Debate marca lançamento da Revista USP – dossiê Futebol

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Marcello Rollemberg / Jornal da USP

Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP
Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP

Academia e futebol tiveram um importante encontro no dia 27 de maio, na Livraria da Vila do Shopping Higienópolis. Ali, em um auditório pequeno mas com uma plateia atenta – na qual estavam o ex-reitor Adolpho José Melfi e a professora da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP Lisbeth Rebollo Gonçalves, filha do artista plástico e ex-jogador do Corinthians Francisco Rebollo, que teve uma tela sua ilustrando a capa da revista –, foi lançado oficialmente o número 99 da Revista USP. E o tema de seu dossiê – o prato de resistência da revista – não poderia ser mais adequado nestes tempos pré-Copa do Mundo: futebol.

O lançamento foi marcado por um debate que contou com os professores Alberto Carlos Amadio – organizador do dossiê –, José Alberto Aguilar Cortez e Flávio de Campos, além dos jornalistas Jorge Vasconcellos e Paulo Calçade. Desses, apenas Calçade, da ESPN Brasil, não participou com artigo nesse número da revista. “O futebol é mais do que um esporte, é um fenômeno sociocultural que, como todos os fenômenos assim, é um sistema dinâmico, que se transforma constantemente. E podemos vislumbrar isso observando o futebol ao longo de sua história”, afirmou Amadio, que é professor da Escola de Educação Física e Esporte (EEFE) da USP, em sua fala de abertura.

Essa história – e sua transformação – à qual se referiu o organizador do dossiê foi esmiuçada ao longo dos 13 textos publicados na revista e nas falas dos outros palestrantes no encontro do dia 27. Afinal, como foi salientado, há tempos o futebol tem interfaces com o mundo econômico, tecnológico e educacional, e esse mundo da bola, muitas vezes, espelha o problema social.

Esse lado sociológico e antropológico do jogo mais popular do mundo foi salientado pelo professor Flávio de Campos, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. Ao lado do pesquisador Luiz Henrique de Toledo, ele assina o artigo “O Brasil na arquibancada: notas sobre a sociabilidade torcedora”, que trata das manifestações de torcedores de clubes que disputaram as séries B e C do Campeonato Brasileiro de 2012. O texto, elaborado a partir do trabalho de campo que os dois pesquisadores e uma grande equipe empreenderam, parte justamente de uma constatação: a de que o verdadeiro campeonato brasileiro se trava nas séries menos glamorosas do futebol, e não na série A.

Formas de torcer

Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP
Da esq. para a dir.: Flávio de Campos, Paulo Calçade, Jorge Vasconcellos, Alberto Carlos Amadio e José Alberto Aguilar Cortez

“A constatação pode até ser meio óbvia, mas necessária. É na série C, por exemplo, que há um panorama mais diversificado do futebol brasileiro. Com essa pesquisa, vimos a enorme variedade das formas de torcer no Brasil, a diversidade da expressão ‘torcedor’”, afirmou Campos no lançamento da Revista USP, lembrando ainda que esse dossiê faz um importante diálogo com um dossiê anterior sobre futebol, lançado pela revista em 1994, o ano do tetra. “O futebol envolve sociabilidades diversas, uma diversidade de valores, de expressividade e de vocalidade. A regionalidade do futebol é uma das coisas mais lindas do esporte.”

A regionalidade do futebol é uma das coisas mais lindas do esporte.

Campos ainda tocou em um ponto nevrálgico nas maneiras de torcer no Brasil: aquilo que ele chamou de “higienização social” e “domesticação dos corpos”, devido às novas arenas e suas cadeiras assépticas, que vão aos poucos substituindo o espaço mais democrático e hoje em extinção dos estádios e suas arquibancadas. “O Brasil real foi eliminado dos estádios, ao contrário do que aconteceu em 1950, na primeira Copa no País.”

Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP
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Professor Flávio de Campos

Se uma mudança está acontecendo fora dos campos, nas cadeiras e arquibancadas, como apontou Flávio de Campos, uma outra ocorre dentro das quatro linhas. E não é menos preocupante. Segundo José Alberto Aguilar Cortez, que escreveu, ao lado de outros cinco autores, o artigo “Crianças e jovens e a preparação do ‘craque’”, está havendo uma mudança acentuada na maneira de formar o jogador. “Hoje em dia há muita tecnologia, muita preparação, muito nutricionista, mas estão esquecendo o lado lúdico do futebol”, afirmou ele, que é também professor da EEFE. “Há a necessidade de entender que, na formação de novos jogadores, nas categorias de base, estamos lidando com crianças, e não com minijogadores. Talvez seja essa a razão pela qual, mesmo com a grandiosidade do Brasil, revelemos menos jogadores na base do que fazem, por exemplo, França e Holanda.”

Hoje em dia há muita tecnologia, muita preparação, muito nutricionista, mas estão esquecendo o lado lúdico do futebol.

Cortez se mostrou preocupado quanto ao caminho a seguir. “Nossa preocupação é verificar se não estamos no caminho errado, vendo crianças jogando como adultos. E precisamos valorizar a cognição do jogo, a inteligência, a tomada de decisões em uma fração de segundos, e não só a postura tática.”

Perfis de liderança

Essa preocupação, no entanto, não existia na época de craques como Zito, Zizinho, Didi, Djalma Santos, Domingos da Guia. Todos ícones do futebol brasileiro e que foram entrevistados, em 1994, por Jorge Vasconcellos para uma série radiofônica encomendada pelo serviço brasileiro da BBC de Londres e que, uma década mais tarde, virou livro. Para o jornalista, essas entrevistas o ajudaram a identificar os perfis – distintos – de liderança que surgiram em vários momentos do futebol brasileiro e que hoje parecem estar em falta – dentro e fora dos gramados.

Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP
Foto: Francisco Emolo / Jornal da USP

A importância de entender e debater o futebol no ambiente acadêmico, ressaltada por Jorge Vasconcellos, foi ainda mais reforçada pelo jornalista Paulo Calçade. “A gente maltrata demais o futebol, do ponto de vista do conhecimento, com muitos achando que ele não tem importância para o País, o que não é verdade. Um dos grandes erros do futebol brasileiro é fragmentar o conhecimento, em um jogo que não é nem pode ser fragmentado.”

A gente maltrata demais o futebol, do ponto de vista do conhecimento, com muitos achando que ele não tem importância para o País.

Calçade lembrou ainda como os estádios brasileiros têm ficado vazios, o que é muito preocupante. “Contando todos os jogos no Brasil em 2013, temos uma média de apenas 4 mil torcedores por jogo. Essa era a média do futebol inglês em 1904. Estamos atrasados em 110 anos com relação à Inglaterra, e isso precisa ser debatido, estudado”, afirmou ele, para reforçar: “Hoje, os grandes eventos de futebol, como a Copa do Mundo e a Champions, são eventos midiáticos, feitos para a televisão, e não para o torcedor ir ao estádio. Precisamos refundar o futebol no Brasil, e encontros como este são fundamentais”.

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