Situação de rua e amor ao próximo são tema de pesquisa da FSP

Publicado em Sociedade, USP Online Destaque por em

Eram quase 11 horas da noite no bairro da Bela Vista, em um dia do ano de 1993. Um grupo de pessoas, vindas de lugares completamente diferentes, se reunia em volta de um caldeirão de sopa fumegante. Era o Grupo da Sopa, formado por voluntários que levam refeições aos moradores de rua na cidade de São Paulo. Nessa noite, a pesquisadora e psicóloga Aparecida Magali de Souza Alvarez tinha seu primeiro contato com o que seriam mais de 10 anos de estudo e pesquisa, realizados na Faculdade de Saúde Pública (FSP) da USP.

Além dessa experiência em sua vida pessoal, a psicóloga pertencia na época ao Centro de Estudos do Crescimento e Desenvolvimento do Ser Humano (CDH) da FSP, e já vinha estudando o conceito de resiliência – a capacidade humana de fazer frente às adversidades da vida, superá-las e sair delas fortalecidos ou, inclusive, transformados -, com base na autora norte-americana Edith Grotberg. A professora resolveu, então, estudar em seu mestrado aquele pequeno grupo de moradores de rua que conheceu no centro de São Paulo e a sua resiliência.

Amor na ciência?

Magali chegou à “maloca” – como era chamado o local onde ficavam esses moradores – e viu uma jovem grávida sentada em um sofá velho, junto ao companheiro. Em torno de uma fogueira, alguns deles se aqueciam, e no chão havia um homem envolvido por cobertas.

“Fui apresentada a esse homem, que me olhou e começou a cantar: Marina, morena Marina, você se pintou… Aquela voz bonita ecoou na noite, e eu fui realmente capturada pelo fenômeno, me interessei por tudo aquilo, por aquelas pessoas”.

Ela acompanhou o nascimento do bebê e a dedicação da jovem com seu filho durante os seis meses seguintes. A mãe acabou abandonando-o aos cuidados do pai, que largou o vício do álcool e passou a se dedicar integralmente àquela criança. Foi quando Magali observou o acontecimento do amor e começou a adentrar nos caminhos da reflexão sobre a inter e a transdisciplinaridade.

“Eu não sabia que na ciência não podia falar de amor. Conheci então a questão do paradigma da ciência clássica, que ainda não vê o fenômeno na sua totalidade e complexidade.”

A pesquisadora quis ir mais a fundo nessa questão e propôs sua pesquisa de mestrado na FSP, com base no estudo desse grupo e orientada pelo professor Cornelio Rosemburg. Segundo ela, sua proposta foi encarada com surpresa pela faculdade, que tradicionalmente não fazia esse tipo de pesquisa. Mas o maior entrave ao seu estudo consistia na dificuldade de analisar esse fenômeno metodologicamente. A solução veio de seu orientador: relacioná-la com o conceito do pensamento complexo – a união entre a simplicidade e a complexidade – do antropólogo, sociólogo e filósofo francês Edgar Morin.

Interação

No final de 1997/ início de 1998, Magali terminou seu mestrado ao mesmo tempo em que aquele grupo se desmanchou. Em seu lugar, outros moradores de instalaram na maloca, já ligados a questão da droga, do tráfico, da criminalidade. Ela decidiu então dar continuidade nessa linha de pesquisa em sua tese de doutorado, também na FSP.

A pesquisadora acompanhou esse novo grupo por cinco anos, em um processo investigativo que utilizava técnicas como entrevistas, gravações, fotos, observação e, principalmente, interação.

“Não é uma pesquisa nos moldes da ciência tradicional, em que você não se envolve. Eu estava num processo de interação com eles para entender as relações de transformação que aconteciam ali.”

Nesse convívio frequente, ela conta que aprendeu a levar o seu consultório para a rua e a criar um espaço de confiança com aquelas pessoas. “De repente você para de ouvir barulho de carro, de gente, você não escuta mais nada. Você está ali, na casa do sem casa, como se tivessem paredes invisíveis.”

A tese de doutorado de Magali acabou por originar o livro Transformações Humanas – Encontros, amor ágape e resiliência (Edusp, EDUC e Fapesp, 300 p., R$50,00), lançado no dia 16 de dezembro. Ele traz quatro histórias de transformações humanas, em uma tecelagem de conceitos baseada na relação de moradores de rua com uma professora.

Personagens reais

José, renascendo para a vida e encontrando a morte; Priscila, a mulher da casa caverna; Soviético, sobrevivente e ex-prisioneiro do Carandiru; o velho morador de rua Paulo e a professora Sílvia. A autora analisa nessa obra o encontro transformador dessas personagens com a professora aposentada, concretizado nas aulas de alfabetização oferecidas voluntariamente por ela em uma casa assistencial de uma igreja, no centro da cidade.

Soviético, que não conseguia aprender a ler e a escrever, passa a contar a história de sua vida com desenhos, dentro daquele espaço de confiança criado com a professora. “Com isso ele pôde olhar para si mesmo, sua vida de crimes, de abandono, de drogas. Aquela generosidade é nova para ele, e aquilo o transforma, cria o amor e a ética dentro dele.”

Magali identifica na professora o conceito de amor ágape – aquele aceitar o outro de maneira plena, não se importando quem ele é, o que já fez, o ser humano pelo ser humano, a capacidade enorme de perdoar e se auto perdoar, de dar sem esperar absolutamente nada em troca. Ela constata também a resiliência nascendo nessas personagens reais, concebida na obra como aquela “dança bem sucedida na música da vida. Não uma dança com bailarinos solitários: ela requer parcerias, empatias, encontros. Ela fala de amor.”

Saúde Pública

Segundo Magali, com o longo percurso de contato e vivência com esses moradores, isolados em uma cidade grande, seu estudo também traz estatísticas da quantidade de moradores de rua na cidade de São Paulo e oferece subsídios para as políticas públicas de saúde.  Ela propõe que se pense nessa questão sob a perspectiva do ser humano complexo que está presente naquele fenômeno.

“A sociedade olha para o morador de rua e vê lixo e farrapo humano. Não vê a vida que está pulsando ali, muitas vezes de uma pessoa recriando possibilidades, lutando com todas as forças para levantar daquela situação e vencer”, completa.

.