Oncovet integra especialistas para investigar câncer em animais

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Foto: Marcos Santos / USP Imagensxxxxx
Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Oncologia é multidisciplinar por essência, diz pesquisadora

À medida que a relação entre pessoas e animais foi se tornando mais estreita e afetuosa, também cresceu a preocupação da medicina veterinária em oferecer mais qualidade e tempo de vida aos bichos de estimação. Cerca de trinta anos atrás, pouco restava ao dono de um animal com uma doença grave, como o câncer, a não ser o sacrifício. Hoje, tanto o diagnóstico como o tratamento do câncer animal apresentam progressos e perspectivas muito mais otimistas.

Mas a oncologia veterinária ainda é uma especialidade relativamente nova, embora venha despertando o interesse de cada vez mais profissionais, que se reúnem em associações e eventos específicos da área. Buscando dar impulso a estudos integrados, aproveitando as diversas competências oferecidas por áreas como patologia, clínica e cirurgia, foi criado em 2012 o Núcleo de Apoio à Pesquisa em Oncologia Veterinária, o Oncovet, sob a coordenação da professora Maria Lucia Zaidan Dagli, da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP.

“A oncologia é multidisciplinar por essência”, afirma a veterinária. A física, por exemplo, é uma das áreas envolvidas nas pesquisas do núcleo, em especial quando se fala em tratamento. É o caso da eletroquimioterapia, uma técnica estudada pelo grupo e que envolve a aplicação de correntes elétricas no tumor, desestabilizando a membrana celular e facilitando a entrada de agentes que combatem as células tumorais.

Tratamento e prevenção

Atualmente, muitas das pesquisas do Oncovet vêm se voltando a novos tratamentos contra o câncer. Além da eletroquimioterapia, a terapia fotodinâmica também vêm despontando como uma forma de tratar os tumores de forma menos agressiva, com menos efeitos colaterais.

Em 2013, Maria Lucia passou a orientar uma pesquisa de doutorado que investiga o uso de um componente da toxina do Bacillus anthracis (a mesma bactéria que já foi usada como arma biológica nos Estados Unidos) no tratamento do melanoma oral de cães, um tipo bastante comum de câncer nesse animal. “Faremos o primeiro ‘clinical trial’ [ensaio clínico] em cães no Brasil”, conta a professora. O estudo é uma parceria com o National Institutes of Health, nos Estados Unidos, que também vem investigando os efeitos terapêuticos dessa toxina.

“Vamos começar com o melanoma e, se der certo, vamos começar a testar para outros tipos de tumor também”, afirma a coordenadora do Oncovet. Segundo Maria Lucia, os estudos sobre determinado tipo de câncer animal não apenas podem contribuir com para a compreensão dos demais tipos, como também ser usados para estudar o modelo humano – e vice-versa.

Foto: Marcos Santos / USP Imagensxxxxx
Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Eletroquimioterapia, terapia fotodinâmica, e cirurgia estão entre as modalidades de tratamento na oncologia veterinária

E assim como o câncer humano, também há campanhas de prevenção para os animais. Pesquisadores do núcleo da FMVZ participam com frequência de campanhas de prevenção ao câncer de mama em cadelas. “Trata-se de um tipo muito fácil de controlar, basta castrar as cadelas em idade precoce”, explica a professora.

O câncer de mama em cães é muito fácil de controlar, basta castrar as cadelas em idade precoce.

Veterinários promovem encontros em locais como o Parque Ibirapuera, em São Paulo, para aconselhar os donos dos animais e ensinar a apalpar as mamas para identificar possíveis tumores.

Registro de Câncer Animal

Uma forma de acompanhar o impacto deste tipo de campanha é observar se há mudanças no número de casos ao longo do tempo. Essa é uma das medidas que serão viabilizadas com a criação do Registro de Câncer Animal na cidade de São Paulo.

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Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Pesquisador do Núcleo desenvolve em São Paulo primeiro registro de câncer animal do hemisfério sul

Trata-se de um projeto desenvolvido atualmente na dissertação de mestrado do veterinário Marcello Vannucci Tedardi. “Quando queremos estudar a epidemiologia do câncer, é necessário um sistema que registre todas as ocorrências na população. Isso já existe para os seres humanos e agora estamos criando para os animais”, relata a professora Maria Lucia.

Tedardi desenvolveu um software para o registro de casos, que é feito pelos próprios responsáveis por clínicas veterinárias em São Paulo por meio de um tablet que lhes é fornecido. As diversas informações sobre o tipo de câncer e o desenrolar do tratamento vão alimentando um banco de dados que, futuramente, será disponibilizado em uma página na internet.

Já foram registrados cerca de 10 mil casos. “Existem poucos registros de câncer animal no mundo e este é o primeiro do hemisfério sul”, afirma a orientadora do trabalho. O projeto tem a co-orientação da professora Maria do Rosário Dias de Oliveira Latorre, uma das assessoras científicas do Registro de Câncer de Base Populacional do Município de São Paulo, que serviu de modelo para o desenvolvimento do Registro de Câncer Animal.

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