Religião e família revelam vida da classe média carioca no século 20

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Foto: Wikimedia
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Está enganado quem pensa que os “santinhos” são tão somente aqueles papeis que inundam as cidades em época de eleições. Mesmo antes do início da República, os santinhos faziam parte da cultura nacional – estes, os originais, com a representação de santos, orações e paixões da religião católica, bastante presente no cotidiano das grandes cidades no início do século 20.

A professora de antropologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP e membro do Núcleo de Estudos das Diversidades, Intolerâncias e Conflitos (Diversitas), Margarida Maria Moura, observou este detalhe do modo de vida familiar e o apresentou no trabalho Santos Santinhos, publicado nos cadernos do Centro de Estudos Rurais e Urbanos (CERU), no qual buscou compreender os sistemas de troca, as representações mentais e as práticas religiosas no período que envolve os anos 1910 e 1960. Mas sua pesquisa, ainda em desenvolvimento, vai além da coleção de divindades em pedaços de papel. Margarida dedica-se ao estudo da forma festiva e sacramental que a classe média carioca, em sua fração mais abastada, se comportava.

Conversando é que se aprende

Foto: Divulgação
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Professora Margarida Maria Moura

Adepta à prática de uma interlocução entre suas fontes diretas, a professora revela que segue os preceitos etnográficos para sua pesquisa. A partir dos relatos de alguns nonagenários, que eram crianças durante os anos vinte, Margarida junta as peças para entender essa sociedade.

“Ao todo foram onze pessoas que me forneceram longas entrevistas, longas porque foram várias vezes entrevistadas”, explica a antropóloga. “A interlocução era na sala de visitas, com um lanche na frente e todo um ritual da fração posto em funcionamento”. Era comum, revela, que fossem trazidos chás e biscoitos para a conversa, aproximando a pesquisadora de suas fontes.

Além das entrevistas in loco, com a gravação das conversas e posterior preenchimento do diário da pesquisadora, em alguns casos – devido à distância ou a algumas doenças – a pesquisadora coleta textos finalizados, como é o caso de uma tia de Margarida, que antes de falecer presenteou a sobrinha com seu relato do período. A professora revela, entretanto, que deve tomar cuidado com a análise dos relatos pois, como se passaram muitos anos deste período, suas memórias podem, às vezes, tanto ser muito estendidas no seu valor positivo como no seu valor negativo. “Ou até são esquecidas”, afirma. “Tem que ter esse cuidado porque o tempo é grande que nos separam dessa época, são 90 anos”.

Margarida explica que procura evitar a inserção de referenciais externos em sua pesquisa para não confrontar o que é dito pelas fontes. A professora acredita que uma antropologia histórica local pode estabelecer um panorama sobre a sociedade local, “mas não será nunca uma instância”, declara. “Tenho visto que as histórias locais as vezes têm pouco a ver com o que está acontecendo nas cidades grandes, nos postos políticos, na presidência, no senado nacional”.

Sobre suas fontes, a antropóloga confirma: “são todas pessoas conhecidas da minha família”. Ela reconhece que por não fazer parte da geração deles, se relaciona de uma forma transversal com essas pessoas, que são amigos próximos ou distantes da família. Conta também que eles apresentam para ela seus arquivos, recortes de jornal, fotos de família, receitas de doce e suas partituras musicais. O que dá mais cor para as conversas.

Vida nos sobradinhos

Foto: Marcos Santos / USP Imagens
Foto: Marcos Santos / USP Imagens

O estudo tem local definido. Era nos sobrados da classe média carioca que aconteciam as trocas e interações familiares, conta a pesquisadora. As construções de dois ou três andares ficavam localizadas em bairros centrais da cidade do Rio de Janeiro, que era Distrito Federal na época. Neles, viviam famílias que reuniam, com frequência, três gerações- a professora explica que uma família grande, na época, era composta por avós, pais e filhos, e que poderiam contar também com a presença de membros colaterais, como tios e tias, solteiros, que viviam nestes imóveis por toda uma vida.

Era nas residências que a vida religiosa era praticada no dia a dia. “Essas pessoas frequentavam a religião católica de uma maneira muito doméstica”, explica Margarida. “Doméstica porque se fazia as orações de família nos oratórios, que eram pequenos aposentos nos quartos onde as pessoas rezavam o terço às 18 horas”. Mas as famílias vivenciavam também a rotina eclesiástica: frequentavam as missas nas paróquias e estavam presentes em irmandades e procissões.

Os sobrados eram um espaço com fluxo intenso de pessoas. A professora conta, por exemplo, que além das grandes famílias, havia um número bastante razoável de servidores domésticos – jardineiros, cozinheiras, copeiras, e as amas-secas (como eram chamadas as babás, na época). Como havia uma comunicação muito próxima com os servidores domésticos que moravam dentro da casa familiar, a religião católica não era a única praticada pelas famílias patronais. Aspectos mais mágicos da prática religiosa, conta a antropóloga, como mesinhas, orações, datas veneradas pela umbanda e candomblé, proteções e simpatias eram passadas também para os filhos das famílias.

Geração de artistas e pensadores

Foto: Wikimedia
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Autorretrato de Eliseu Visconti

Apesar de distante da cidade de São Paulo, que recebia à época a Semana de Arte Moderna, esta classe carioca foi responsável também por transformações no meio intelectual e artístico. “Os homens, quando concluíam seus cursos, participavam ativamente da produção de um conhecimento escrito que foi marcante no Rio de Janeiro dessa época”, explica Margarida. “Você tem gente de uma genialidade não só na profissão como na arte”.

A professora dá como exemplo o notório pianista e compositor Ernesto Nazareth, cujas partituras foram muito tocadas nos bares da cidade e também nas leiterias, lugares públicos que tinham um piano, que era tocado enquanto as pessoas tomavam seu leite maltado, seu café com leite ou até uma bebida mais fresca. Na época, os sorvetes começavam a chegar ao país, conta Margarida. “Não era o sorvete daquele tipo que vinha nos congeladores dos navios. A gente já tinha o sundae começando a surgir, e as pessoas ficavam fazendo essa social e ouvindo, entre outros, o piano de Ernesto Nazareth”.

Nas artes visuais, a antropóloga reconhece a importância do impressionista Eliseu Visconti que, segundo ela, vivia neste período seu apogeu. “Desde o final do século 19, ele produzia quadros de uma força afetiva absolutamente extraordinária, que tinham como cenário, por exemplo a cidade de Teresópolis”. O artista foi responsável, inclusive, pela pintura do pano de boca de cena (uma espécie de cortina) para o Teatro Municipal do Rio de Janeiro. Além dos dois, a professora reconhece que outros, menos conhecidos pelo nome, eram também produtores e reprodutores de um conhecimento acadêmico, através do exercício das suas profissões. “Todos eles tinham um grande gosto pela leitura e pela escrita”, conta a professora, que ressalta que mesmo a classe militar era leitora. “Você tinha uma classe militar muito mais culta do que em qualquer época mais recente na sociedade brasileira”.

As entrevistas estarão presentes em uma publicação sobre o tema, com os vídeos na íntegra, promete a professora. O lançamento da obra está previsto para o próximo ano.

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