ECA recebe pesquisadora alemã em debate sobre prestação de contas da imprensa

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Letícia Sakata / Laboratório Agência de Comunicação 

A professora Susanne Fengler, da Universidade Técnica de Dortmund, Alemanha, ministrou o workshop “Mídia, Democracia e Transparência”, no dia 29 de maio, a convite do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Comunicação (PPGCOM) e do Departamento de Jornalismo e Editoração (CJE) da Escola de Comunicações e Artes (ECA) da USP, em conjunto com a Universidade de Brasília (UnB) e com o Centro Alemão de Ciência e Inovação São Paulo (DWIH-SP). O evento fez parte da programação do ano Alemanha + Brasil (2013-2014) e contou com a participação do professor Fernando Oliveira Paulino, da UnB, e de Márcio Weichert, coordenador do DWIH-SP. A professora Mariângela Haswani, do Departamento de Relações Públicas, Propaganda e Turismo (CRP), fez a mediação da mesa.

Susanne é coordenadora do grupo de pesquisa Media Accountabilty and Transparency in Europe (MediaAcT), que reúne pesquisadores de 11 países da Europa com o objetivo de investigar os sistemas de prestação de contas dos veículos de comunicação em países europeus e do norte da África, visando compará-los e, a partir deste estudo, desenvolver meios de democratizar a imprensa e torná-la mais transparente.

Ela conta que o termo “media accountability”, em inglês, é o único que ela considera abrangente o suficiente para tratar deste tema. Seu significado deve carregar tanto a cobrança do público e de ferramentas de prestação de contas como a própria índole do jornalista. “Vai além de responsabilidade”, diz. No estudo do MediaAcT, a definição do francês Claude-Jean Bertrand foi utilizada: “Qualquer meio não estatal que responsabilize a mídia em relação a seu público”.

Em sua visita à ECA, a alemã apresentou os resultados da pesquisa realizada em 14 países e que foi dividida em três etapas. Em um primeiro momento, os pesquisadores analisaram, em cada local, a presença de métodos de prestação de contas da imprensa, como conselhos, ombudsman, código de ética e de redação e, também, a existência de pesquisas acadêmicas sobre este campo.

A partir desses dados, foi possível dividir os países em 2 grupos: norte e sul. Reino Unido, Finlândia, Alemanha, Holanda, Áustria e Suíça formam o primeiro grupo, no qual a formação de jornalistas é antiga e a profissão é extremamente enraizada. Nestes locais, de forma geral, existem métodos de fiscalização da imprensa que parte dela mesma, como conselhos e códigos de ética.

O segundo grupo, sul, é formado por França, Itália, Espanha, Romênia, Polônia, Tunísia e Jordânia, porém há diferentes padrões em alguns. Os países europeus deste grupo não possuem conselhos de imprensa, além de haver pouca crítica da mídia vinda internamente e o feedback do público começa, aos poucos, a surgir através das plataformas online. Os países africanos têm regulação da imprensa vinda do Estado, sendo caracterizada como uma forma de censura. Neles, o público também começa a participar através da internet.

A segunda etapa consistiu em entrevistas com 100 especialistas na área de jornalismo e comunicação online, visando a ideia de que a prestação de contas se modificou muito através das ferramentas que a internet oferece, como maior facilidade que o público tem de comentar e criticar os jornalistas.

Na terceira e última fase, 1.762 jornalistas de todos os países (entre 100 e 272 de cada um) responderam um formulário online. Foi a partir desta etapa que a pesquisadora reuniu uma vasta quantidade de dados. Por exemplo, foi feita a afirmação “Responsabilidade jornalística é um pré-requisito para a liberdade de imprensa” e os jornalistas deram notas entre 1 a 5 para ela, sendo que 1 significa não concordar e 5, concordar muito com a afirmação. Em todos os países média foi superior a 4, mesmo quando no país não exista liberdade de imprensa, como na Jordânia e na Tunísia.

Entretanto, quando a afirmação “Jornalistas se preocupam com as críticas que recebem do público” foi feita, nenhum país atingiu a média 4 no formulário e a média entre todas as respostas ficou em torno de 3. Ou seja, apesar de dizerem que devem ser responsáveis para que haja liberdade de imprensa, não acreditam que essa liberdade possa ser afetada pela opinião do público.

A pesquisa também mostrou que permitir que o público interaja mais e fazer com que jornalistas se expliquem quando alguma de suas decisões profissionais é questionada não são vontades dos profissionais, limitando o contato com a audiência a apenas um e-mail para contato, e não um espaço para comentários na internet, por exemplo.

Além disso, grande parte dos países do grupo norte acredita que sanções devem ser impostas aos profissionais que desrespeitarem códigos de ética para que a autorregulamentação funcione, entretanto Alemanha e Áustria tiveram respostas um pouco diferentes. Susanne explica que esses países passaram por episódios históricos, ligados ao nazismo, nos quais censura e punição a órgãos de imprensa eram muito presentes e frequentes, então seus profissionais permanecem receosos à implantação de sanções.

Do outro lado, os profissionais do Reino Unido foram os que mais concordaram com essa afirmação. “A pesquisa foi feita logo após o escândalo do jornal News of The World, ela conta. Nesse episódio, ocorrido em 2011, o tabloide foi denunciado pelo jornal The Guardian por hackear linhas telefônicas. Como passavam por uma crise na imprensa nacional, Susanne acredita que era previsível que os jornalistas pedissem por mais métodos de prestação de contas.

Antes de encerrar sua fala, ela aplica, de forma descontraída, a “Teoria da cerveja e do vinho” à divisão norte e sul. Os países que bebem cerveja tendem a concordar mais com a necessidade de prestação de contas da imprensa, enquanto os países que bebem vinho não concordam totalmente. “Isso está ligado à religião: os países protestantes são os que bebem cerveja, e os países católicos bebem vinho”. Brincando, ela diz “Queremos estudar vocês aqui no Brasil, que são de maioria católica, mas bebem cerveja!”.

Os dados da pesquisa do MediaAcT podem ser vistos na apresentação utilizada e disponibilizada pela professora Susanne Fengler.

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