Produção televisiva britânica dá visibilidade aos estigmas sociais

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Sofia Calabria / Laboratório Agência de Comunicação 

Resultado de quatro meses de pesquisa de pós-doutorado no King’s College, em Londres, “Mídia e Estigmas Sociais” é o tema da professora Rosana de Lima Soares, do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE), apresentado no 1º Seminário de Difusão de Produção Científica da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP. Trabalhando o tema há quase uma década, a pesquisadora teve como uma de suas bases a temática dos “novos realismos” para analisar a produção televisiva britânica. A escolha pelo tema dos estigmas sociais partiu da constatação de sua universalidade, uma vez que, de acordo com Rosana, diz respeito aos modos de construção da representação de minorias sociais nas mídias. “A produção televisiva britânica é uma das mais representativas do mundo devido à peculiaridade que a emissora BBC, detentora de diversos canais e uma das únicas emissoras de televisão públicas, possui no campo de inovações temáticas, formais e políticas da produção audiovisual”, diz.

Uma das partes mais específicas da pesquisa tem como foco as “políticas da representação e dos regimes de visibilidade”. Além da análise de reportagens e documentários, Rosana frisa a forte presença dos “reality shows”. Diferente do que é encontrado aqui, a reality tv inglesa tem uma uma abordagem diferenciada, na qual problematiza e dá voz a grupos minoritários. “A presença de estigmas, de estereótipos e de preconceitos é vista lá como possibilidade de transformação dessas relações. Ali há uma busca. Quando você conversa com alguns realizadores ou produtores, isso se coloca como uma perspectiva intencional. Esse efeito de sentido não acontece por acaso. Ele se coloca ali como uma demanda em termos sociais”.

Rosana atribui a abordagem diferenciada da televisão britânica ao contexto social local, formado por grupos migratórios variados em contato e em conflito e aos modos de lidar com essas diferenças. “Há na televisão britânica, notadamente a BBC, a constante preocupação em apresentar inúmeros atores sociais representativos da nação, trazendo a diversidade cultural, étnica, social, econômica, racial, geracional, entre outras. Isso se reflete também na produção jornalística, em que há apresentadores de diversos grupos sociais, e atravessa também outros formatos televisivos”.

Como exemplo desse tipo produção, a pesquisadora cita o programa Make Bradford British, que trata problemas resultantes da imigração e da intolerância muitas vezes advinda do convívio entre grupos sociais divergentes. ”A construção de espaços de visibilidade para minorias sociais é uma preocupação deles. É um espaço que tenta, de alguma forma, mimetizar a diversidade cultural do país. É uma maneira de dar conta dessa variedade étnica, cultural, das questões de imigração e dos conflitos decorrentes disso”, comenta.

A escolha por essa abordagem ressalta a questão da alteridade, de acordo com Rosana, ou seja, quem é o outro para cada um em um contexto multicultural. “Isso se coloca não só como algo visual como as imagens que são mostradas, mas como um debate, que é tematizado nessas produções e nesses programas. A professora enfatiza a presença na produção britânica do desafio de como dar a ver o outro, como é possível enxergá-lo e, assim, estabelecer novas políticas para a construção da representação. Com relação aos resultados advindos dessa postura de produção, que no caso da BBC é difundida mundialmente, Rosana diz ser notável o amadurecimento de questões relativas ao convívio entre cada um em contextos multiculturais como o visto no Reino Unido.

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