectos de nossas vidas. A previsão é que, muito em breve, ela estará onipresente em todo tipo de utensílio e produto. O futuro, que está mais próximo do que pensamos, será conectado: o carro se comunica com a geladeira, que conversa com o smartphone, que aciona o alarme e as luzes de casa e manda entregar produtos consumíveis em sua residência.

Com a intenção de debater esses avanços e apontar tendências para o futuro, o Núcleo de Apoio à Pesquisa (NAP) das Novas Tecnologias de Comunicação Aplicadas à Educação da Escola do Futuro da USP promoveu um encontro no dia 22 de maio, na Tenda Ortega y Gasset, na Cidade Universitária. O evento fez parte das comemorações dos 25 anos da Escola do Futuro.

O evento Inventando Futuros contou com a moderação de Sérgio Rizzo, diretor de Projetos do Laboratório de Mídia e Educação (Mel – Media Educationlab), e a presença do fundador da Escola do Futuro, presidente da Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed) e professor da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, Fredric Litto. Estavam presentes também a professora Brasilina Passarelli, coordenadora científica da Escola do Futuro e docente da ECA; Drica Guzzi, coordenadora de Projetos e Pesquisas da Escola do Futuro e integrante da Câmara de Universalização e Inclusão Digital do Comitê de Gestão da Internet (CGI-br); Renato Cruz, colunista de Tecnologia do jornal O Estado de S. Paulo; e Sérgio Amadeu da Silveira, integrante do Comitê Científico Deliberativo da Associação Brasileira de Pesquisadores em Cibercultura (Abciber).

Rapidez

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Escola do Futuro

Segundo Sergio Silveira, com a mudança dos 32 bits para 128 bits, o acesso à internet será muito mais fácil e rápido, permitindo que se conectem muitos aparelhos à rede ao mesmo tempo. Ele cita o exemplo da geladeira computadorizada, que terá IP (protocolo de internet), assim como os computadores. Com isso, alguns dispositivos vão permitir saber, por exemplo, se está faltando ou não cerveja. Imediatamente se poderá entrar em contato, via celular, com empresas de entrega de bebidas, que vão encher novamente sua geladeira. “Esse futuro já está bem próximo”, afirmou.

Silveira abriu o debate citando o exemplo da geladeira para dizer que é preciso ter responsabilidade pelas informações que são disponibilizadas na rede, principalmente porque as detentoras das informações que circulam nela são as grandes corporações. “Essas empresas vão estruturar, com refinada precisão, o seu consumo diário, que por sua vez será cruzado com todas as informações que entregamos, diária e prazerosamente, às empresas Google.”

Ele lembrou que tudo está absolutamente concentrado nessa corporação e que a maioria das pessoas pensa que não existe o menor interesse em trabalhar com esses dados individuais. No entanto, ele ressaltou que o interesse está em usar os dados como amostragem. “Os dados de navegação dessas tecnologias que usamos na internet são cibernéticos, de comunicação, e permitem a liberdade de fluxos de informações, construindo uma base de controle sobre a técnica do feedback. Internet não existe sem feedback, sem controle. Esse controle é centralizado em cada suíte de protocolo que está na máquina de qualquer um. Ou seja, são os protocolos que fazem a internet funcionar.”

Nesse contexto, Silveira observou que, ao utilizarmos a internet, deixamos um enorme rastro digital e que a comunicação digital inverteu o ecossistema de comunicação.

Hoje o difícil não é falar, e sim ser ouvido. Embora as barreiras para se comunicar online tenham caído, o problema agora é como ganhar a atenção do receptor.

Esse problema tem gerado a “economia da atenção”, em que, como Silveira explicou, as corporações, para funcionar, precisam modular nosso comportamento, oferecendo o tempo todo elementos de consumo. “É a mercantilização completa do cotidiano, gerida pelas tecnologias móveis que nos acompanham diariamente e cada vez mais.”

Para se livrar desse controle, Silveira propõe a criptografia de todos os dados, bate-papos, e-mails e demais atividades utilizadas no computador, como forma de anular o processamento do banco de dados das grandes corporações.

Produtos

Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP
Foto: Cecília Bastos / Jornal da USP

Para o colunista de Tecnologia de O Estado de S. Paulo, Renato Cruz, tudo o que circula na rede nos vê como produto e não mais como clientes, e o controle das informações não está apenas nas mãos dos governos, mas também nas das grandes corporações.

Outro fato apresentado por Cruz foi a questão de sabermos melhor como financiar e implantar projetos em nosso país para não concentrar tudo nas mãos de poucos. Aproveitou para citar o autor de Neuromancer, Willian Gibson, para quem o futuro já chegou. “Só não está uniformemente distribuído.”

Cruz lembrou ainda que a indústria de eletrônicos brasileira produz equipamentos caros porque o País tem altas taxas de importação. É o caso do iPhone e iPad produzidos em Jundiaí, que são vendidos a preços exorbitantes, enquanto os produzidos na China vão para o restante do mundo.

O que nos falta é ambição para quem cria e produz, sem contar a falta de políticas públicas na área de produção.

O fundador da Escola do Futuro, professor Fredric Litto, iniciou sua fala com um questionamento: de que futuro estamos falando? Se a internet e seus recursos digitais provocam uma revolução em nossas vidas, a educação precisa ter novas competências e habilidades. Ele propôs que os alunos dominem muitas aptidões e interpretem diversas fontes históricas, escolhendo a mais significativa.

“Mais importante do que decorar a fórmula de Bhaskara ou as leis de Newton é fazer as perguntas certas, e apropriar-se dos temas transversais, que cruzam conhecimentos de várias disciplinas”, analisou.

Segundo ele, a escola do futuro terá estudos independentes, ou seja, será uma escola temática, com ligação com o mundo do trabalho. O cidadão terá uma formação mais completa, incluindo música, arte, literatura e cinema. Vai aprender, agir, pensar e comunicar com mais clareza e terá certificação e atualização constante de conhecimentos.

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