Cientistas do ICB catalogam genes causadores da coccidiose aviária

Publicado em Pesquisa, Saúde por em

Antonio Carlos Quinto / Agência USP

Pesquisadores do Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP descreveram o transcriptoma de três espécies mais importantes de Eimeria, o agente causador da coccidiose aviária. Transcriptoma é um termo que se refere ao conjunto de genes transcritos por uma célula, tecido ou estágio de desenvolvimento de um parasita. “Ao invés de sequenciar o genoma do organismo focamos os estudos diretamente nos RNAs mensageiros, que são moléculas transcritas a partir do genoma que codificam as proteínas de um ser vivo”, conta o professor Arthur Gruber, do ICB. As espécies estudadas foram E. acervulina, E. máxima e E. tenella.

Segundo o professor, a caracterização de genes de Eimeria poderá permitir a identificação de moléculas para a composição de vacinas contra a coccidiose aviária. “A catalogação dos genes causadores da doença é o primeiro passo”, ressalta o cientista. “Para muitas das proteínas já sabemos a função biológica. Mas há outras que desempenham papéis que ainda desconhecemos e que podem potencialmente funcionar como antígenos, isto é, serem capazes de induzir uma resposta imune.”

A caracterização de antígenos específicos do parasita poderia contribuir para o desenvolvimento de vacinas de subunidades. “Ao invés de se utilizar parasitas vivos, atenuados ou não, poderíamos empregar vacinas contendo um conjunto de proteínas imunizantes.” Com isso, o custo de produção de vacinas de subunidades seria mais barato do que as atuais vacinas vivas, que exigem a propagação de parasitas em condições sanitárias bastante restritas e com o uso de animais.

Acesso público

Gruber ressalta que a aplicação dos dados gerados é complexa, e futuros estudos demandarão ainda tempo e recursos. O que os cientistas conseguiram descobrir até o momento está disponível num endereço na internet. “Qualquer pessoa no mundo pode acessar os dados e aplicá-los no desenvolvimento de novas formas de controle da doença”, conta. “Cabe a nós brasileiros, pesquisadores, governo e empresários, a responsabilidade de garantir que essa tecnologia possa ser desenvolvida no Brasil.”

Gruber e a professora Alda Madeira, também do ICB, lideram o grupo de pesquisadores que acabam de publicar um artigo sobre a descoberta no International Journal for Parasitology. Este estudo foi inteiramente conduzido no Brasil e envolveu uma equipe multidisciplinar que inclui veterinários, biólogos e pesquisadores da área de computação.

A doença

A coccidiose aviária é considerada a doença mais importante da produção avícola no mundo, pelos prejuízos econômicos e por sua disseminação. Na galinha doméstica é causada por sete diferentes espécies de parasitas do gênero Eimeria, e a infecção no campo pode ocorrer por uma ou mais espécies simultaneamente.

Os parasitas são eliminados no ambiente pelas fezes, num estágio de desenvolvimento denominado oocisto. No piso, os oocistos sofrem em poucos dias um processo de esporulação, convertendo-se no oocisto esporulado, a forma infectante do parasita. “As aves têm o hábito de ciscar a cama do piso e, ao fazê-lo, podem ingerir os oocistos e se infectar”, descreve Gruber.

No organismo da ave, os parasitas invadem células da mucosa intestinal, onde se multiplicam e levam à sua destruição. A destruição maciça das células intestinais leva a um quadro clínico de enterite, caracterizado por diarreia de grau variável, podendo no caso de algumas espécies de Eimeria ser hemorrágica. Uma das consequências dessa doença é uma redução importante da capacidade do intestino em absorver nutrientes. Com isso, os animais de engorda, denominados pintos de corte, consomem a ração, mas ganham menos peso do que animais sadios. Isso para o produtor avícola isso representa um enorme prejuízo.

A mortalidade dos animais é relativamente baixa. Segundo o professor, a coccidiose aviária é uma doença cosmopolita e está disseminada em todo o mundo. Outro aspecto importante é que a doença é específica. Isso significa que a coccidiose da galinha doméstica não afeta outras espécies de aves, nem o homem.

Mais informações: (11) 3091-7274, com o professor Arthur Gruber, email argruber@usp.br

.